Rosa Branca, 24 de Dezembro de 2017.
Rosa Branca é uma pequena e famosa cidade no interior do nordeste brasileiro, localizada a poucos quilômetros da capital nordestina. A pequena cidade é famosa por sua diversidade de flores e por suas terras guardarem grandes tesouros, como a famosa Turmalina-paraíba, pedra preciosa que há anos foi encontrada nas terras dos Nunes da Silva.
Os Nunes da Silva é uma popular família dona da maior parte das terras nos arredores de Rosa Branca. A qual leva o nome da primeira Rosa que desabrochou ali, foi quando a primeira geração dos Nunes chegou em Rosa Branca, sendo ela apenas uma terra inexplorada. Com os anos e o crescimento da família, além de outras famílias que se refugiaram ali para conseguir o sustento de seus familiares, Rosa Branca cresceu de um pequeno e humilde Povoado para a, considerada ainda pequena, cidade de Rosa Branca. Além de sua fama por causa das rosas e pedras preciosas, também era conhecida por sua vasta riqueza em árvores frutíferas, sendo a agricultura sua maior fonte de renda. A cidade de Rosa Branca podia até ser pequena e no interior do nordeste, portanto, para os seus moradores, a cidade era o verdadeiro paraíso.
Apesar de não ser uma cidade grande e ser considerada por muitos uma cidade pacata, a tecnologia já havia chegado no lugar, facilitando a vida de muitos jovens que sonhavam em cursar uma faculdade e trabalhar em algo que fosse além da agricultura. Quanto a isso a cidade já tinha crescido bastante, e já oferecia alguns cursos técnicos para aqueles que não saíam da cidade. Rosa Branca também era o destino de muitos turistas nos tempos de férias. Cachoeiras e rios de águas cristalinas completavam as belezas naturais do lugar, e o evento das rosas na virada de cada ano era a atração mais procurada pelas pessoas que fugiam da agitação das cidades grandes, nessa época do ano.
Victor Nunes da Silva, era um dos donos da maior parte das terras de Rosa Branca, sendo ele m****o da quinta geração da família fundadora da cidade, ele era conhecido pela sua honestidade e principalmente por ter um casamento invejável. Um homem íntegro que nunca escondeu o imenso amor que sentia por sua esposa e por suas filhas. Tudo parecia um conto de fadas na vida de Victor e isso despertou a inveja de muitas pessoas ali, principalmente do Prefeito Sandro que queria colocar as mãos nas riquíssimas terras de Victor, e de Flávia, dona do bar mais frequentado de Rosa Branca e quem nutria um amor por Victor desde sua mocidade, porém tinha mágoas por ter sido rejeitada por ele, Flávia nunca aceitou que ele não tivesse a escolhido e sim a Júlia. O casal de invejosos uniram-se em busca do que tanto desejavam: as terras e o fim do casamento de vinte e um anos de Victor.
Júlia era a esposa de Victor, uma linda mulher. Gentil, simpática e muito inteligente. Com seus quarenta e um anos ela esbanjava beleza. Júlia estava grávida de sua terceira filha. A gravidez não foi fácil, apesar da idade da mulher ser um pouco avançada, o atual estado emocional dela não colaborou para uma gravidez saudável. Júlia que sempre fora a esposa perfeita, íntegra, fiel, companheira e carinhosa com o esposo, enfrentava o pior momento de seu casamento. Flávia havia conseguido o que queria, semeou a semente da discórdia e da desconfiança, a semente vingou, e o homem que sempre acreditou na fidelidade da esposa, passou a desconfiar dela. Victor se afastou de Júlia e até mesmo das filhas, às quais ele desconfiava não ter o seu sangue.
Victor passou a dormir em um quarto separado da esposa, quando não dormia fora de casa. O homem viril, que esbanjava charme, beleza e o mesmo sorriso maroto de quando era jovem, sorriso esse que foi o golpe fatal para arrebatar o coração da doce e romântica Júlia. A união de Victor e Júlia, que durante tantos anos foi exemplo e inspiração para muitos jovens apaixonados que sonhavam em casar-se, tinha se transformado em um drama sem cor, o qual rendeu o fim da vida da amável Júlia. Eles tinham o casamento perfeito, porém, como todo lugar pequeno, o boato de que Júlia era infiel ao seu companheiro correu por toda Rosa Branca, logo chegando aos ouvidos de Victor, que tomado pela raiva e desconfiança não procurou a esposa, não a deixou se explicar, apenas se afastou dela e das filhas, as quais sentiam a falta do pai todos os dias na mesa durante as três principais refeições do dia.
