Rio de Janeiro, 24 de Dezembro de 2020
Valentina acendeu a última vela em frente à cômoda do quarto que dividia com suas irmãs. Era o aniversário de morte de sua mãe e como todos os anos, juntos com suas irmãs rezava pela alma da sua progenitora. Violeta se tonara uma adolescente linda, meiga e muito educada, apaixonada por livros e filmes, ela era uma garota encantadora, sempre tirava as melhores notas e seu comportamento era o comportamento desejado por todos os professores, além de ajudar com os afazeres domésticos, afinal elas moravam de favores e precisavam ajudar no que pudessem.
Já a pequena Vitória, era uma tagarela, tão pequena e já falava melhor que muitos adultos. Devido a Bento ser um homem ranzinza e odiar barulho quando está assistindo seu time favorito jogar ou quando o jornal está passando, as irmãs Nunes não saiam do seu quarto, que ficava aos fundos da casa, próximo a lavanderia. Ali elas chegavam e saiam sem que incomodasse o casal que a pedido do padre abrigaram as irmãs.
Valentina assim que chegou no Rio, conseguiu um trabalho numa confeitaria renomada, a qual ela se dedica dia e noite para dar o seu melhor e nunca descumprir nenhuma exigência de seu chefe, que era rígido e de poucos amigos. A jovem sempre tinha uma aparência cansada, trabalhava o dia todo na confeitaria, quando saia ainda ia buscar suas irmãs, uma na escola e outra na creche, por sorte as instituições ficavam próximas uma da outra e no caminho de casa. Ela ainda se encarregava de limpar toda a casa, lavar as roupas de todos e ainda cozinhar para suas irmãs e o casal, os donos da casa.
Luzia, irmã do padre Francisco, trabalhava na mesma confeitaria que Valentina. Porém, a mulher pouco ajudava nos afazeres de casa, quando Valentina viajou para o Rio de Janeiro, ela nem imaginava que para ter um lugar para morar com suas irmãs, ela teria que fazer todos os trabalhos de casa, além de ajudar nas despesas da casa.
Antes de sair de Rosa Branca, Valentina teve conhecimento de tudo que levou a separação de sua família. Ela também soube que Rafael só estava com ela por causa de uma aposta e por causa da inveja e ganância de seu pai. A jovem buscou ajuda em casas de várias pessoas que tanto ela, quanto sua mãe já tinham ajudado diversas vezes, porém todos lhe viraram as costas. Ela pôde contar apenas com a ajuda do padre Francisco, do médico Rogério e de um pequeno punhado de funcionários da fazenda, inclusive Joana e Paulo. Durante os últimos anos, ela não pôde esquecer um dia sequer de todo o m*l que a fizeram e muito menos a vingança que fez.
— Tina, aqui está muito quente. Não podemos sair só por um pouquinho? — Violeta pediu. O quarto que elas ficavam era quente e minúsculo, sem nenhuma ventilação.
— Infelizmente não, porquinho. O senhor Bento e a dona Luzia estão assistindo na sala, não vão gostar de nós ver perambulando por aí essa hora da noite. Vou apagar as velas e ligar o ventilador, você veste uma roupinhas fresca e vamos dormir, amanhã mais um dia nos espera. — Explicou a irmã, a chamando pelo seu apelido.
— Será que um dia ainda vamos morar em uma casa que não precisaremos ficar trancada em um quarto? Que vamos poder andar pela casa e fazer o que quisermos sem restrições? — A menor perguntou a sua irmã mais velha que tinha Vitória sentada em seu colo.
— Eu prometo que ainda irei tirar a gente daqui. Ainda vamos ter um lugarzinho só nosso. — Com uma positividade sem igual, ela assegurou.
— É tudo culpa do Victor, ele é o único culpado de nós estarmos aqui, passando por tudo isso. — Uma lágrima solitária escorreu pela face da adolescente. Ela já não chamava mais o homem que lhe deu a vida de pai.
— Não, ele não é o único culpado. Pessoas malvadas lhe contaram mentiras sobre a mamãe e decepcionado, achando que tinha sido enganado, ele fez o que fez. — Valentina não tirava a culpa do seu pai, mas também não julgava só ele.
— Mas se antes de fazer o que fez conosco, ele tivesse pedido um teste de DNA e tirar a dúvida que puseram na cabeça dele, nós não estaríamos aqui, vivendo em um quarto quente, úmido e minúsculo. Eu posso até ter apenas treze anos, Tina, mas sei que tinha como aquele homem provar se éramos ou não filhas dele. — Violeta guardava mágoas do pai e Valentina não era diferente.
— Vem aqui, meu anjinho. — Chamou a irmã. — Eu entendo tudo que está sentindo, eu também sinto. Mas não vamos alimentar esse ódio dentro de nós, ele só vai nos fazer m*l. E aquele homem que nos abandonou sem se preocupar com o que poderia nos acontecer, ele não se preocupa com nós. Passaram-se três e ele não nos procurou, então se ele não quer saber de suas filhas, nós iremos fazer o mesmo. — Disse abraçando a irmã. Vitória já dormia em seus braços.
— Eu queria que a mamãe estivesse com a gente, tudo seria tão diferente. — Lamentou a menor.
— Tudo isso jamais teria acontecido, eu tenho certeza. — Confirmou. — Mas agora precisamos dormir, amanhã você tem escola e eu uma encomenda de aniversário. Terei um dia cheio.
Violeta voltou para sua pequena cama que não tinha um colchão muito confortável e se arrumou para dormir, e sua irmã mais velha colocou Vitória no seu lugar apagou as luzes, deixando apenas um abajur de luz fraca clareando o quarto, então deitou-se. Como todas as noites, Valentina chorou. Chorou por tudo que passou, pela morte de sua mãe, pelo abandono de seu pai e pela humilhação que sofreu perante toda cidade de Rosa Branca.
Valentina era uma das responsáveis pela parte de confeitaria, ela sempre teve jeito com a coisa e quando pegou a prática, se tornou a segunda confeiteira da confeitaria pedaço de alegria.