T O N Y S T A R K
Já fazem horas que voltamos do hospital e Elena está trancada no quarto. Não saiu para lanchar, não atendeu ao chamado de Visão e nem de Thor, que virara seu grande amigo. Wanda, que também se aproximou bastante dela, também tentou animá-la, mas a jovem apenas gritou um "Estou bem! Podem ir!" do lado de dentro da porta.
Estou ficando preocupado. Acho que, agora, está começando a cair a sua ficha. Irá perder a mãe em breve e, será largada nas mãos de um desconhecido. Por mais que esse desconhecido seja eu, seu pai!
Depois de passar a tarde na sala, encarando meus colegas, vi meu celular tocar, em cima da mesinha de centro. O número não estava gravado e estava aparecendo como Desconhecido, mas eu sabia quem era e estava sem paciência pra muita conversa.
— Aqui é o Tony. — falei desanimado, voltando a ficar largado no sofá
— Ora, ora, Tony Stark! — o tom brincalhão de Clint me atingiu — Que bela coletiva, hoje à tarde, hein?! Que tipo de amigo eu sou, pra ficar sabendo disso pela imprensa e não por você.
— Clint, não tô com muita paciência.
— A vida paterna já começou a te cansar? — brincou
— Na verdade, não. — sou sincero. — Só sou pai há dois dias.
— Confesso que ainda estou tentando assimilar toda a informação. — suspira — E a mãe da menina?
— Está morrendo e me entregou a guarda de Elena. — resumo
— Uau! Imagino que a barra esteja pesada.
— Com toda certeza. — confirmo
— Quer conversar? Afinal, eu sou o único pai da equipe. — ele diz — Bom, era.
— Não, eu realmente estou sem paciência agora.
— Certo. — respira fundo — E quando nos veremos?
— Eu estava querendo fazer uma recepção, semana que vem. Comemorar a chegada de Elena, o retorno de Pepper, apresentá-la à uns amigos. — suspirei ao lembrar do estado de Leila — Mas agora, nem sei mais.
— Bem, você tem o meu número. Qualquer coisa, liga. — ouvi um choro — Ih, eu tenho que desligar. Nathaniel acordou. — ele disse rindo e a linha ficou muda
— Vai mesmo fazer uma festa? — Steve me olhou perplexo e eu notei que prestava atenção na conversa — Viu como ela chegou aqui, sabe como está machucada.
— Ela precisa se distrair. — digo baixo
— A questão é que a mãe dela está por um fio. — ele insiste
— Olha, Rogers, sem sermão.
Me levantei e, cansado de esperar, peguei a bandeja e a coloquei no balcão, junto com os ingredientes necessários para dois sanduíches. Era tudo o que eu sabia fazer em uma cozinha, espero eu não a envenene. Coloquei suco no copo e saí, com a bandeja na mão, ignorando os olhares dos Vingadores na minha sala. Caminhei pelo Complexo até chegar em frente ao quarto de Elena.
Eu estava nervoso.
Equilibrei a bandeja nas mãos e chutei a porta de forma leve, para que parecessem batidas de mão.
— Wanda, já disse que estou bem! – ouvi a voz abafada, lá dentro
— É o Stark! — gritei de volta, pensando — E vou usar meu poder de pai, pela primeira vez, e exigir que você abra a porta. — foram alguns segundos de silêncio, até que ouvi barulho, vi a maçaneta se mexer e a porta abrir, revelando a imagem de uma Elena tão pálida quanto a mãe
— Você conseguiu. — ela sorriu fraco, não me fazendo tirar os olhos de seu rosto inchado e de seu físico escondido em um moletom velho e grande demais para ela
— Vim trazer algo pra você comer.
— Não quero comer.
— Mas vai.
— Por que?
— Porque sou seu pai e quero que você coma. — falei evitando o tom ríspido e ela deu um meio sorriso
— Belo argumento, senhor Stark. — ela deu espaço e eu entrei, botando a bandeja na cama e sentando na poltrona. Logo, ela se sentou na cama e deu a primeira mordida — Obrigada.
— É meu dever cuidar de você. Como você está?
— Minha ficha caiu. Sei que tenho menos tempo com ela. — ela disse engolindo o primeiro sanduíche de forma rápida
— Recebi uma ligação. Duas, na verdade. — menti — A primeira, foi do hospital e sua mãe está melhor. — na verdade, nem foi uma mentira muito grande. Eles me disseram que ela estava dopada, mas que estava bem e não melhor.