Júlia definhou pouco a pouco durante os seis últimos meses de gravidez. Ser abandonada pelo marido sem nem mesmo saber o motivo para tal coisa, fazia a mulher sofrer ainda mais. Junto a mulher, Valentina, sua primogênita, sofria com o sofrimento da mãe. Ver a mãe naquele estado e não poder fazer nada era a mesma coisa de morrer pouco a pouco junto a sua progenitora.
Valentina, que namorava Rafael Vieira, filho do prefeito Sandro, tentava de todas as formas falar com seu pai, mas ele sempre fugia da garota. O relacionamento dos dois sempre foi admirado pela filha, e ela sonhava viver com Rafael o casamento que seus pais tinham. Mas ela passou a desacreditar em amor verdadeiro e casamento feliz por toda vida, depois de testemunhar como chegou o fim do casamento de seus pais, mas ela ainda acreditava no amor do lindo e galanteador rapaz. Rafael era um mulherengo cafajeste de carteirinha.
Valentina era uma jovem incomum, diferente das outras de sua idade, ela não era muito vaidosa, apesar de ser muito apaixonada pelo mundo da moda. A verdade é que Valentina não precisava de nada para ficar mais bela, sua beleza era única, somente sua beleza era o suficiente para chamar a atenção de qualquer um. Porém, ela gostava de seguir a moda, e seu estilo era um pouco questionável naquela pequena cidade. A jovem acreditava que vivia o namoro perfeito com o cara perfeito, m*l sabia Valentina que aquele relacionamento fazia parte de um golpe e de uma aposta entre os jovens que se diziam serem amigos dela, inclusive Mirella, filha do médico Rogério Faria e Sampaio, que sempre foi apaixonada por Rafael e tinha um relacionamento secreto com ele.
Tina, como era carinhosamente chamada pelas pessoas mais próximas a elas, era uma garota sonhadora, romântica e gentil. Uma jovem de sorriso fácil, alma leve e coração bondoso. Naquela cidade era conhecida por ser uma moça de responsabilidade e por ser generosa com todos ao seu redor. Com apenas vinte e um anos, ela já carregava vários certificados de cursos que sempre fazia, dentre eles os recém concluídos: Administração e primeiros socorros. Mas seu sonho era cursar moda, apesar de viver em uma cidade onde o normal eram as pessoas terem o mesmo estilo, e se vestirem praticamente iguais, Valentina quebrava a regra e chamava a atenção quando surgia com roupas diferentes, as quais que sempre eram desenhadas por ela e feitas pela sua madrinha, Margarida.
Com a chegada da internet em Rosa Branca, a jovem viu a oportunidade de viver aquilo que sonhava e poder um dia ser conhecida pelo seu trabalho, trazendo assim oportunidades de emprego para aqueles mais jovens que sonhavam em viver de algo que fosse além da agricultura local. Seu jeito espontâneo e decidido despertava a inveja de muitas jovens dali. Valentina era querida por todos na cidade, por sempre tratar bem as pessoas que cruzavam seu caminho. Aos domingos ela sempre ajudava com as obras de caridade da igreja, obras que eram realizadas pelo padre Francisco. Sua maior diversão era ver os sorrisos nos rostos das crianças carentes, que ficavam felizes sempre que viam Valentina chegar carregada de doces e quitutes que ela mesmo fazia questão de preparar. Tina era luz na vida daquelas crianças, como a dona Severina costumava dizer, e servia de inspiração para as garotinhas que sonhavam ser como ela. Os meses se passaram e dezembro chegou rápido, e com ele fortes tempestades que assustaram os moradores da cidade.
Um raio cortou o céu escuro daquela noite, o barulho do trovão seguido de um grito sofrido marcava a chegada da pequena Vitória. Era véspera de Natal, e as festividades de Rosa Branca tiveram que ser canceladas devido às fortes chuvas fora de época que castigavam o lugar, tendo apenas a cerimônia principal no dia de ano. Naquela região, de jovem a velho, ninguém tinha visto chuvas tão torrenciais como aquelas.
