Como se não bastasse um, agora tenho que lidar com dois? É isso mesmo?
E o pior de tudo, eu nem sei quem é o segundo. Drizella simplesmente soltou e se lembrou de que estava falando comigo. Saiu feito uma transtornada sem rumo.
É claro que voltar ao trabalho com isso em mente não foi nada fácil, e agradeci por Cohen não ter aparecido o resto da tarde. Quando deu meu horário, juntei minhas coisas da universidade e deixei minha mesa em ordem, antes de deixar a empresa pelos corredores vazios.
Meu acordo com Cohen era entrar uma hora depois de todos os funcionários, para que eu pudesse sair uma hora mais tarde e assim poder ir direto para faculdade. Portanto, sempre que eu ia embora, restavam poucos funcionários do setor corporativo, a menos é claro pelos setores de desenvolvimento e toda a parte integral da tecnologia, esses eu sabia que funcionava vinte e quatro horas por dia, mas eu sequer passava perto.
O edifício e toda a extensão da corporação Archer é imensurável. Inúmeros pólos de tecnologia estão espalhados pelo país e pelo mundo, mas a matriz é sem sombra de dúvidas a mais deslumbrante.
Às vezes eu me esquecia do que Cohen representava, ou até mesmo quem ele era. Quando ando por esses corredores infinitos e lembro que esse tal Cohen que eles tanto temem é meu chefe que nada parecia com a imagem que os funcionários desenham dele, me sinto privilegiada.
Talvez esse sentimento foi o responsável por me encorajar na festa. Esse privilégio que eu tinha de ter acesso a um Cohen menos arrogante e implacável, me colocou em uma zona de conforto perigosa. Eu tinha medo de conhecer o Cohen que todos conheciam, e parecia que a cada minuto isso estava mais perto de acontecer.
Uma voz gritava dentro de mim para me proteger, porque agora um turbilhão de sentimentos eram acumulados quando me lembro dele. Me lembro daquela noite e algo entra em erupção, me lembro dos fatos e um grande iceberg congela essa nota subjacente de excitação esperançosa por uma promessa que eu não poderia deixar Cohen cumprir, até porque quando ele souber a verdade, meu destino será certo, e por ter mentido pra ele eu sei que todo esse ego ferido mascarado de desejo será revertido em raiva
E se for condizente com minha sorte recentemente, essa raiva virá acompanhada de sede por vingança. Cohen acabaria com tudo pelo que luto todos os dias, em um piscar de olhos. Ele pode fazer isso!
Passando pela cafeteria já fechada, que me impossibilitava de ver Joe na saída, mandei uma mensagem para Holly dizendo que eu já estava saindo, e com os olhos presos no celular, eu não percebi o grupo de engravatados que se despediam perto da escada na companhia ilustre de Cohen.
Quando todos eles passaram pela catraca que dividia o hall das portas de vidro giratória, percebi o olhar de Cohen em mim, e sem ter como fingir não tê-lo visto ali, eu continuei meu caminho concentrada somente em andar, sem tropeçar nos meus próprios passos.
— Boa noite. — Ele me cumprimentou. Só então percebi o grande emaranhado de nós que embrulham meu estômago. Parecia que fui pega no flagra, estava diante de mim o homem que segundos atrás estava nos meus pensamentos.
Nem o gênio da lâmpada faria essa proeza. Não que ele seja um dos meus três desejos de vida, muito embora, se eu pudesse desejar um Deus grego, ele certamente teria os traços do Cohen, seu corpo e todas as atribuições que ele tem para fazer uma mulher molhar a calcinha.
— Boa noite. Você sumiu pela tarde inteira, deixei e-mails na sua caixa de mensagem, tive que desmarcar todos os seus compromissos. — Tentei demonstrar naturalidade, mas o que tem de natural em olhar seu chefe dos pés à cabeça enquanto imagina ele como um desejo materializado pelo gênio da lâmpada?
— Ah, sim, desculpe, não consegui avisar. Alguns acionistas do exterior chegaram antes do combinado e me alugaram pela tarde inteira. — Percebi que além de exausto, Cohen não parecia nada bem.
— Está tudo bem? — Não, não estava, e me belisquei internamente por saber que eu o conhecia tão bem, para saber quando ele estava mais do que apenas preocupado.
— Estão me pressionando, apenas isso. — Disse com olhos fixos em mim, franzindo a testa como se obrigasse seus olhos parecerem menos pesados. Ele não sabia o quanto ficava ainda mais sedutor olhando assim.
— Isso tem a ver com...
— O lançamento da Archer? — Me interrompeu colocando o próprio crachá no leitor da catraca para liberar minha saída. Passei pela mesma, ficando no mesmo metro quadrado que Cohen, lidando com o perigo de a qualquer momento fitar seus lábios enrijecidos, até que ele finalmente me deu passagem. — Tem. Esses caras investiram muito dinheiro, para estarem diante de uma mídia tão negativa.
Eu nunca me senti tão i****a e tão... ridiculamente responsável.
— Isso não é bom né? — Inquiri caminhando ao lado dele para a saída.
— Não é de todo r**m. — Ele disse em um tom cansado.
— Cohen, essa sua obsessão por essa mulher está te fazendo agir com a cabeça de... — Me parei, antes de concluir. Isso que dá conviver demais com Holly Price. — Desculpa, eu não ia dizer isso, eu ia dizendo que você está se esquecendo de como costuma resolver as coisas.
Falava do Cohen implacável e imperdoável que lidava com assuntos que o consumiam de forma prática e fria.
— E o que você me sugere?
— Esqueça isso e concentre-se nos prejuízos que ela te trouxe.
— Eu estou fazendo isso, e esse é mais um motivo para encontrá-la, porque eu não consigo pensar em mais nada além disso. — Arfei, tentando melhorar uma situação usando disso para me esquivar e até convencê-lo, mas o que parecia é que eu estava cavando essa obsessão dele cada vez mais fundo, de modo que somente essa maldita personagem que Holly e Stella inventaram poderia tirá-lo de dentro.
Então considerei que talvez meus problemas não cheguem aos pés dos problemas do Cohen. Eram tão pequenos comparados aos prejuízos reais que ele poderia ter, que eu cogitei acabar de uma vez por todas com isso e assumir as consequências.
E quando eu penso nisso, eu penso no alívio que eu teria de não precisar mais lidar com a presença dele todos os dias, ou nas mentiras que eu estava constantemente contando a mim mesma. É óbvio que ele vai descobrir. E seria, talvez, menos pior se fosse pela minha boca.
— Ah minha nossa. — Arfei quando vi Holly estacionando além da vidraça. Eu não poderia entrar no carro dela, não com Cohen aqui. Eu estava ponderando sobre a verdade, mas o momento não era agora.
— O que foi?
— Acabei de lembrar que o Joe não me respondeu. — Falei a primeira coisa que veio na minha cabeça. — O que me faz lembrar também que pela segunda vez, eu desaprovo seus meios preferidos de comunicação. É um saco ficar esperando!
Cohen riu me acompanhando até a porta giratória, recebendo alguns cumprimentos de despedida dos seguranças, e por um infortúnio, entramos no mesmo gomo de saída.
— Isso te irrita? — Sua voz soou embalada pela caixa de vidro.
— Não. — Respondi apenas, empurrando a folha de vidro sabendo que Cohen estava bem atrás de mim.
— Então porque está irritada? Nunca levou um vácuo na vida? — Ignorei a ironia sarcástica na sua voz.
— Admitir isso me faz perceber que eu estou criando expectativas. E isso sim me irrita. — Confessei olhando por cima dos ombros. Seu corpo quase tocava o meu.
— Ele teria motivos para não te responder?
— Claro que não, estávamos conversando numa boa.
— Tem certeza que você não disse nada que possa ter incomodado ele? — Parei de empurrar a porta por segundos, sabendo que Cohen também parou de andar.
— Tenho! — Respondi convicta, me lembrando da nossa última conversa. — Ele disse que estava almoçando e eu também. Ele perguntou se eu estava acompanhada e eu disse que sim.
— Seca do jeito que você é, tenho certeza que ele interpretou errado.
— Acha que ele pode ter pensado outra coisa?
— Ele não pensou, foi você quem disse. — Rebateu com firmeza.
— Mas eu estava acompanhada da minha melhor amiga.
— Então da próxima vez, seja mais clara, porque tenho certeza que esse silêncio, significa que ele ficou com ciúmes.