— Sério? — ela sorriu pegando o segundo sanduíche — E a segunda ligação?
— De uma senhora chamada Amélia Prior.
— Ai, lá vem! — revirou os olhos — O que minha tia te disse?
— Disse que a diretora de sua escola ligou para avisar que o baile de formatura será no fim de semana.
— Eu não quero ir mesmo. Tanto faz. — ela deu de ombros
— Como assim tanto faz? — franzo o cenho — É um rito de passagem, Elena. Você deve querer comemorar com seus amigos.
— Minha melhor amiga se mudou para o Texas, eu troquei de escola bem no final do ano letivo e minha mãe está morrendo. — ela me olhou séria — Vou comemorar o que?
— Ok, você venceu. — ergui as mãos em rendição, vendo-a morder o último pedaço e tomar um gole do suco — Tem muita coisa r**m acontecendo na sua vida agora, mas temos uma coisa boa aqui, não? — gesticulei, dando a entender sobre nós — Nos encontramos.
— Não sei, não. — ela relutou, tomando o suco todo
— Vai, por favor. — insisti — E eu quero comemorar que tenho você. Te apresentar pra uma galera que achava que, se dependesse de mim, a família Stark entraria em extinção. — admito — Considere isso um esquenta para o seu aniversário.
— Não quero festa. — ela deu de ombros e suspirou, se jogando para trás e caindo nos travesseiros
Era chegada a hora de ser pai, pela primeira vez na vida.
Como se faz isso?
Coloquei a bandeja na poltrona e me sentei na cabeceira, ao seu lado, receoso.
Sem pensar, comecei a acariciar seus cabelos e, ela logo se rendeu, deitando a cabeça em minha barriga.
Passamos parte da noite assim. Até eu notar que ela dormiu e, logo em seguida, cair no sono também.
E L E N A S T A R K
Por mais que eu estivesse emocionalmente e humoristicamente abalada, não pude deixar de concordar com o fato de que encontrar meu pai havia sido uma coisa boa, em meio ao caos. Não quis ser rude e aceitei quando Pepper entrou no meu quarto, dizendo que me levaria para fazer compras e que, mais tarde, haveria uma recepção na Torre. Ela me prometeu que não seria nada de tamanho estratosférico, mas tenho minhas suspeitas. Afinal, estamos falando de um evento organizado por Tony Stark.
— Sei que está triste, mas seria bom se aproveitasse a noite, senhorita Stark. — parei de fitar a rua e passei a olhar o motorista do meu pai, que me encarava pelo retrovisor
— Parece errado estar me divertindo enquanto ela está no hospital. — murmuro
— Acredite, ela quer que siga sua vida. — ele sorriu fraco e saiu da limusine, logo abrindo a porta e me ajudando a sair também
— Obrigada por tudo, Hap. — sorri e o vi se afastar, enquanto alguns fotógrafos vinham me cortejar
Caminhei pra dentro da Torre sem parar para falar com nenhum repórter. Apesar do evento ser fechado, nada impedia aos parasitas de estarem na porta. Ao lado de Pepper, subi mais de cinquenta andares de elevador, até o mesmo se abrir em um andar privado.
Assim a cruzei a porta, vi rostos mais que conhecidos.
— SURPRESA! — eles gritaram sorrindo e eu neguei com a cabeça, rindo para o grupo de Vingadores em minha frente. A música estava alta e as outras pessoas se divertiam, mas o meu grupo estava ali, me esperando
— Não é surpresa se eu sabia da festa. — sorri enquanto Wanda corria empolgada para me abraçar
— Olha, foi ideia do Stark pagar esse mico todo. — Nat riu e beijou minha bochecha
— Você gostou, Romanoff. — ele se defendeu e beijou minha testa com carinho — Divirta-se, ok?
— Vou tentar. — prometi e o vi sorrir
— Tenho algo para você. — ele me virou e eu encarei Ashley, minha melhor amiga que, há seis meses, havia se mudado para o Texas
— Oh, meu Deus! Ash! — corri para abraçá-la e m***r a saudade. Não consegui conter as lágrimas
Ashley sabia quem eu era de verdade e, ainda assim, me acolheu mesmo eu sendo a aberração que sou. Passamos por situações de vida ou morte juntas, mas isso só fortificou ainda mais os nossos laços. Tê-la aqui, faz tudo ficar mais leve de se carregar.
— Sem melodrama, Vetter. — ela riu, tentando segurar as próprias lágrimas
— Sem essa, Stewart. — eu sorri soltando-a e olhei para Tony — Como conseguiu isso?