Júlia usou todas as suas forças para trazer ao mundo sua terceira filha. A gravidez que foi complicada desde o seu início, não teve um parto fácil. Devido às fortes chuvas nos últimos dias na região, a situação das estradas que já eram precárias, ficaram ainda piores e ela não pôde ser levada para um hospital, tirá-la de casa só traria mais risco a sua vida e a do bebê. Eles moravam um pouco distante da cidade, na fazenda Girassol.
Mas o destino ainda pregaria uma peça maior e muito dolorosa na vida daquelas três meninas. Naquela noite n***a e fria, uma vida precisava ser ceifada, uma vida chegaria ao fim, e em uma súplica no meio de fortes contrações, Júlia pediu aos céus que deixassem aquela nova vida viver, entregando sua vida em troca da pequena e frágil Vitória.
Padre Francisco, fazia suas orações encomendando a alma da mulher fraca se desfalecendo naquele quarto junto a sua filha e o Dr. Rogério Faria Sampaio, o único médico disponível na cidade, que sem nenhum recurso tecnológico, fazia de tudo para trazer ao mundo mais uma vida.
O dia amanheceu frio, sem cor e sem vida, assim como aquela que tanta alegria e beleza trazia para aquela fazenda. Os funcionários lamentavam a morte de sua querida patroa, que sempre era generosa e simpática. Trabalhar para a família Nunes da Silva era o sonho de todos ali, pois ao contrário de muitos donos de terra da região, eles sempre tratavam bem seus funcionários, sem distinção entre eles.
A fina garoa que seguiu durante todo o dia, se tornou ainda mais insistente durante o entardecer, quando aconteceu o sepultamento de Júlia. Não foi fácil para Valentina enfrentar aquilo praticamente sozinha. Foi doloroso ter que dar a notícia a sua irmã do meio, que sua mãe não estava mais entre elas. Violeta acabara de completar dez anos, sempre foi muito apegada à irmã. E quando Valentina estava em casa, Violeta não desgrudava dela, e assim fez durante todo o velório, cortejo e sepultamento de sua amada e querida mãe.
As duas deram o último adeus a sua mãe quando todos foram embora. Violeta abraçou forte sua irmã e chorou. As lembranças de dias felizes ao lado da mãe e da irmã invadiu os pensamentos de Valentina, e era eles que ela sempre guardaria com ela.
— Tina, onde está o papai? A mamãe foi embora e fazem dias que não vejo ele? Ele também foi embora? — chorando perguntou.
A pequena era inteligente o bastante e começou a estranhar a ausência do pai.
— A mamãe não foi embora, ela permanece aqui com a gente, ela está viva em nossos corações. E sua memória nunca será esquecida — Ajoelhou-se enquanto tentava consolar sua irmã — E quanto ao papai, ele está sofrendo da forma que ele acha melhor, não se preocupe, meu amor, tudo irá ficar bem. Não deixarei que nada de r**m aconteça com você, eu irei te proteger, sempre — Valentina seria dali pra frente a única responsável por manter a memória de sua mãe viva, que faleceu sendo vítima de uma injustiça, sem tempo para se explicar.
— Estou com medo, Tina — Confessou a pequena como se sentisse o que iria acontecer com elas.
— Não tenha medo, meu amor. Juntas somos fortes como uma rocha e ninguém intimidará as irmãs Nunes da Silva. Agora vamos embora que parece que o mundo vai cair essa noite novamente — referiu-se a chuva que começava ameaçar a cair mais forte naquela noite.
Valentina sabia que dias complicados viriam, ela estava consciente de que se tornaria a responsável por suas irmãs e que dependia dela transformar aquelas duas meninas em mulheres boas e íntegras, assim como ela e sua mãe.
Valentina suspirou cansada, no banco traseiro da caminhonete que Paulo dirigia com cuidado. Violeta dormia com a cabeça apoiada em seu colo e fez isso durante todo o percurso de volta para casa. Joana, esposa de Paulo, não foi ao enterro de sua querida patroa, ela havia ficado tomando de conta da pequena Vitória.
— Paulo, você tem visto o papai? Sabe onde ele esteve durante o nascimento de sua caçula e onde esteve durante o enterro de sua esposa? — Valentina buscou por informações sobre seu pai.
