E L E N A V E T T E R
Já faziam alguns minutos que Anthony entrara para conversar com minha mãe. Aliás, acho que foram minutos suficientes para formar uma hora inteira. Ele pediu um momento à sós e eu fiquei aqui, sentada na sala de espera encarando meu novo registro de nascimento. Agora, o sobrenome de Anthony estava nele. Isso era estranho, muito estranho. Nós brigamos quando um de seus advogados disse sobre tirar o sobrenome da minha mãe para colocar o seu, já que não é habitual americano ter dois sobrenomes em um nome. Eu bati o pé, ameacei sair correndo e então o Vetter continuou comigo.
Não sei o que ele pretende agora, só quero mesmo que ele ajude minha mãe. Ela não pode ir e me deixar com um desconhecido. Por mais que esse desconhecido seja meu pai.
— Vamos, Elena. — ele saiu do quarto — Sua mãe dormiu. — ele parecia um pouco agoniado
— Aonde vamos? — me levantei confusa, colocando a mochila no ombro, tentando acompanhar seus passos apressados
— Vamos buscar suas coisas.
— Para quê?
— Você vai morar comigo. — disse ainda caminhando
— Como assim? — paro no meio do corredor, encarando suas costas — Sem uma conversa, sem um acordo?
— Já houve uma conversa. — se vira para me olhar — Entre sua mãe e eu. — ele prosseguiu
***
Eu não sabia direito como agir. Tinha um bilionário sentado no meu sofá e eu estava parada olhando para ele. Era estranho, pois ambos nos olhávamos do mesmo modo, com medo e curiosidade.
No que ele estava pensando? Ele tinha que estar pensando em alguma coisa, não? Eu, com certeza, estava. Em um turbilhão de coisas.
Sei que sua ausência não é sua culpa. Quando minha mãe descobriu que estava grávida, ela sumiu sem deixar nada além de um bilhete que dizia apenas que estava indo por incompatibilidade.
Eu não sabia bem como agir e nem o que esperar agora. Fisicamente, eu era a cara da minha mãe – tirando os olhos –, mas por dentro, às vezes eu me sentia deslocada. Características psicológicas desconhecidas por meus parentes maternos. Talvez sejam parecidas com as características de Anthony.
— Sua mãe acaba de ser transferida para o melhor hospital de Nova York. — ele diz enquanto olha em seu celular mega exagerado, provavelmente de última geração
— Certo. — concordo — Fico mais tranquila. Sei como isso vai terminar, mas gostaria que fosse com mais conforto à ela. — digo sem conseguir evitar a mágoa
— Tem belos olhos, Elena. — ele me elogia e eu fico sem graça por um momento
— Minha mãe já me disse isso. Disse que lembram os seus olhos.
— Em você ficam melhores do que em mim. — ele brinca sem tirar a tensão do rosto, mas eu dou um leve sorriso
— Fique à vontade. Vou juntar minhas coisas. — disse indo em direção ao pequeno corredor do meu pequeno apartamento, ou apertamento, como eu o chamava carinhosamente — Por favor, não se perca. — brinquei e consegui tirar um pequeno sorriso do coroa bilionário
***
Fechei a terceira mala e a coloquei no chão do quarto. Agora, meu armário e minha cômoda estão completamente vazios. Subi no banquinho e me estiquei para pegar a caixa que estava em cima do roupeiro. A coloquei em cima da cama e a abri, vendo que meus álbuns de fotos estavam todos lá. Sorri e fui até o quarto da minha mãe, pegando algumas peças de roupa dela e as guardei na caixa, voltando a fechá-la.
— Acho que vou precisar de ajuda. — falei indo para a sala com as duas malas
— Vou chamar Hap. — ele colocou a cabeça na janela e acenou para o motorista lá embaixo
O caminho estava mais longo e silencioso também. Estava me perguntando para onde íamos. Talvez, ficássemos na torre que eu danifiquei, ou talvez ele me levaria para um local mais seguro. O fato é que Happy Hogan já estava pegando o caminho para o norte de Nova York e isso me deixava bem curiosa. Eu estava há poucos centímetros de meu genitor e não conseguia parar de pensar nele. Quem decretou que eu teria que ir com ele? Será que foi minha mãe? Ou foi ele querendo dar uma de preocupado? Meus pensamentos foram interrompidos por um pigarreio do coroa ao meu lado.