— Ele teve uma ajudinha. — vi minha tia Amélia aparecer e sorri — Oh, não foi minha. Nathan voltou de viagem.
— Oh, meu Deus! — arregalo os olhos — Nathan está aqui?
— Você achou mesmo que eu perderia esse momento da vida da minha priminha preferida? — vi o rapaz alto e mais forte se aproximar e corri para os seus braços, como uma criança indefesa
— Você é o melhor. — sussurrei com o meu rosto contra seu peito
— Eu sei. — ele se gabou e eu ri
— Senti sua falta.
— Eu também senti a sua. — beijou minha cabeça
— É fácil me ter como prima favorita, quando eu sou sua única prima. — resmungo e ele ri
Tudo parecia um sonho. Por algumas horas, me desliguei de tudo. Apenas conversei com minha melhor amiga e com meu primo. Dançamos, rimos. Stark me apresentou à algumas pessoas e eu fiz a vibe filhinha do papai. Até que a maioria das pessoas dali não eram rudes e, pra minha surpresa, não eram muitas.
— Quero te apresentar a umas pessoas, ok? — Tony diz me guiando pelo salão — Eles são legais, menos o loiro ensebado.
— Ok.
— Por favor, não leve nada do que aquele inconveniente disser à sério.
Haviam quatro pessoas paradas, sorrindo para nós. Eu fiquei parada feito um bocó encarando eles.
— Elena, esses são Sue Richards, Reed Richards, Ben Grimm e Johnny Storm. — me apresentou aos quatro — O Quarteto Fantástico.
— Oh, meu Deus. — arregalei os olhos — Ah, oi, eu... Oi! – eu ri atrapalhada e cumprimentei os quatro heróis em minha frente
— Ficamos felizes por sua formatura e por você e Tony. — Sue sorriu para mim e eu sorri de volta
— Filha gata, hein, Tony?! — vi o loiro me encarar com um sorriso besta
— Mais respeito, garoto. — Tony o fuzila com o olhar
— Ah, então você é o inconveniente que meu pai falou? — sorri implicante já sabendo de quem se tratava
— E você, a bastarda. — devolve na mesma moeda
— Johnny! — Susan o repreendeu
— É um prazer conhecê-la. — ele ergue a mão para me cumprimentar
— Nem tanto assim. — aperto sua mão com força
— Não vai começar a perturbar a menina, não é? — Steve se aproximou
— Tô sentindo um cheiro de museu. — Johnny implicou
— Vai começar. — ouvi a voz grave de Ben e, não pude evitar um sorriso
— Ouvi dizer que é uma excelente aluna em física. — Reed sorri para mim — Fascinante!
— Só estudei pra passar, garanto. — sou sincera — Meu lance é as humanas.
— Tony, precisa passar no Baxter, qualquer dia. — diz ao meu pai — Leve Elena. Tenho algo novo para lhe mostrar.
— Reed, hoje não. — Sue o reprimiu
— Vou marcar. — Tony sorriu
— A gente se vê por aí, Stark. — Johnny me olhou se retirando
— É, talvez. — sorri e vi o quarteto se afastar, deixando apenas Tony, Steve e eu
— É impressão minha ou você me chamou de pai? — Tony me olha
— Hã, eu acho que não. — senti o rosto queimar
— Acho que sim. — Steve comenta — Eu também ouvi, enquanto me aproximava.
— Eu acho que vocês são dois velhos com problemas de audição. — ri, fazendo-os sorrir. Logo, a melodia de A Thousand Years se espalhou pelo local
— Posso dançar com a, uh, minha filha? — Tony pede sem jeito e eu acabo sorrindo, entregando meu copo de suco ao Steve e indo para a pista com meu pai
Steve nos admirava sorrindo, enquanto nós deslizávamos pelo salão. Éramos só nós dois. Pai e filha, tentando recuperar o tempo perdido. Ele me olhava e me conduzia, com os olhos molhados. Umas duas lágrimas chegaram a escapar, mas ele me girou e as secou com rapidez. Eu ri e, quando a música acabou, nós nos separamos e nos cumprimentamos. Ouvi aplausos e pude notar que todos sorriam para nós.
— Um momento. — Tony tirou o celular do bolso de dentro do paletó e o atendeu. Sua feição mudou. Ele desligou o celular e me olhou sério — Eu sinto muito, Elena.
Ela se foi.
Ela morreu sozinha.
***
Chovia torrencialmente lá fora. A água da chuva batia forte contra o vidro da minha janela e, os clarões tomavam o céu.
Já faziam dois dias que eu estava deitada naquela cama, só trocando a posição. Dois dias que a perdi por completo. Dois dias sem Leila Vetter, a mulher que me deu à luz, me criou e me amou a cada segundo dos últimos dezessete anos.
A cena mais difícil da minha vida, foi a da terra sendo jogada sobre o caixão onde ela estava. Agora, ela está debaixo da terra, em um lugar onde tem uma plaquinha escrito Leila Vetter: amiga, irmã, mãe, guerreira. Aquilo doía fundo. Tão fundo, que já quase não conseguia respirar. Parecia que, a terra que jogaram por cima dela, estava tapando minhas narinas e enchendo meus pulmões. Era doloroso.
17:19pm
Agora, eu estava sentada na minha poltrona, olhando a chuva. Eu havia a colocado bem de frente e perto da janela. Em minhas mãos, a caneca de chá estava quente. As mangas do moletom, quase não me permitiam segurá-la. Olhei para o lado e vi a bandeja com cookies e o cartão que dizia:
Espero que goste. Wanda e Visão fizeram especialmente para você.
Tony
Sorri ao ler o bilhete pela milionésima vez. Eles estavam preocupados comigo. Na verdade, eu só precisava de um tempo para mim. Um tempo para acreditar e pensar no que fazer.
Após um tempo admirando a chuva, comi os cookies e saí do quarto, carregando a bandeja. Os pés descalços, o casaco de moletom que ia até quase os meus joelhos, tapando o short, o cabelo desgrenhado. Nada importava mais.
Chegando na cozinha, coloquei a bandeja na pia, arregacei as mangas e comecei a lavar minha louça. Ao acabar, me virei secando as mãos no pano de prato e me assustei, ao ver os Vingadores e Pepper me olhando. Sorri fraco e coloquei uma mexa que caía do coque desengonçado, atrás da orelha.
— Oi. — sussurrei
— Oi. — disseram em coro
— Os cookies estavam ótimos. Obrigada. — olhei para Wanda e Visão, que sorriram para mim
— Sente-se bem? — Steve me olhou e eu o fitei
— Fisicamente, sim.
— Mentalmente? — Nat indagou
— Nocauteada. — suspirei e me encostei na pia da cozinha
— Ashley ligou e Nathan também. Estão preocupados. — Pepper me avisou
— Eu mando um email, assim que der. — ouvimos um estrondo forte, que os fez olhar pela ampla janela da sala
— É só um trovão, galera. Relaxem. — vi Thor revirar os olhos e sorrir para mim. De relance, vi um clarão no jardim
— Ai, eu odeio isso. — Pepper se referiu à tempestade, revirando os olhos
— O que é aquilo no jardim? — apontei para uma imagem meio distorcida de um animal tentando se esconder da chuva
— Parece ser um cachorro. — Tony analisou
— Não podemos deixá-lo lá fora, né? — o olhei séria
— Eu não vou encarar essa chuva. — Sam disse comendo uns salgadinhos
— Certo. — dou de ombros — Vou sozinha. — saí andando apressada, em busca da saída
— Vou com você. — ouvi Steve e, logo estávamos todos na porta de saída — Fique aqui e eu o trago. — Cap disse e eu assenti, vendo-o sair na tempestade
— Tudo isso por um cachorro? — Nat revirou os olhos, se aproximando
— Se fosse você, a gente também ajudaria.
— Você tá me comparando com um cachorro, pirralha? — ergue uma sobrancelha em minha direção
— Steve! — sem pensar, eu saí pelas portas amplas, deixando a chuva me molhar, quando vi que Steve havia caído na lama, enquanto tentava pegar o cachorro
Corri até Steve e, um novo estrondo foi ouvido. Algo muito maior e mais alto. Mais poderoso. Nada comparado aos estrondos causados por Thor, mas ainda sim, dão medo.
— Você está bem? — o ajudei a se levantar — m***a de chuva.
— Olha a língua, Elena. — me corrige — Vamos. — disse se abaixando e pegando o cachorro que tremia no colo — Raios são perigosos.
Quando notei o clarão que se formou no céu, me virei à tempo de ver a descarga elétrica que seria descarregada em nós. Sem pensar em segredos, ergui os braços e fiz o mair campo eletromagnético já feito por mim antes. Eu absorvi o raio e cambaleei para trás, sentindo músculos me ampararem e meus olhos se fecharem.
Oh, Deus!
Eu me revelei!