— Infelizmente não, Tina. Seu pai todo dia está em um lugar diferente, e quando soube que estávamos à procura dele, como a menina pediu, ele ameaçou nos demitir. Então não insistimos mais — Valentina não reclamou, ela tinha conhecimento que todos que trabalhavam ali tinham famílias e precisavam daquele emprego.
— Tudo bem, Paulo. Mesmo assim obrigada, por tentar me ajudar — agradeceu.
Quando Paulo parou o carro em frente ao casarão que apesar de antigo, era belíssimo, o mundo desabava sobre Rosa Branca. As chuvas pareciam não dar tréguas e Valentina por alguns minutos desejou que aquela chuva levasse para longe sua dor. Se ela tivesse certeza que se lançar no meio daquela tempestade tiraria toda sua angústia e tristeza, ela o faria.
— Paulo, pode me ajudar com a Violeta? Ela adormeceu assim que saímos do cemitério e ela está ficando muito pesada — como ela pediu, o homem fez.
A área onde Paulo tinha estacionado o carro era uma área coberta e assim facilitava que ele tirasse a menor de dentro do veículo, sem que ela se molhasse. Valentina desceu se arrastando, ela estava cansada, os últimos dias para ela foram os mais exaustivos.
Valentina jamais imaginou que sua vida teria uma drástica mudança após o nascimento de sua irmã.
Os dias se passaram rapidamente, porém, naquela casa era como se todos os dias fossem iguais: Frios, tristes e sem cor. O dia trinta e um de dezembro havia chegado, um novo ano estava prestes a chegar. Sete dias depois da morte de Julia e Victor ainda não tinha conhecido sua filha mais nova, nem muito menos se encontrava com suas duas outras filhas mais velhas. Ele autorizou que não o procurassem e a recém-nascida Vitória, fosse colocada em um quarto no andar de baixo da casa, ele não queria ouvir os choros da criança.
— Você precisa ir, gata. Esqueceu que esse ano você é a rainha das rosas? — Rafael insistiu.
— Aí Rafa, meu amor, eu acabei de perder a mamãe, não estou com clima para festas — Com a cabeça pousada no ombro do rapaz que acabara de completar dois meses de namoro, Valentina reclamou.
— Ficar se lamentando e triste pelos cantos, não vai trazê-la de volta, você sabe bem disso, não é? — Rafael continuou.
— Claro que eu sei, amor. Mas, eu não serei uma boa companhia para o evento das rosas — Valentina tinha medo de não ser uma boa companhia para o rapaz.
— Você precisa muito ir — o jovem era insistente.
— Porque todo esse alvoroço pela minha presença? — a jovem arqueou uma sobrancelha, encarando o homem ao qual ela chamava de namorado.
— Está bem, vou te dar um motivo para você comparecer a festa de hoje a noite, tenho uma surpresa para você — pareceu um pouco nervoso e sua expressão era de alguém que estava aprontando algo.
— Que surpresa? — Especulou curiosa se aproximando do homem.
— Aí não vai ser surpresa se eu te contar — continuou sorrindo. — para saber o que é a surpresa você precisa ir ao evento — Selou os lábios de Valentina.
— Tudo bem, eu irei. Mas só ficarei até a cerimônia principal, não ficarei até o final da festa. Não estou com clima para festejar e tenho que cuidar da minha irmã também. A Rebeca cuida dela durante o dia, não acho justo ficar com ela a noite toda também, ela precisa descansar — Rebeca era irmã de Joana e a responsável pela limpeza da casa, e agora também ajudava com a recém nascida quando Joana e Valentina não podiam.
— Tudo combinado então, eu passo aqui às sete para te buscar, não se atrase — com um sorriso maroto no rosto, o jovem rapaz anunciou — agora tenho que ir — se aproximou da jovem.
— Ah não, você acabou de chegar e já vai embora? Preciso de um pouco da atenção do meu namorado — choramingou a jovem — Eu me sinto tão sozinha, e você nem apareceu no velório e enterro da minha mãe — abraçou seus próprios braços, triste.
— Desculpa, mas é que meu pai me mandou para a capital, ele não desiste da ideia de me mandar para a faculdade de engenharia — Respondeu.
