E L E N A V E T T E R
Foram necessários um ônibus, trinta minutos de metrô e uma longa caminhada para chegar nesse prédio imenso que já foi abrigo dos heróis mais poderosos da Terra. Seria cômico, se não fosse tão perigoso ter deuses entre nós, indo ao mercado e perambulando pela vizinhança.
Agora, todo o primeiro andar da antiga Torre Stark era uma espécie de exposição dos Vingadores. Um lugar para eles se exibirem — como se já não houvessem tantos outros por aí. Várias pessoas entusiasmadas tiravam fotos com a réplica da armadura do Homem de Ferro, crianças sentavam na mão da enorme estátua do Hulk e umas assanhadas adoravam o Thor de cera.
Arrisquei-me a passear pela exposição e encarei a armadura vermelha e dourada em minha frente. Por um momento, tentei imaginar o presunçoso e arrogante Tony Stark em minha frente. O que eu diria? Que tinha uma dívida de quase cem mil dólares e um DNA compatível com o dele?
Caminhei até um balcão de atendimento e vi uma loira peituda com os olhos atentos à tela que mostrava imagens de câmeras espalhadas pelo lugar.
— Boa tarde, hã... — hesitei — Como faço para falar com o Senhor Stark?
— Você é m****o de algum fã-clube? — ela nem se deu o trabalho de me olhar
— O que? — franzi o cenho — Não.
— Tem hora marcada?
— Não. — revirei os olhos
— É alguma super personalidade? — seguiu teclando em seu laptop, exibindo suas unhas bem pintadas. Eu poderia mostrar à ela minha super personalidade com um soco eletrizante bem no nariz arrebitado dela
— Não. — bufei já desanimando
— Então não posso ajudá-la. — disse ainda sem me olhar — Sinto muito. — encerrou a conversa
— É claro que sente. — revirei os olhos
Me afastei do balcão e caminhei pela exposição, observando bem de perto a estátua do Capitão América, usando seu uniforme renovado, com o símbolo dos Vingadores no ombro. Ainda como estátua, era alguns centímetros maior que eu e tinha os olhos azuis mais vívidos que eu já vi. Pareciam me seguir em todas as direções — o que chegava a ser assustador também.
Ao seu lado, a estátua da Viúva n***a estava em sua pose durona, com sua pistola em mãos e seu olhar afiado. Ver aquelas estátuas tão cheias de detalhes me vez reviver em minha mente o dia caótico em que Nova York foi invadida por alienígenas. Aquele foi o dia mais assustador da minha vida.
— Mamãe! — berrei quando ela tropeçou, ralando os joelhos, e a ajudei a se levantar
— Nos mandaram sair das ruas e ir para baixo da terra. — ela disse segurando as minhas mãos
— Acha que eles dão conta? — perguntei enquanto corria segurando a mão dela com toda a força possível
— Sinceramente? Que Deus os proteja.
Ainda correndo, uma criatura passa voando sobre nossas cabeças e eu ouço o feroz rugido da b***a verde gigante que corre perto de nós. Acabo paralisando no lugar, olhando pra cima e vendo o céu tomado por criaturas voadoras.
Hulk pulou e se agarrou na lateral de um prédio, fazendo com que grandes pedaços de concreto começassem a cair no chão. Arregalei os olhos quando vi que um grande pedaço de laje vinha em minha direção. Não tive reação.
— Elena! — ouvi minha mãe gritar desesperada
Voando, o Homem de Ferro plana sobre mim e mira seu punho na placa de concreto e atira, fazendo o que era um grande pedaço virar milhares de pedacinhos. Ergo os braços pra proteger meu rosto e minha mãe corre até mim, me abraçando e colocando seu corpo antes do meu. Alguém nos abraça e uma sombra se forma sobre nós, enquanto sentimos as pedras caindo ao nosso redor. Abro os olhos a tempo de ver o Capitão América em pessoa usando seu escudo como uma espécie de guarda-chuva para nós. Ele está com os olhos fechados, concentrado em manter a força em seu braço, para nos proteger. Seu rosto está sujo e suado.
— Hora de pegar pesado, Capitão! — ouço a voz modificada de Tony Stark dentro da armadura, mas ele apenas voa pra longe, sem olhar pra baixo
Capitão abaixa o escudo e, com o braço ainda ao nosso redor, ofega olhando para cima.
