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1276 Words
O som das sirenes desaparecia lentamente atrás deles, abafado pelas paredes húmidas do túnel subterrâneo. Ainda assim, nenhum dos três ousava abrandar o passo. Elias liderava, com respiração pesada, enquanto Lara mantinha-se logo atrás, e Caio, surpreendentemente firme, analisava o caminho à frente como se já o conhecesse. O ar ali embaixo era denso, carregado de ferrugem e abandono. Mas não era isso que tornava o ambiente sufocante. Era a sensação de que algo havia mudado. Definitivamente. Elias sentia isso nos ossos. Não era apenas a perseguição da Ordem de Orpheus. Não era apenas Victor Salgado. Era algo maior — algo invisível, mas profundamente presente. O tempo… estava diferente. — Vocês sentem isso? — perguntou Lara, quase num sussurro, como se tivesse medo de dar forma ao pensamento. Elias não respondeu de imediato. Ele apenas assentiu, lentamente. Caio parou. De repente. — Não… — disse ele, olhando para o vazio à frente, como se enxergasse algo que os outros não viam. — Não é só uma sensação. Elias virou-se rapidamente. — O que foi? Caio levantou o tablet, os dedos tremendo pela primeira vez desde que tudo começou. — As linhas temporais… estão a sobrepor-se. Um silêncio pesado caiu. — Explica — disse Elias, já tenso. Caio respirou fundo. — Antes… o tempo seguia um padrão previsível. Mesmo com variações, havia coerência. Mas agora… — ele ampliou um gráfico no ecrã — …existem múltiplos eventos a acontecer no mesmo ponto temporal. Lara franziu a testa. — Isso é impossível. — Era — corrigiu Caio. — Agora não é mais. Elias sentiu o estômago revirar. — Isso tem a ver com… ela — disse ele, referindo-se à pessoa sem tempo. Caio hesitou. — Não só com ela… connosco também. Essas palavras pairaram no ar como uma sentença. Elias aproximou-se lentamente. — O que queres dizer com isso? Caio olhou diretamente para o pai. — Desde que entrámos em contacto com ela… nós deixámos de ser apenas observadores. Lara arregalou ligeiramente os olhos. — Estamos a interferir? — Não — disse Caio, mais sério ainda. — Estamos a ser integrados. Elias sentiu um frio profundo percorrer-lhe a espinha. Aquilo ia muito além do que ele tinha previsto. Muito além da ciência. — Então… o que está a acontecer ao tempo? — perguntou Lara. Caio respondeu sem hesitar: — Ele está a quebrar. Um estrondo distante ecoou pelo túnel. Todos se viraram instintivamente. — Eles estão mais perto — disse Lara. Elias apertou os punhos. — Temos de continuar. Mas antes que dessem mais um passo… As luzes do túnel começaram a piscar. Uma. Duas. Três vezes. E então— Tudo parou. Não houve explosão. Não houve som. Não houve movimento. O tempo… simplesmente… congelou. Uma gota de água suspensa no ar. Um eco interrompido no meio do som. Elias tentou mover-se— E conseguiu. Lara também. Caio deu um passo à frente, incrédulo. — Isto não é possível… E então ela apareceu. A pessoa sem tempo. Não caminhando. Não surgindo. Mas existindo ali, entre eles. Como se sempre tivesse estado. — Vocês começaram a sentir — disse ela, com voz calma. — Isso significa que já não pertencem apenas a uma linha temporal. Elias aproximou-se. — O que está a acontecer connosco? Ela olhou diretamente para ele. — Vocês tornaram-se pontos de decisão. Lara franziu o rosto. — Isso não responde nada. — Responde tudo — disse a entidade. Caio estava completamente focado. — Estamos a dividir o tempo? — Não — respondeu ela. — Vocês estão a criar caminhos. Elias passou a mão pelo rosto, tentando manter o controlo. — Isso não faz sentido. O tempo não funciona assim. A pessoa sem tempo inclinou ligeiramente a cabeça. — O tempo nunca funcionou como vocês pensavam. Silêncio. Pesado. Denso. Inescapável. — Cada escolha cria uma possibilidade — continuou ela. — Mas agora… as