O que Valentina não sabia era que ele não tinha ido para lugar nenhum, e possivelmente estava rolando entre os lençóis de Mirella Faria e Sampaio, a filha do médico Rogério, jovem fútil, mimada, preconceituosa e arrogante. Rafael é o filho mais velho do prefeito Sandro Vieira Dias, um babaca que se aproximou de Valentina por causa de uma aposta e por influência do pai que quer as terras da família de Valentina.
— Ele está certo por incentivá-lo a fazer uma faculdade, porém, discordo por querer escolher o curso para você fazer, isso é algo que você decide, somente você sabe o que gosta e em qual curso você se encaixa melhor — concluiu a jovem, com sua expressão triste e cansada.
— Infelizmente ele não pensa como você, e insiste sempre na mesma coisa — mentiu, fingindo estar triste com a situação.
Rafael era um playboy, charmoso, sexy, muito desejado e que tinha tudo em suas mãos quando quisesse, inclusive mulheres e um dos rapazes mais bonitos da cidade. Sandro nunca forçaria o filho a cursar uma faculdade, ele adorava ver o filho esbanjar seu dinheiro pela pequena cidade de Rosa Branca e ser o motivo do delírio e brigas entre as jovens da região. O interesse maior de Sandro eram as terras da família de Valentina, por isso o namoro do filho com a herdeira das terras, caso o prefeito não conseguisse negociar as terras com Victor, seu filho teria chances com a filha mais velha dos Nunes da Silva, o casamento dos dois seria certo.
— Que bom que não desistiu de ir ao evento das rosas — Joana disse, entrando no quarto de Valentina.
— Você sabe que o meu ânimo para esse evento é zero, não sabe? — disse a jovem colocando seus brincos que foram presentes de sua mãe, Júlia.
— Tenho certeza que ela iria querer que você fosse — disse ninando Vitória que com uma semana de vida já estava bem espertinha.
— Eu não ficarei até o fim da festa, Joana. Logo após a cerimônia principal eu venho embora — Valentina estava abatida e suas olheiras denunciavam a exaustão da garota. Mas, mesmo com todas essas pequenas imperfeições, Valentina continuava linda e com certeza seria o centro das atenções naquela noite.
Mal sabia a jovem que ela seria o centro das atenções naquela festa, não por ser a rainha das rosas naquele ano, mas sim por algo que machucaria muito Valentina, trazendo a ela uma mágoa que ela nunca tiraria de seu coração.
O barulho de uma buzina foi ouvido pelas mulheres e da janela de seu quarto Valentina viu o jeep vermelho de Rafael estacionado em frente a casa. Ela pegou sua bolsa e desceu as escadas saindo de casa em seguida. Enquanto Joana encomendava a Deus a proteção de sua menina durante o percurso até a festa.
Rafael estava lindo, vestido em um jeans preto, camisa azul marinho com seus dois botões abertos mostrando a gargantilha com o pingente de um crucifixo à mostra e por cima um blazer também preto, nos pés um sapato preto que reluzia a luz da lua que resolveu aparecer naquela. Ele não costumava se vestir formal como seu pai e outros homens da cidade, e Valentina gostava disso.
— Você está linda — elogiou a jovem lhe dando um selinho em seguida — minha namorada com certeza será a mulher mais linda da festa.
Valentina estava deslumbrante, a jovem nunca se maquiava e quando fazia aquilo, ficava ainda mais bela. Ela vestia um vestido que ela mesma desenhou, uma peça de apenas uma manga e uma f***a que ia até metade de sua coxa, o salto de quinze centímetros alongava a silhueta da mulher que tinha apenas um metro e cinquenta, deixando mais próxima a altura de Rafael. Os cabelos estavam presos em um penteado moderno, com alguns fios soltos.
— Obrigada, você também está muito lindo — agradeceu e o abraçou.
Quem via o casal diria que eram o casal de jovens mais lindos e apaixonados de Rosa Branca. Até que poderiam ser, se o amor que Rafael dizia sentir por Valentina não passasse de uma farsa.
— Você está bem? Podemos ir agora? — perguntou a ela que não tinha sorrido para ele como sempre fazia.
— Sim, podemos — forçou um sorriso, mas não saiu.
