1 - Alvo de Dardos
Anne se preparava para sua "apresentação". As sapatilhas de ponta estavam firmes em seus pés, a saia de tule no lugar, o coque tão firme que puxava suas têmporas para trás.
Era um evento beneficente em prol do bem da companhia. Mas ela encarava aquilo como uma apresentação real ao público e como um pequeno desperdício de tempo.
Ali, escondida nos fundos do teatro, um cigarro pendurado entre os dedos enquanto ela reunia a paciência que o universo tinha disponível, ela pensava no grupo de atletas de alto rendimento que estariam assistindo.
Anne tragou fundo, sentindo a fumaça arranhar sua garganta com uma satisfação de quem não se permitia mais nada. Uma ironia deliciosa de se viver.
"Atletas de alto rendimento". Era o nome dado ao que ela chamava de excesso. Pagos para destruir o próprio corpo em câmera lenta, e ainda eram aplaudidos por isso.
Ela imaginava pernas grossas, joelhos negligenciados, músculos sustentados por gelo e analgésicos. Gente acostumada a errar em público e chamar isso de jogo.
Anne esmagou o cigarro antes de terminá-lo, como se até aquilo fosse um excesso.
Quando voltou para dentro, o som das conversas mudou de densidade. Vozes mais altas. Riso fácil demais.
Eles já estavam ali.
Ela não olhou de imediato. Não por timidez, por princípio.
Mas Reuter a viu.
Não porque era bonita, havia muitas mulheres muito mais belas naquele ambiente.
Ele a viu porque no meio de todos, ela parecia a única que encarava o chão como seu inimigo.
Matthias estava encostado em uma pilastra de mármore, segurando uma taça de champanhe que parecia ridícula em sua mão grande. Ele ignorava o diretor do clube ao seu lado, cujas palavras sobre "estratégia de marketing" entravam por um ouvido e saíam pelo outro.
Ele estava entediado até o osso. Até vê-la.
Anneliese Vogel não caminhava; ela media o terreno. Havia uma rigidez em seus ombros que Matthias conhecia bem, era a postura de quem está prestes a entrar em um choque de alta velocidade. Enquanto as outras bailarinas flutuavam com sorrisos ensaiados para os doadores, ela mantinha o queixo em um ângulo que beirava o insulto.
O olhar de Reuter, acostumado a escanear defesas e encontrar brechas em frações de segundo, travou nela. Ele notou o vinco quase imperceptível entre as sobrancelhas dela, o sinal de uma dor que ela tratava como uma hóspede indesejada, mas familiar.
— Aquela é a solista. — disse o técnico, Jonas. — Anneliese Vogel. Dizem que ela é impecável, mas tem o temperamento de um vulcão adormecido.
— E alguém desse tamanho consegue fazer algum tipo de estrago? — Matthias respondeu, soltando um riso fraco.
— Matthias, pelo amor de Deus... São só duas horas. — Jonas murmurou entre dentes.
— Eu vou me comportar... — ele respondeu, dando de ombros. — Ou pelo menos tentar.
Mas o sorriso de canto continuava lá.
Não era um sorriso de diversão, era reconhecimento. Matthias sabia que pessoas que caminhavam como se estivessem marchando para um abatedouro geralmente tinham algo a provar, e ele sempre teve uma queda por ver o que acontecia quando o orgulho encontrava a resistência.
Anne seguia em direção ao palco, sendo seguida por um grupo de bailarinas. Tão sérias quanto ela mesma. Tão retas quanto uma barra de treino.
O grupo se moveu como uma formação militar camuflada sob metros de seda e tule. Atrás de Anneliese, as outras bailarinas mantinham a mesma disciplina espartana, mas havia algo em Vogel que a destacava: ela não parecia fazer parte do grupo, ela parecia ser o eixo que o mantinha girando.
Matthias acompanhou o movimento com o olhar, o corpo inclinado para a frente agora, a indiferença sendo substituída por uma curiosidade predatória. Ele conhecia aquela dinâmica de grupo; era a mesma de um vestiário antes de uma final, onde o silêncio é tão pesado que chega a zumbir nos ouvidos.
— Elas parecem que vão entrar em um ringue, não em um palco. — comentou Matthias, a voz baixa, quase para si mesmo.
— É como se fosse. Aquele ali... — Jonas apontou com o queixo para um homem no canto do palco. — Ele é o que chamam de Principal. — continuou Jonas, alheio à fixação crescente de Matthias. — Michael Weiss. O único que consegue acompanhar o ritmo dela sem ser deixado para trás.
— Solista... Principal... — Matthias repetiu, distraído. — O senhor passa seu tempo livre pesquisando balé, treinador?
Ele não tirou os olhos do palco. A organização era quase militar. E ele reconhecia formações perigosas quando as via.
— Eu leio os informativos do clube, Matthias. Algo que você deveria fazer, em vez de usá-los como alvo para dardos no vestiário. — Jonas retrucou, embora soubesse que estava falando com as paredes.
Matthias não se deu ao trabalho de responder. Ele estava ocupado demais analisando a "unidade militar" de tule que agora se posicionava sob as luzes. O tal Michael Weiss deu um passo à frente, aproximando-se de Anneliese com uma familiaridade técnica que fez os olhos de Reuter se estreitaram.
— Esse Michael... — ele começou, quase distraído. — Ele parece um mastro de uma bandeira. Tem certeza que ele vai aguentar segurá-la até o final?
— Matthias...
— Sim, senhor?
— Cale a boca e assista.
Matthias soltou um riso nasalado, o tipo de som que ele guardava para os adversários que tentavam intimidá-lo antes do apito inicial, e finalmente obedeceu. Ele se ajeitou contra a pilastra, os braços cruzados sobre o peito, a taça de champanhe esquecida na mão.
O silêncio que se abateu sobre o salão não era o silêncio de expectativa de uma plateia comum, era um vácuo.