— Você está bem? — minha mãe agarra meu rosto — Nunca mais se afaste de mim novamente, Elena. — pede chorando
— Desçam para o metrô. — Capitão nos guia até a estação de metrô que estávamos a caminho antes, do outro lado da rua — Estarão seguras lá. Fiquem juntas.
— Obrigada! — minha mãe o olha e ele a olha de volta — Muito obrigada por salvar a minha filha.
— Me agradeçam ficando seguras. — ele diz sério — Vão!
Suspiro com a lembrança que me vem a mente e encaro o grande quadro que exibe o reator que dá vida a Torre, com energia limpa. Tomada por uma raiva que tem me sido companheira nos últimos dias, fecho os olhos e começo a sentir minha pele formigar. As telas do lugar começam a ter interferência e o protótipo da primeira armadura de Tony Stark para de funcionar. Quando abro os olhos, todos estão chocados, se perguntando o que está acontecendo. Saio apressada da torre logo após tudo se apagar. Um apagão de um minuto inteiro, mas o suficiente pra eu ficar exausta.
***
— Você sumiu a tarde toda. — mamãe comenta
— Fui andar. — dei de ombros — Precisava de ar fresco. — menti olhando ela comer aquele pedregulho que chamam de gelatina
— Sei. — me olhou desconfiada — Você tá diferente, bad girl. — ela me lançou um leve sorriso, que eu fiz questão de retribuir
— Estou normal, mamãe. — suspirei — Apenas, cansada. — me calei e ela também, notando que eu não estava a fim de conversa
T O N Y S T A R K
— Como assim houve uma pane elétrica? — gritei ao telefone com Maggie, a chefe do primeiro andar da Torre
— Senhor Stark, eu não tive culpa. — se desesperou — A energia oscilou e então tudo se apagou por um minuto.
— Os técnicos estão no local? — afrouxo minha gravata
— Sim, senhor, mas ainda não há explicações para o ocorrido.
— Não quero saber! — disse rude — Dê um jeito nisso!
— Sim, senhor Stark.
Desliguei a ligação e bufei nervoso, encarando os quatro vingadores esparramados no meu sofá; Wanda, Rhodey, Steve e Visão
— Problemas? — Cap me olhou e eu revirei os olhos
— Pane elétrica na Torre. — suspirei me sentando em minha poltrona
— Quando foi que teve meios de energia tão fajutos, Tony? — Rhodey ergueu os olhos do jornal que lia e me encarou
— Não tenho. — parei pensativo
— Então nada poderia desarmar o reator. — Wanda ressaltou
— Exceto... — Visão me olhou, esperando que eu compreendesse
— Um superdotado. — concluí o raciocínio, chocado demais para crer
Passei a tarde analisando os videos do circuito interno de segurança, mas absolutamente nada estava errado. Não havia movimentação suspeita e nada do tipo. Eu precisaria abrir uma investigação especial pra resolver isso, mas não hoje.
Não hoje.
***
— Pensei que já estaria enfiado na oficina, estudando o erro de hoje. — Natasha sentou-se à minha frente, em minha sala no complexo
— Essa não é minha prioridade, no momento. — dei de ombros, já levemente alterado pelo álcool
— E qual é sua prioridade, Tony? — ergueu uma sobrancelha, sugestiva
Certo, o fato de eu não ter desistido de desfazer os Vingadores, não significa que eu esteja mais motivado. Meu lema, ultimamente é, não fazer hoje o que eu posso deixar pra amanhã. E, quando chega o amanhã, eu também não faço.
Antes que eu precise pensar em um jeito de expulsar minha colega ruiva, o telefone em minha mesa toca, me salvando.
— Atender ao telefone. — disse seco e vi a mesma bufar ao se levantar e sair da sala — Stark na linha. — atendi
— Tony Stark? — a voz feminina do outro lado da linha soou angustiada — Eu sou Amélia Prior, irmã de Leila Vetter.
Aquele nome me era familiar, mas não era dito com frequência. Na verdade, haviam anos que eu não ouvia aquele nome. Leila foi um amor perdido há mais de quinze anos. Uma mulher excelente, impecável e boa demais para mim.
— Estou escutando. — tentei esconder minha curiosidade
— Ela gostaria de vê-lo.
— Não estou disponível. — fui rápido na resposta — Obrigado pela ligação.
— Não, não desliga! — apelou — Espera! Espera! — se desesperou — Ela... — a mulher suspirou — Ela está morrendo.