Rafael ajudou ela entrar no seu carro e deu partida, seguindo em direção ao centro de Rosa Branca, onde aconteceria o evento. O céu estava estrelado, sem nenhuma nuvem. Tudo indicava que as chuvas deram uma trégua e a noite seria tranquila.
Valentina tornou-se o centro das atenções assim que seus pés tocaram no salão de festas da cidade. Não por sua beleza, muito menos por estar com o filho do prefeito. Mas sim por todos os boatos que corriam pela cidade sobre sua mãe.
— Queria parabenizar a rainha das rosas esse ano e minha futura nora — Sandro com toda sua falsidade, a cumprimentou.
— Obrigada, senhor prefeito — com uma imensa simpatia e um pouco de vergonha por ter sido chamada de nora, ela agradeceu.
Valentina cumprimentou a todos que estavam ali, que nem percebeu quando Rafael se distanciou dela, indo ao encontro de Mirella.
— Fiz tudo que seu pai pediu. Você não precisa mais fingir que gosta dessa garota, ela terá uma grande surpresa — Mirella disse quando o moreno se aproximou dela.
— Graças a Deus, não aguentava mais bancar o namorado apaixonado e atencioso. Nunca gostei dessa garota, fiz isso por você e pelo papai — disse Rafael de um jeito arrogante.
— Seu pai conseguiu o que queria com o pai dela e graças aos seus esforços eu também consegui um belo material que ela lembrará para o resto da vida e todos de Rosa Branca verão quem realmente é a doce e amada Valentina Nunes da Silva — Riu.
— Confesso que estou com pena da garota, será a vergonha do século, era a primeira vez dela — disse Rafael e a mulher ao lado dele, deu de ombros não se importando com o que Valentina iria sentir com o que ela havia planejado — Deixa eu pagar de namorado apaixonado, nos vemos no fim da festa. Quero você na minha cama hoje.
— Vai lá, seu castigo está acabando e prometo recompensá-lo a noite toda.
Tudo estava ocorrendo perfeitamente. Porém, Valentina já tinha percebido algumas mudanças no tratamento das pessoas para com ela, alguns até desviavam dela, quando a mesma tentava se aproximar.
— O que aconteceu com as pessoas dessa cidade, Rafa? — perguntou quando o rapaz se aproximou dela.
— Não entendi, princesa — Rafael tratava ela bem, e quem não soubesse dos seus planos diria que ele era um verdadeiro príncipe.
— Estão estranhas, toda vez que tento me aproximar elas fogem de mim — explicou.
— Pessoas do interior são assim mesmo, estão estranhando por você estar numa festa, enquanto devia estar de luto em memória de sua mãe — disse tomando um pouco de champagne.
— E eles estão certos. A missa de sétimo dia da mamãe foi ontem — a qual somente Valentina, Violeta e alguns funcionários da fazenda compareceram — eu ainda devia estar de luto e rezando pela alma da mamãe.
— Você não está fazendo nada errado. Tenho certeza que a dona Júlia não ia querer que a filha dela ficasse trancada em casa, enquanto a vida passa — Segurou as laterais do rosto da mulher e deu-lhe um selinho — Podemos passar a noite de hoje juntos? Posso cuidar de você e te consolar.
— Não sei, prometi para a Joana que voltaria cedo para ajudá-la com a Vitória — revelou seus planos pós festa.
— Eu tenho quase cem por cento de certeza que a Joaninha não vai se importar se você quebrar essa promessa — carinhosamente, beijou a ponta do nariz de Valentina.
— Vou pensar se você merece — ela disse e logo o locutor da rádio local deu início ao evento. Começou falando sobre o centenário da cidade e sobre a rainha das rosas naquele ano.
— Infelizmente a nossa belíssima e querida rainha das rosas esse ano, perdeu alguém muito importante para ela. Eu sinto muito, Valentina. Talvez vocês não vejam o sorriso que estamos acostumados a ver no rosto dela, mas ela nos deu a honra de vir ao evento mesmo estando de luto — disse e todos tinham sua atenção voltada para ele.
Valentina estava no centro do salão ao lado de Rafael.
— Como todos os outros anos, iremos apresentar um vídeo em homenagem a nossa rainha, e tudo que ela tem feito por Rosa Branca, inclusive os trabalhos sociais com as crianças carentes, todos os domingos na capela do padre Francisco. — ao terminar sua frase, um vídeo começou a tocar no telão atrás do homem.
