O som das sirenes desaparecia lentamente atrás deles, abafado pelas paredes húmidas do túnel subterrâneo. Ainda assim, nenhum dos três ousava abrandar o passo. Elias liderava, com respiração pesada, enquanto Lara mantinha-se logo atrás, e Caio, surpreendentemente firme, analisava o caminho à frente como se já o conhecesse.
O ar ali embaixo era denso, carregado de ferrugem e abandono. Mas não era isso que tornava o ambiente sufocante.
Era a sensação de que algo havia mudado.
Definitivamente.
Elias sentia isso nos ossos.
Não era apenas a perseguição da Ordem de Orpheus. Não era apenas Victor Salgado. Era algo maior — algo invisível, mas profundamente presente.
O tempo… estava diferente.
— Vocês sentem isso? — perguntou Lara, quase num sussurro, como se tivesse medo de dar forma ao pensamento.
Elias não respondeu de imediato. Ele apenas assentiu, lentamente.
Caio parou.
De repente.
— Não… — disse ele, olhando para o vazio à frente, como se enxergasse algo que os outros não viam. — Não é só uma sensação.
Elias virou-se rapidamente.
— O que foi?
Caio levantou o tablet, os dedos tremendo pela primeira vez desde que tudo começou.
— As linhas temporais… estão a sobrepor-se.
Um silêncio pesado caiu.
— Explica — disse Elias, já tenso.
Caio respirou fundo.
— Antes… o tempo seguia um padrão previsível. Mesmo com variações, havia coerência. Mas agora… — ele ampliou um gráfico no ecrã — …existem múltiplos eventos a acontecer no mesmo ponto temporal.
Lara franziu a testa.
— Isso é impossível.
— Era — corrigiu Caio. — Agora não é mais.
Elias sentiu o estômago revirar.
— Isso tem a ver com… ela — disse ele, referindo-se à pessoa sem tempo.
Caio hesitou.
— Não só com ela… connosco também.
Essas palavras pairaram no ar como uma sentença.
Elias aproximou-se lentamente.
— O que queres dizer com isso?
Caio olhou diretamente para o pai.
— Desde que entrámos em contacto com ela… nós deixámos de ser apenas observadores.
Lara arregalou ligeiramente os olhos.
— Estamos a interferir?
— Não — disse Caio, mais sério ainda. — Estamos a ser integrados.
Elias sentiu um frio profundo percorrer-lhe a espinha.
Aquilo ia muito além do que ele tinha previsto.
Muito além da ciência.
— Então… o que está a acontecer ao tempo? — perguntou Lara.
Caio respondeu sem hesitar:
— Ele está a quebrar.
Um estrondo distante ecoou pelo túnel.
Todos se viraram instintivamente.
— Eles estão mais perto — disse Lara.
Elias apertou os punhos.
— Temos de continuar.
Mas antes que dessem mais um passo…
As luzes do túnel começaram a piscar.
Uma.
Duas.
Três vezes.
E então—
Tudo parou.
Não houve explosão.
Não houve som.
Não houve movimento.
O tempo… simplesmente… congelou.
Uma gota de água suspensa no ar.
Um eco interrompido no meio do som.
Elias tentou mover-se—
E conseguiu.
Lara também.
Caio deu um passo à frente, incrédulo.
— Isto não é possível…
E então ela apareceu.
A pessoa sem tempo.
Não caminhando.
Não surgindo.
Mas existindo ali, entre eles.
Como se sempre tivesse estado.
— Vocês começaram a sentir — disse ela, com voz calma. — Isso significa que já não pertencem apenas a uma linha temporal.
Elias aproximou-se.
— O que está a acontecer connosco?
Ela olhou diretamente para ele.
— Vocês tornaram-se pontos de decisão.
Lara franziu o rosto.
— Isso não responde nada.
— Responde tudo — disse a entidade.
Caio estava completamente focado.
— Estamos a dividir o tempo?
— Não — respondeu ela. — Vocês estão a criar caminhos.
Elias passou a mão pelo rosto, tentando manter o controlo.
— Isso não faz sentido. O tempo não funciona assim.
A pessoa sem tempo inclinou ligeiramente a cabeça.
— O tempo nunca funcionou como vocês pensavam.
Silêncio.
Pesado.
Denso.
Inescapável.
— Cada escolha cria uma possibilidade — continuou ela. — Mas agora… as possibilidades estão a manifestar-se simultaneamente.
Lara deu um passo atrás.
