2 - Zona Centrífuga

1125 Words
Anne não esperou que a música a convidasse. Ela não olhava para a plateia. Seus olhos estavam fixos nos de Michael. No momento em que as primeiras notas de um piano cortante ecoaram, os dois já estavam no ar. Não houve o habitual momento de hesitação, aquela fração de segundo que os artistas usam para respirar e convencer o público de que são feitos de brisa. Para Anne e Weiss, o início foi um disparo. Matthias travou o maxilar. Ele reconhecia aquele arranque. Era a explosão de um sprint de trinta metros, a força bruta convertida em deslocamento imediato. Só que, em vez de chuteiras cravando na grama, era o gesso e o cetim de Anne golpeando o tablado com uma precisão que beirava a hostilidade. Michael a recebeu no ar. O impacto foi seco, audível apenas para quem, como Matthias, sabia o som que o corpo faz quando encontra uma resistência à altura. Weiss a segurou pela cintura e a girou, mas Anne não se deixou levar; ela usava o corpo dele como um pivô, uma ferramenta necessária para que ela pudesse desafiar a física por mais alguns segundos. — Ele não está conduzindo. — murmurou Matthias, os olhos semicerrados, ignorando completamente a ordem anterior de Jonas. — Ele está tentando sobreviver a ela. A observação de Matthias perdeu força no momento em que Michael assumiu o comando da dança. Michael Weiss não era apenas um suporte; ele era o contrapeso de uma força centrífuga. No momento em que a música mudou para um tom mais grave, ele impôs sua presença. Ele envolveu Anne em um movimento de controle absoluto, e Matthias viu a dinâmica mudar: o "mastro da bandeira" revelou ser de aço. Weiss a trouxe para perto com uma firmeza que beirava o autoritário, ditando o ritmo da descida após um salto que parecia alto demais para o palco improvisado. Ele não a segurava como se ela fosse de porcelana; ele a segurava como se fosse uma arma carregada que precisava ser direcionada. Matthias apertou os dedos contra os braços cruzados. Havia algo naquela sincronia que o incomodava. Era a i********e do esforço. Weiss sabia exatamente onde o centro de gravidade de Anne terminava e onde a força dele deveria começar. O bailarino a lançou em um giro e a capturou no ar com uma precisão que fez Matthias engolir em seco. Não era delicadeza, era uma manobra de interceptação perfeita. — Ele é bom. — admitiu Jonas, em um sussurro satisfeito ao ver o silêncio de Matthias. — Ele é um zelador. — Matthias rebateu, embora a provocação soasse mais baixa agora. — Ele limpa a bagunça que ela faz com a gravidade. No centro do palco, Anne parecia, pela primeira vez, ter encontrado uma resistência física real. Ela se jogava contra os braços de Weiss com uma agressividade que exigia dele uma estabilidade sobre-humana. Era uma briga de egos traduzida em movimento; ela tentava escapar do chão, e Michael era o único elo que impedia que ela se quebrasse contra ele. Matthias notou o suor brilhando na têmpora de Michael e o modo como as mãos de Anne, embora leves, se cravavam nos ombros do parceiro como garras em busca de apoio. A performance atingiu o clímax. Anne iniciou uma sequência de giros frenéticos e, em cada um deles, Weiss estava lá, girando ao redor dela, acompanhando cada movimento com a maestria de quem conhece sua parceira. Quando os giros que deixariam qualquer ser humano tonto atingiram o pico, Michael envolveu a cintura dela com um braço, a trazendo de volta para sua batalha de perseguição. A perseguição era física. Michael a trouxe para o próprio eixo com uma autoridade que anulava qualquer tentativa de Anne de voar sozinha. Se nos primeiros minutos ela parecia caçar o espaço, agora era Weiss quem a cercava, ditando o perímetro. Matthias sentiu o pulso acelerar sob o punho da camisa. Ele conhecia aquele tipo de marcação. Era o tipo de marcação acirrada que ele aplicava nos atacantes, ditando o ritmo do jogo, sendo justo ou não. Mas, no palco, o que deveria ser harmonia artística parecia, aos olhos de Reuter, uma queda de braço silenciosa. Anne foi lançada em um último salto, um arco desesperado contra o teto dourado do salão, e Michael a interceptou no ar com um impacto que Matthias sentiu nos próprios ossos. Quando a música continuou com uma única nota constante, baixa, que disputava espaço com o silêncio insudecedor. A batalha se encerrou com um último giro que beirava a insanidade. Michael Weiss girava com uma força centrífuga que parecia desafiar a estrutura do tablado. Anne estava suspensa, o corpo rígido, estendido em uma linha que cortava o ar com a precisão de uma lâmina. Para quem assistia das mesas, era o ápice da graça; para Matthias, era pura inércia sendo domada por músculos no limite da ruptura. — Ela vai quebrar ele. — Matthias soltou, a voz agora desprovida de sarcasmo, carregada apenas de uma constatação técnica. — Ou ele vai quebrar ela. Um dos dois vai ceder primeiro. Eles terminaram em uma pose estática: o peito de Michael batendo contra as costas de Anne, os braços dele envolvendo-a em um bloqueio final, enquanto o queixo dela permanecia erguido, os olhos fixos na escuridão. Eles não eram um casal apaixonado; eram dois sobreviventes de uma colisão. O suor de Michael pingava no tablado, e o peito de Anne subia e descia em um ritmo frenético que o espartilho tentava inutilmente esconder. Os aplausos vieram em seguida, estridentes e imediatos, mas Matthias não moveu um músculo para se juntar ao barulho. Ele estava ocupado demais observando a descida da adrenalina. Lá em cima, a máscara de Anne finalmente pareceu rachar. Um micro sorriso repuxou o canto esquerdo de seus lábios. Ela e Michael deram passos tão suaves que era uma afronta ao cansaço. As mãos dadas, ambos fizeram uma reverência tão profunda que parecia uma competição pessoal de quem chegava o rosto mais perto do chão. A reverência era o ato final daquela farsa de civilidade. Enquanto as outras bailarinas sorriam para as mesas da frente, Anne e Michael estavam em um universo paralelo, testando quem mantinha a espinha mais reta enquanto os pulmões queimavam. Matthias não desviava o olhar. Ele viu quando eles se ergueram, o micro sorriso de Anne já havia sido devidamente sufocado pela disciplina, e Weiss apertou a mão dela um segundo a mais do que o protocolo exigia. Não era um gesto de carinho; era o aperto de quem confirma que o outro ainda está inteiro. — Eles se odeiam. — Matthias murmurou, uma satisfação sombria tingindo sua voz. — Você poderia se surpreender, Matthias. — Jonas caçoou, cruzando os braços rente ao peito.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD