DNA

1601 Words
T O N Y   S T A R K Aquele lugar era precário e me dava ânsia de vômito, mesmo sendo limpinho. A menina da recepção piscou algumas vezes até acreditar que era eu. Sim, minha filha, Tony Stark está aqui. Será que dá pra me dizer onde minha ex está? — A colocamos em um quarto sozinha. — disse após uma pausa me encarando — É no segundo andar, terceiro corredor à esquerda. Quarto 102. — Certo. — caminhei rumo ao elevador e pressionei o botão duas vezes — Está com defeito. — diz alto com sua voz aguda — Use a rampa! — a ouvi e revirei os olhos bufando A cada passo que eu dava, algo em mim aumentava. Era um misto de curiosidade e desespero. Eu não deveria estar aqui. Quando Amélia me ligou ontem, era pra eu ter desligado. Vamos, Tony. Saia daí já!, meu subconsciente gritou, mas eu o ignorei a cada passo dado, até chegar na tal porta com 102 escrito em tamanho grande. Antes que se dessem conta, eu observei as duas mulheres negras que conversavam baixinho lá dentro. A porta estava aberta e meu coração deu um p**a solavanco. Bati na porta e coloquei a cabeça pra dentro do quarto, vendo as duas mulheres me olharem com os olhos arregalados. A de pé, que eu reconheci ser Amélia, sorriu para mim, me dando permissão pra entrar. Respirei fundo mais uma vez me perguntando o porquê de estar ali e dei um passo à frente, entrando finalmente no quarto. — Vou deixá-los à sós. — Amélia diz olhando para sua irmã — Eu não acredito que ligou pra ele. — Leila murmurou — Você disse que estava em dúvida. — Mas não confirmei que ligaria. — Enfim. — encerrou o assunto Assim que Amélia saiu, um silêncio se fez e uma nuvem pesada pairou no quarto. Eu dei algumas voltas curtas em volta de mim mesmo, reparando no ambiente. Por algum motivo, estava evitando seu olhar. O quarto era pequeno. Tinha uma poltrona e um pequeno sofá de dois lugares. Vamos, Stark! Acabe com o sofrimento dela. Eu a olhei e ela estava lá. De repente, me senti um garoto de 25 anos de novo. Ela estava deslumbrante apesar de estar abatida. O olhar ainda tinha aquele brilho de vida, mas estava quase se apagando. Senti o ar faltar em meus pulmões e lembrei da maldita carta. Esqueça isso, Anthony. Temos outro propósito aqui. Será que ela quer dinheiro? Quase 17 anos depois e ela quer dinheiro? Me enfureci com meus próprios pensamentos, mas acalmei assim que ela sorriu para mim. O sorriso que, um dia, foi o mais valioso de todos. — Pensei que não viria. — diz sem jeito — Por isso não sabia se devia ligar ou não. — Mas eu vim, não vim? — a olhei — Como conseguiu meu número? — Amigos em comum. — ela disse simples, dando de ombros — Evans. — revirei os olhos já sabendo quem poderia ser — Ele sempre fez tudo o que você pediu. — suspiro — Bom, você me chamou e eu vim. — olhei para a bandeja ao seu lado — Gelatina! — peguei a mesma, mas cuspi antes mesmo de conseguir mastigar — Deveria ter dito pedregulho. — limpei a boca e ela riu fraco, dando um pouco de vida ao seu rosto — Elena diz a mesma coisa. — ela disse rindo — Desembucha, Vetter. — falei pegando uns biscoitinhos do pacote, que, por sinal, não eram tão ruins — Sempre apressado, Stark. — ela sorriu estreitando os olhos — Você não mudou nada. — Pelo que vejo, você também não. — murmuro — Tony, estou morrendo. — ela foi direto ao ponto e eu a olhei sério e incrédulo — Acredite, não me restam muitos dias. — E-Eu sinto muito. — gaguejei — Não, não sinta. — pede — Por favor, eu já estou vivendo muita melancolia nos últimos meses. — Posso te oferecer um tratamento melhor. — me aproximo — Posso pagar pesquisas, médicos, exames. — a olhei nos olhos — Podemos reverter isso, Leila. — Não há o que reverter, Tony. Eu já aceitei isso. — Não precisa aceitar. — digo indignado — Eu tenho dinheiro. — Nem mesmo todo dinheiro do mundo mudaria os planos de Deus, Tony. — esticou os braços e segurou minha mão, olhando-me nos olhos — Não gaste seu dinheiro comigo. — ela suspirou e eu suspirei pesado — Meu destino está traçado. — Não entendo. — franzo o cenho — O que você não entende? — Se não quer ajuda, por que me chamou? Sentiu saudades do garanhão aqui? — tentei aliviar o clima e ela sorriu. Eu sorri também, por vê-la menos triste — Eu preciso te contar uma coisa, Tony. — suspirou — Por mais que você fique bravo, eu preciso abrir o jogo com você. — Vai finalmente me contar por que me deixou? — suspiro — É complicado. — O que é complicado? — senti uma leve onda de irritação e me afastei, desgrudando nossas mãos — Quando eu assumi que gostava de você, você sumiu. Nós tínhamos dois meses juntos e você dizia me amar. — Eu te amava, Tony. — diz paciente —E ainda amo. — Então por que raios foi embora? — a olho sério Seus olhos estavam molhados e se arregalaram quando ela olhou para alguém atrás de mim. — Porque ela estava grávida. — uma jovem n***a entrou no quarto pisando firme Seus olhos me encaravam com atitude, o ar entrava e saía com força, fazendo suas narinas dilatarem. Ela era muito parecia com Leila, mas seus olhos tinham uma cor diferente. Cor essa que eu só via quando olhava no espelho. — Eu sou sua filha. O choque foi inevitável. Perdi as contas de quantas vezes meu queixo caiu e subiu. Senti meu coração errar algumas batidas e minha cabeça rodar. A pedido da mãe, a filha de Leila me guia até a poltrona perto da cama e faz eu me sentar. Leila começa a me explicar tudo com calma, mas logo suas lágrimas começaram a atrapalhar tudo. Eu tenho uma filha. Uma filha de 17 anos. Elena. O nome dela ecoa em minha cabeça. Elena. Ela é bonita, alta e parecida com a mãe. A atitude, o modo como me encarou, o modo como ouvia tudo atentamente. Depois da explicação longa, Leila pediu que ela esperasse lá fora e assim ela fez. Leila me pediu perdão e eu, realmente, não sabia o que fazer. Não seja bobo, Tony. — Cuide dela, Tony. — Leila me encarou com os olhos molhados — Ela aparenta dureza, mas é só uma armadura. Assim como a sua. — Não tinha o direito de me esconder isso, Leila. — me levanto, abalado — Não tinha. — eu saí daquele quarto revoltado. Precisava de ar fresco E L E N A   V E T T E R Depois que minha mãe me contou quem era o meu pai, eu escolhi não procurar. Passei os últimos anos observando a guerra entre minha mente e meu coração. A mente tentava convencer o coração de que eu não precisava de mais nada, contanto que tivesse minha mãe. Mas nem mesmo toda a minha inteligência conseguia entender o vazio que ficava em mim. Quando vi Tony Stark saindo quase correndo daquele hospital, cheguei a pensar que ele era um cretino e que eu podia preencher o vazio no meu coração com raiva. Mais raiva. O sinal bateu, avisando que o último dia de aula havia chegado ao fim, e eu coloquei minha mochila no ombro, indo caminhando para fora da escola. Eu não conhecia quase ninguém por aqui, já que faziam apenas três meses que eu havia mudado de escola. Algumas pessoas até me cumprimentaram, mas eu estava tão avoada que não respondi boa parte. Agora que Anthony sabe de tudo, será que ele acreditaria? Será que pagaria um tratamento para minha mãe? Nos ajudaria? Do lado de fora, na porta da escola, um homem estava parado ao lado de uma Mercedes preta, que brilhava com os raios de sol daquele dia. Logo, ele abriu a porta e, surpreendentemente, Tony Stark saiu, me encarando e fazendo algumas pessoas que estavam perto se assustarem ao ver o bilionário no colégio público. — Venha. — disse quando eu me aproximei — Vamos ao laboratório. Foi só o que ele disse e eu entrei no carro, vendo o mesmo entrar e o motorista acelerar pelas ruas. O silêncio era um pouco constrangedor. As vezes, eu notava que o motorista nos olhava pelo retrovisor. Era assustador, mas Tony e eu realmente tínhamos olhares quase idênticos. — Faremos um teste de paternidade. — ele disse ainda olhando para frente e eu encarei seu perfil incrédula, mas logo me virei para a janela, olhando a paisagem — Não gosto de agulhas. — Não usaremos agulhas. — ele foi breve — Eu as odeio. *** Exatos trinta minutos após a coleta de material, vi Tony vir com o envelope branco e a cara de espanto. Eu permaneci abraçada a minha mochila, sentada na sala de espera. — O resultado saiu. — ele diz baixo e percebo que ele ainda não me olhou diretamente — Ótimo. — me levanto — Podemos ir embora? — Não quer vê-lo? — ele franziu o cenho — Não. — coloquei a mochila no ombro — Eu confio na mulher que me colocou no mundo. Agora era real, Tony Stark sabia que eu era filha dele. E agora?
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD