O silêncio não era ausência de som.
Era presença.
Uma presença densa, quase física, que envolvia tudo como um manto invisível e sufocante. Não havia eco, não havia respiração audível, não havia sequer o leve ruído que normalmente acompanha a própria existência.
Era como se o universo tivesse sido colocado em pausa.
Mas não uma pausa comum.
Uma pausa… consciente.
Elias estava ali.
Ou pelo menos acreditava estar.
Porque naquele espaço, até a noção de “estar” parecia frágil, instável, como se pudesse desaparecer a qualquer instante.
Ele tentou respirar.
O movimento veio.
O peito subiu.
Mas o ar… não existia.
Ainda assim, ele continuava.
Continuava a pensar.
Continuava a sentir.
E, acima de tudo…
Continuava a lembrar.
Caio.
O nome atravessou sua mente como uma lâmina.
Imediato.
Doloroso.
Inescapável.
— Isto não é real… — murmurou, mas a própria voz não ecoou. Ela simplesmente… existiu, e desapareceu.
— Depende do que chamas de real.
A resposta veio sem direção.
Sem origem.
Mas familiar.
Elias virou-se lentamente.
A pessoa sem tempo estava ali.
Não havia movimento de chegada.
Não havia transição.
Ela simplesmente fazia parte daquele espaço, como se fosse uma extensão dele.
Ou talvez…
Como se o espaço fosse uma extensão dela.
Elias passou a mão pelo rosto, tentando recuperar algum tipo de controlo.
— Onde estamos?
Ela observou-o com aqueles olhos que não pertenciam a uma única realidade.
— Num lugar onde as escolhas não foram esquecidas.
Ele franziu a testa.
— Isso não é um lugar.
— Para ti, não — respondeu ela. — Para o tempo… é essencial.
Silêncio.
Elias caminhou alguns passos.
Ou acreditou que caminhou.
Porque não havia chão.
Não havia referência.
Ainda assim, ele movia-se.
— Eu fiz uma escolha… — disse ele, com a voz mais pesada agora — …e perdi o meu filho.
A entidade não respondeu de imediato.
E isso… pesou ainda mais.
— Perdeste uma versão dele — disse ela finalmente.
Elias virou-se bruscamente.
— Não.
A palavra saiu firme.
— Eu perdi o Caio.
Ela inclinou ligeiramente a cabeça.
— Define “o Caio”.
A pergunta irritou.
Mais do que deveria.
— O meu filho.
— Isso é uma definição emocional — respondeu ela. — Não uma constante temporal.
Elias aproximou-se.
Agora mais intenso.
— Para mim, é a única constante que importa.
Silêncio.
E pela primeira vez…
Ela não respondeu imediatamente.
— Então é por isso que estás aqui — disse ela, finalmente.
— Eu vim buscá-lo.
Sem hesitação.
Sem dúvida.
Ela aproximou-se.
O espaço ao redor dela pareceu ajustar-se.
— Sabes o que isso implica?
— Implica que eu não volto sem ele.
—
Um leve tremor percorreu o ambiente.
Mas não era destruição.
Era reação.
Como se aquele lugar — aquele não-lugar — estivesse consciente da decisão dele.
— Tu não devias estar aqui — disse a entidade.
— Eu também não devia ter perdido o meu filho.
Silêncio.
— Cada escolha elimina infinitas outras — disse ela. — Ao escolher uma realidade, condenas todas as restantes ao esquecimento.
— Mas não ao desaparecimento — respondeu Elias, olhando ao redor.
Ela não negou.
— Não completamente.
Elias deu mais um passo.
— Então ele está aqui.
— Uma versão dele está.
Elias não hesitou.
— É suficiente.
—
A entidade levantou levemente a mão.
E o espaço mudou.
Não houve transição.
Não houve movimento.
Mas, de repente, Elias já não estava no vazio uniforme.
Ele estava rodeado por fragmentos.
Cenas.
Momentos.
Realidades incompletas.
Como pedaços de vidro flutuando num oceano invisível.
Ele viu versões de si mesmo.
Algumas mais velhas.
Outras quebradas.
Outras… completamente diferentes.
Viu Lara.
Em algumas, sorrindo.
Em outras… desaparecendo.
E então—
Viu Caio.
Criança.
Adolescente.
Ausente.
Presente.
Em algumas versões, nunca existiu.
Em outras, era tudo.
Elias parou.
O peso daquilo esmagava.
— Isto tudo… — disse ele, com dificuldade — …são vidas que nunca aconteceram?
— São possibilidades que não escolheste.
— E continuam aqui?
— Até deixarem de importar.
Elias fechou os olhos por um instante.
— Ele importa.
—
Um som.
Fraco.
Quase imperceptível.
Mas suficiente.
— Pai…?
Elias congelou.
O coração acelerou violentamente.
— Caio…?
Silêncio.
E então, mais claro:
— Pai… estás aí?
Elias começou a mover-se.
Primeiro devagar.
Depois mais rápido.
Depois correndo.
Sem direção definida.
Guiado apenas pela voz.
— CAIO!
O espaço reagia.
Distorcia-se.
Mas ele não parava.
— Pai!
E então—
Ele viu.
Caio.
De pé.
Sozinho.
Num espaço que parecia… incompleto.
Como se estivesse sendo apagado aos poucos.
As bordas do corpo dele tremiam, desfazendo-se por milésimos de segundo.
Elias parou.
O mundo inteiro resumido naquele instante.
— Caio…
A voz dele falhou.
O garoto olhou para ele.
E sorriu.
Mas havia algo diferente.
Algo mais… consciente.
— Eu sabia que ias vir.
Elias aproximou-se lentamente.
Cada passo carregado de medo.
Como se qualquer erro pudesse fazê-lo desaparecer.
— Eu nunca te ia deixar…
Caio inclinou a cabeça.
— Mas deixaste.
A frase atingiu.
Direto.
Sem defesa.
Elias engoliu em seco.
— Eu não tive escolha.
Caio respondeu, com calma desconcertante:
— Tiveste.
Silêncio.
Elias ajoelhou-se diante dele.
— Eu fiz o que precisava para salvar o mundo.
Caio olhou para baixo.
Depois para ele.
— E eu?
A pergunta não tinha resposta.
E isso era o pior.
—
Elias estendeu a mão.
Mas hesitou antes de tocar.
Como se ainda não acreditasse.
— Eu vou consertar isto.
Caio balançou a cabeça lentamente.
— Não podes.
— Posso.
— Não, pai…
O corpo dele falhou novamente.
Como interferência.
— Eu não pertenço mais ao teu mundo.
Elias sentiu o desespero crescer.
— Então eu mudo o mundo!
Silêncio.
Caio olhou para ele.
E havia tristeza.
Mas também aceitação.
— Se fizeres isso… tudo quebra outra vez.
— Então quebre!
A resposta veio sem filtro.
Sem medo.
Apenas verdade.
—
A pessoa sem tempo apareceu ao lado deles.
— Se o levares… vais reativar o colapso.
Elias levantou-se.
— Eu já sabia disso.
— E mesmo assim escolheste vir.
— Porque eu escolho ele.
Silêncio.
Ela observou-o de forma diferente agora.
Como se algo nele tivesse mudado o equilíbrio.
— Estás disposto a perder tudo outra vez?
Elias olhou para Caio.
E respondeu:
— Eu já perdi.
—
O espaço começou a ruir.
Mais rápido.
Mais agressivo.
As realidades ao redor começavam a colidir.
Fragmentos atravessando-se.
Memórias misturando-se.
—
Caio olhou ao redor.
— Pai… não temos muito tempo.
Elias estendeu a mão.
Desta vez sem hesitar.
— Vem comigo.
O garoto hesitou.
Um segundo.
Dois.
E então…
Segurou.
—
No instante em que as mãos se tocaram—
O espaço gritou.
Sem som.
Mas com força.
O universo reagiu.
—
E algo antigo…
Algo fundamental…
Foi quebrado.