— Não moro sozinho. — ele disse quebrando o silêncio
— É, eu sei. — disse ainda fitando a imagem lá fora
— Certo. — ele suspirou — Por que não me fala um pouco sobre você? — eu virei meu rosto para encará-lo e me surpreendi ao notar que ele me encarava, realmente querendo me ouvir
— O que quer saber? — franzi o cenho
— Sei lá. — ele deu de ombros — O necessário para convivermos.
— Começa você. — me movi, virando completamente para ele
— Eu não curto bagunça. — ele diz e o motorista segura o riso — Algo a dizer, Happy?
— Não curte nenhuma bagunça além das suas, certo? — Happy ergue uma sobrancelha
Eu nunca vi nenhum funcionário falar assim com o patrão, mas gosto disso. Não há tensão entre eles, apenas divertimento, como se fossem velhos amigos.
— Essa é uma conversa privada, Hogan. — Anthony o olha
— Diga as verdades inteiras e eu não interrompo, oras. — diz divertido
— Enfim. — Anthony me olha — Sua vez.
— Não bebo café puro. — digo
— Gosto de ficar no meu canto. — acrescenta
— Gosto de conversar. — franzo o cenho pensando em algumas curiosidades que eu poderia contar — Mas não muito ultimamente.
— Não gosto que mexam nas minhas coisas.
— Odeio que mexam nas minhas coisas. — o olho
— Adoro macarrão com almôndegas. — dá de ombros — Não sei direito, mas há algo no molho que me encanta.
— Seria o molho ou sua larica gigante? — ouço Happy sugerir
— Eu não faço mais essas coisas, Happy. — diz um tanto quanto envergonhado — Continue, Elena.
Era a primeira vez que ele falava meu nome — pelo menos, perto de mim. Soou legal saindo dele e isso fez meu coração acelerar.
Devo me preocupar?
— Sou alérgica a nozes. — digo depois de um tempo tentando me entender
— Eu também. — ele sorri breve, me fazendo sorrir fraco
Algo em comum, Senhor Stark.
— Odeio gengibre. — continuei
— Certo. — ele parecia anotar mentalmente — Uh, o que posso dizer mais? — parece pensativo — Ah, gosto de uísque.
— Não conseguiu pensar em mais nada? — ouço Happy murmurar
— Eu também. — deixo escapar e ele me olha incrédulo — Estou pensando no que mais posso dizer. — viro o rosto para a janela do carro
Eu não bebia, mas houve um caso isolado na casa da minha tia. Se Nathan não tivesse me ajudado, isso teria vazado pra família toda e eu seria internada na primeira clínica militar que vissem.
— Eu sou alérgico a poeira. — ele diz e eu me viro, vendo-o encarando o banco em sua frente. Parecia pensativo
— Sou asmática. — comento
— Toma remédio? — ele me olha
— Só quando estou em crise. — dou de ombros
— Tem o remédio? — ergue uma sobrancelha
— Não.
— Amanhã, iremos ao médico. — ele diz pegando seu super celular do bolso e anotando algo
— Não tenho crise há quatro anos. — franzo o cenho
— Iremos ao médico amanhã. — diz irredutível, guardando o celular no bolso interno do paletó — Algo mais a contar?
— Não. — dou de ombros — Com o tempo, você descobre.
Se eu conseguir esconder por muito tempo.
— Certo. — suspira — Bem vinda ao Complexo dos Vingadores. — diz quando Happy para o carro na frente de um portão enorme, aguardando-o abrir
Eu parecia uma menina do interior babando naquela construção, mas era impossível não parecer. Aquilo era gigante.
Assim que entramos com as malas, fui reparando alguns detalhes da minha nova casa. p***a, é o Complexo dos Vingadores!, minha consciência gritou e eu sorri. Eu gosto de conversar e, agora, não ficarei sozinha.
Será que vão gostar de mim?