— Isso quer dizer que… existem várias versões da realidade?
— Sim.
— E elas estão… a colidir? — perguntou Elias.
A resposta foi simples.
— Já começaram.
Nesse exato momento—
O túnel mudou.
Por um breve segundo…
Elias viu outra versão do mesmo lugar.
Destruído.
Em chamas.
Corpos no chão.
Lara… caída.
Caio… desaparecido.
E então—
Tudo voltou ao normal.
Elias recuou, ofegante.
— Vocês viram isso?!
Lara estava pálida.
— Eu vi…
Caio não disse nada.
Porque ele ainda estava a olhar para frente.
— Não foi uma visão — disse ele, em voz baixa. — Foi real.
Elias virou-se lentamente.
— O quê?
— Foi uma das possibilidades.
O silêncio voltou.
Mais pesado do que antes.
— Se isso continuar… — disse Lara — …como vamos saber o que é real?
A pessoa sem tempo respondeu:
— Vocês não vão saber.
Elias fechou os olhos por um instante.
— Então como vencemos?
Ela aproximou-se.
Mais do que nunca.
— Escolhendo.
Ele abriu os olhos.
— Escolhendo o quê?
— O caminho que querem tornar real.
Caio finalmente falou:
— E se escolhermos errado?
A resposta foi direta.
— Então viverão com essa realidade.
O peso dessas palavras era esmagador.
Elias respirou fundo.
— A Ordem de Orpheus… eles sabem disso?
— Sabem o suficiente — disse ela. — E é por isso que querem controlo.
Lara cerrou os dentes.
— Porque assim eliminam as outras possibilidades…
— Exatamente.
Caio deu um passo à frente.
— Eles querem um único futuro.
Elias completou:
— Um futuro controlado.
A entidade assentiu.
— E vocês… são o único obstáculo.
O tempo voltou.
De repente.
O som regressou com violência.
Explosões.
Passos.
Vozes.
— MOVAM-SE! — gritou Lara.
Eles correram.
Mas agora… tudo era diferente.
Cada decisão…
Cada movimento…
Podia mudar tudo.
E pela primeira vez—
Elias percebeu algo que nunca tinha considerado.
Eles não estavam apenas a fugir.
Eles estavam a escrever o futuro.
E qualquer erro…
Não poderia ser apagado.
---
Minutos depois, emergiram num nível inferior da cidade, uma antiga estação abandonada.
Ofegantes.
Cobertos de suor.
Mas vivos.
Por enquanto.
Lara encostou-se à parede.
— Nós estamos completamente fora de controlo…
— Não — disse Caio, surpreendendo os dois. — Estamos mais próximos do controlo do que nunca.
Elias olhou para ele.
— Explica.
Caio levantou o tablet.
— Se conseguimos ver múltiplas possibilidades… podemos escolher a melhor.
Lara abanou a cabeça.
— Isso é perigoso.
— Tudo isto é — respondeu ele.
Elias ficou em silêncio.
Pensando.
Processando.
E então disse:
— Talvez seja isso.
Ambos olharam para ele.
— Talvez não seja sobre impedir o futuro…
Ele respirou fundo.
— Talvez seja sobre escolher o certo.
Lara cruzou os braços.
— E como sabemos qual é o certo?
Elias respondeu, com firmeza:
— Nós decidimos.
Um som metálico ecoou.
Passos.
Lentos.
Precisos.
E então uma voz.
Fria.
Controlada.
— Finalmente… começaram a entender.
Victor Salgado.
Ele estava ali.
Sozinho.
Mas completamente seguro.
— Vocês já viram, não viram? — disse ele, aproximando-se. — As múltiplas realidades… o colapso… o caos.
Elias avançou um passo.
— E tu queres controlar isso.
Victor sorriu.
— Eu quero impedir o caos.
Lara respondeu imediatamente:
— Controlando tudo?
— Organizando tudo — corrigiu ele.
Caio observava em silêncio.
— Vocês ainda não perceberam — continuou Victor. — Liberdade absoluta gera destruição. Sempre gerou.
Elias respondeu:
— E controlo absoluto gera e********o.
Victor parou.
Olhou diretamente para ele.
— Prefiro um mundo estável… do que um mundo livre e destruído.
Silêncio.
A tensão era insuportável.
— Então somos inimigos — disse Elias.
Victor assentiu lentamente.
— Sempre fomos.
E naquele instante—
O tempo voltou a falhar.
Mas desta vez…
Eles estavam prontos.