O vídeo mostrava Valentina feliz com as crianças, moradores e em salas de aula e de cursos que fez. O vídeo que estava sendo uma alegria para Valentina, se tornou o seu pior pesadelo. No vídeo, Valentina estava com Rafael, mas o rosto do rapaz não mostrava no vídeo. Aquele momento tinha sido a única fez que ela teve relações sexuais, tinha sido sua primeira vez. Rafael como se fosse inocente, a olhou incrédulo.
— O que significa isso, Valentina? — Gritou como se tivesse sido traído — Você tem um amante? Tinha outro homem enquanto estava comigo? — Fingiu o namorado inocente e traído.
Victor, um pouco embriagado entrou no salão quando o vídeo começou.
— Mas, Rafael, é você. Você é o homem que está comigo nesse vídeo. — Valentina falou.
— Do que está falando? Eu nunca toquei em você, sempre quis esperar pelo casamento — disse, sínico.
Valentina sentiu os olhares de reprovação sobre ela. Todos lhe julgavam com suas expressões. As lágrimas quentes escorreram por sua face e sem esperar ela foi agarrada pelos cabelos e puxada para fora do salão, sendo jogada com toda a força na rua de paralelepípedo, machucando suas mãos e joelhos.
— Você é uma vagabunda como a sua mãe — Victor gritou após jogar sua filha ao chão com brutalidade — ela levantou-se.
— Do que está falando, papai? — Sentindo-se humilhada, perguntou.
Victor golpeou a face dela mais uma vez e foi embora, Valentina caiu novamente.
Alguns riam, outros sentiam pena e outros simplesmente a ignoravam, como se ela não passasse de um inseto. O céu que mais cedo estava cheio de estrelas, se escureceu, uma forte tempestade ameaçava cair.
Valentina, mesmo machucada, arrancou seus saltos ainda sentada naquela calçada fria, seu vestido estava sujo de lama. Sentiu o gosto do sangue em sua boca e tocou seu rosto dolorido pela agressão de Victor. Mas aquelas dores físicas não chegavam nem aos pés das dores que causaram a sua alma. Ela marcou o rosto de cada um que a olhou com desprezo e a julgaram como se ela fosse uma qualquer.
— Tina, vamos. Eu te levo para casa. — Rogério ignorou tudo aquilo e sentiu pena da jovem, ofereceu-lhe carona.
Ela aceitou, permanecendo calada durante todo o caminho até sua casa. Rogério cuidou dos machucados dela e despediu-se da jovem, sem que ninguém notasse sua presença na fazenda. Valentina chorou por toda a madrugada, dormiu de exaustão.
— Tina acorda, você precisa descer até a sala. — Joana disse.
Valentina nada falou e nada entendeu também, mas seguiu a mais velha. Vendo no corredor homens estranhos invadir sua casa.
— Tina, quem são esses homens? — Violeta, chorava agarrada a um ursinho de pelúcia.
— Vamos ver agora, princesa. Não chora. — tentou acalmar a irmã.
Do topo da escada, viu o prefeito e o seu namorado, ou melhor ex namorado.
— O que fazem aqui? — Perguntou sem esboçar nenhuma reação.
— Tomando posse do que é meu. — Disse Sandro.
— Do que está falando? — A cabeça de Valentina latejava devido a tudo que aconteceu.
— Seu pai vendeu todas as suas terras a mim. Tudo isso aqui agora me pertence. Você tem quarenta minutos para juntar suas coisas, de suas irmãs e sair daqui. — Disse o homem sem nenhuma piedade.
— Isso não inclui o trovão, Valentina, ele é meu — Disse Rafael, falando do cavalo de Valentina.
Valentina nada mais falou, não tinha o que falar. Os documentos provavam que as terras agora eram do Prefeito Sandro. Quarenta minutos depois, ela e suas irmãs atravessaram as portas da casa que viveu por tantos anos.
— Eu voltarei, e quando eu voltar tudo que foi me tirado será meu novamente. — Prometeu.
Com a cabeça erguida ela não chorou não demonstrou fraqueza, saiu dali sem saber para onde ir, porém ela tinha uma única certeza, ela voltaria e se vingaria de todos.