T O N Y S T A R K
Quando contei à Sam, Visão, Nat, Steve, Wanda e Rhodes sobre Elena, todos surtaram. E eu não digo no bom sentido — se é que essa palavra tem um bom sentido. Nat não ficou muito contente em saber que... Como foi o termo usado por ela? Ah, que teremos uma pirralha entre nós.
— Espero que consiga recuperar o tempo com ela, Tony. — Steve me olhou e, por um momento, soube que não estaria sozinho nessa. Apesar de tudo, tenho essa... família comigo
— Olá, senhorita Stark. — Visão a cumprimentou com um aperto de mão e ela equilibrou a caixa grande que carregava na mão esquerda
— Elena. — corrigiu — Me chame de Elena. — ela sorriu sem jeito
— Como quiser. — ele sorriu de volta, para confortá-la
— Pessoal, essa é Elena. — digo — Elena, esse é o pessoal.
— Oi, eu sou o Sam. — ele sorriu e se aproximou — Permita-me. — pegou a caixa de sua mão.
Por que eu não fiz isso antes? Menos um ponto a meu favor.
— Sou a Wanda.
— Sou Natasha.
— Sou James Rhodes. — ele apertou sua mão — Aperto de mão firme. — elogia — Demonstra caráter.
— Obrigada. — eles trocaram um sorriso
— Cadê o Capitão? — eu perguntei
— Ele precisou ir até a Sharon. — Natasha disse simples e deu de ombros
— Bom, vou mostrar onde será seu quarto. — olhei para a adolescente ao meu lado e caminhei rumo ao interior do Complexo
Puxa, ela não é de se impressionar fácil.
Nada de gritinhos histéricos ao estar diante de heróis poderosos.
Caminhei pelo corredor e logo abri a porta de seu quarto. Foi tudo arrumado às pressas. Wanda me ajudou bastante com isso.
Tudo neutro.
Uma cama de casal com roupas de cama em tons nude, um móvel na parede de frente para a cama, ao lado da porta, que em cima tinha uma TV de tela plana já com TV à cabo instalada. Com o tempo, ela colocava em ordem.
O banheiro era amplo e era junto com um closet aconchegante. Apesar de não ser tão grande, algo me diz que suas roupas não irão ocupar muito espaço.
Os Vingadores ficaram parados na porta, nos observando. Elena olhava o lugar com cautela. Eu estava nervoso.
E se ela não gostar?
— É tudo bem claro. — ela sorriu e me olhou — Vai melhorar meu humor. — eu relaxei um pouco
— Wanda me ajudou com a decoração. Sua mãe me deu poucas informações a seu respeito. — olhei para Wanda e ela sorriu acenando para Elena
— Certo. — sorri fraco — Obrigada, Anthony. — agradece
Havia tempos que ninguém me chamava assim.
— Vou deixar você sozinha um pouco, tenho algumas coisas pra resolver. — digo
— Posso ajudá-la a arrumar suas coisas? — ouvi Wanda dizer e sorri para ela, agradecendo mentalmente por ela tê-la recebido bem
— Claro. — ela retribuiu o sorriso
Sam colocou a caixa de Elena em cima de um móvel e se despediu, dizendo que ela poderia procurá-lo sempre que quisesse. Todos saímos e deixamos Elena e Wanda ali.
Suspirei e, já na cozinha, preparei um café forte. Por enquanto, tudo estava indo muito bem. Estranho, porém bem.
— Ela parece ser uma boa menina, Tony. — Rhodes se juntou a mim — Apesar do que está passando, mantém o humor.
— É, espero não desapontá-la. — respiro fundo
— Senhor Stark? — Visão chamou um tanto tenso e eu o olhei
Nem precisei perguntar o que houve, já que vi Pepper parada bem atrás dele.
O que ela fazia aqui?
Por que voltou?
Ainda me quer?
O que eu faço?
Será que devo falar primeiro?
Como devo cumprimentá-la?
Todas essas perguntas foram para o espaço quando ela correu até mim e me abraçou apertado. Eu apenas correspondi e enterrei meu nariz em seu cabelo, tragando seu cheiro.
Que saudades!