possibilidades estão a manifestar-se simultaneamente. Lara deu um passo atrás. — Isso quer dizer que… existem várias versões da realidade? — Sim. — E elas estão… a colidir? — perguntou Elias. A resposta foi simples. — Já começaram. Nesse exato momento— O túnel mudou. Por um breve segundo… Elias viu outra versão do mesmo lugar. Destruído. Em chamas. Corpos no chão. Lara… caída. Caio… desaparecido. E então— Tudo voltou ao normal. Elias recuou, ofegante. — Vocês viram isso?! Lara estava pálida. — Eu vi… Caio não disse nada. Porque ele ainda estava a olhar para frente. — Não foi uma visão — disse ele, em voz baixa. — Foi real. Elias virou-se lentamente. — O quê? — Foi uma das possibilidades. O silêncio voltou. Mais pesado do que antes. — Se isso continuar… — disse Lara — …como vamos saber o que é real? A pessoa sem tempo respondeu: — Vocês não vão saber. Elias fechou os olhos por um instante. — Então como vencemos? Ela aproximou-se. Mais do que nunca. — Escolhendo. Ele abriu os olhos. — Escolhendo o quê? — O caminho que querem tornar real. Caio finalmente falou: — E se escolhermos errado? A resposta foi direta. — Então viverão com essa realidade. O peso dessas palavras era esmagador. Elias respirou fundo. — A Ordem de Orpheus… eles sabem disso? — Sabem o suficiente — disse ela. — E é por isso que querem controlo. Lara cerrou os dentes. — Porque assim eliminam as outras possibilidades… — Exatamente. Caio deu um passo à frente. — Eles querem um único futuro. Elias completou: — Um futuro controlado. A entidade assentiu. — E vocês… são o único obstáculo. O tempo voltou. De repente. O som regressou com violência. Explosões. Passos. Vozes. — MOVAM-SE! — gritou Lara. Eles correram. Mas agora… tudo era diferente. Cada decisão… Cada movimento… Podia mudar tudo. E pela primeira vez— Elias percebeu algo que nunca tinha considerado. Eles não estavam apenas a fugir. Eles estavam a escrever o futuro. E qualquer erro… Não poderia ser apagado. --- Minutos depois, emergiram num nível inferior da cidade, uma antiga estação abandonada. Ofegantes. Cobertos de suor. Mas vivos. Por enquanto. Lara encostou-se à parede. — Nós estamos completamente fora de controlo… — Não — disse Caio, surpreendendo os dois. — Estamos mais próximos do controlo do que nunca. Elias olhou para ele. — Explica. Caio levantou o tablet. — Se conseguimos ver múltiplas possibilidades… podemos escolher a melhor. Lara abanou a cabeça. — Isso é perigoso. — Tudo isto é — respondeu ele. Elias ficou em silêncio. Pensando. Processando. E então disse: — Talvez seja isso. Ambos olharam para ele. — Talvez não seja sobre impedir o futuro… Ele respirou fundo. — Talvez seja sobre escolher o certo. Lara cruzou os braços. — E como sabemos qual é o certo? Elias respondeu, com firmeza: — Nós decidimos. Um som metálico ecoou. Passos. Lentos. Precisos. E então uma voz. Fria. Controlada. — Finalmente… começaram a entender. Victor Salgado. Ele estava ali. Sozinho. Mas completamente seguro. — Vocês já viram, não viram? — disse ele, aproximando-se. — As múltiplas realidades… o colapso… o caos. Elias avançou um passo. — E tu queres controlar isso. Victor sorriu. — Eu quero impedir o caos. Lara respondeu imediatamente: — Controlando tudo? — Organizando tudo — corrigiu ele. Caio observava em silêncio. — Vocês ainda não perceberam — continuou Victor. — Liberdade absoluta gera destruição. Sempre gerou. Elias respondeu: — E controlo absoluto gera e********o. Victor parou. Olhou diretamente para ele. — Prefiro um mundo estável… do que um mundo livre e destruído. Silêncio. A tensão era insuportável. — Então somos inimigos — disse Elias. Victor assentiu lentamente. — Sempre fomos. E naquele instante— O tempo voltou a falhar. Mas desta vez… Eles estavam prontos.
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