— Você acha? — Outra vez não controlei meu sorriso, e ao me virar, Cohen também repuxava o canto da boca, detendo seus olhos semicerrados em mim.
— Eu tenho certeza. — Disse alguns tons mais baixos. A voz rouca, abafada pelas paredes de vidro que nos envolvia.
— Quão tóxico isso pode soar se eu admitir que uma parte de mim gosta dessa hipótese? — Perguntei, intercalando entre suas orbes escuras tão intensas. Era completamente insano dar a ele a oportunidade de reconhecer qualquer mísera semelhança entre a Dama e eu.
— A parte que gosta de saber disso é a parte em você que gosta de exercer poder. — A boca transformou-se numa linha dura. Seus olhos arderam em um brilho sombrio, por um momento eu vaguei pela noite em que esses mesmos olhos me fitaram com prazer. — Mas, você precisa saber que existem outros meios de exercer poder contra um homem.
O ar naquele ambiente ficou pesado, como se a atmosfera tivesse sido rompida e toda a Terra estava sendo embalada a vácuo.
Pigarreando obriguei meus pés a girarem sobre o calcanhar e empurrei a folha de vidro até estar respirando ar puro do lado de fora. O vento me golpeou e vi que o carro da Holly já não estava mais ali, agradeci internamente por isso.
— Imagino quais sejam. — Murmurei ouvindo sua risada abafada atrás de mim, enquanto abraçava meus próprios braços.
— Esperando a sua carona?
— Sim.
— Eu espero com você.
— Quer dizer, não. Esqueci que ela não vem me buscar hoje. Preciso ir andando senhor Cohen, ou vou perder a primeira aula. — Falei já sacando meu celular para pedir a Holly que me esperasse na próxima esquina.
— Eu posso levar você.
Merda, m***a, m***a, m***a!
— Não precisa, imagina.
— Senhora Anya! Eu levo você.
— Trabalho aqui há quase dois anos, Cohen. — Fiz questão de procurar seus olhos, arqueando uma sobrancelha com presunção. — Não é só porque aceitei seus conselhos amorosos que vou passar a aceitar caronas do meu chefe. Até amanhã.
Me despedi em um aceno, começando a caminhar, segurando minha vontade de olhar para trás.
Cohen consegue ser irritante quando quer. E a alguns quarteirões à frente, encontrei o carro da Holly estacionado em uma esquina. Entrei suspirando de alívio, me certificando de que ninguém por perto estava me vendo.
— Ele está marcando na sua ou é impressão minha? — disparou a pergunta.
— Não, nos encontramos por acaso. — Respondi soltando o ar dos pulmões deixando meus ombros caírem. Meu coração ainda estava acelerado, e meu psicológico já estava dando indícios de que precisa de cuidados. — Acho que preciso de uma bebida.
Pela primeira vez, Holly não me respondeu, continuou me observando e pela visão panorâmica, eu via preocupação em suas linhas expressivas.
Aproveitei o tempo livre até o campus para tirar um cochilo. Acordei com Holly me cutucando e me arrastei até a sala para a primeira aula, sabendo que hoje meu cérebro teria que pegar no tranco. E assim arrastei as horas seguintes, aulas com minutos que mais pareciam horas, me empenhando ao máximo para prestar atenção, mas confesso que divaguei diversas vezes, até ser puxada para a realidade quando o assunto se virou para mim, na aula do professor Leeson.
— Vimos isso recentemente na prática. O uso do Copyright¹ estabelecido na jogada de marketing da corporação Archer, com a exposição de um problema na voz da ilustre Dama de Prata. — Franzi a testa, assumindo o peso do meu pescoço que antes estava apoiando na mão, lentamente erguendo minha cabeça.
Uma lâmpada acendeu como um clarão na minha cabeça. Eu não estava prestando atenção no debate daquela aula, justamente por já ter sido uma matéria que eu dominei no semestre passado. Portanto, eu sabia exatamente do que ele estava falando, e essa teoria por mais errônea e equivocada que seja, é tão coerente que de fato parece ter sido planejada.
Leeson olhou para mim enquanto falava, pois ele sabe que eu trabalho na própria Archer, era um dos professores, inclusive, que me pressionava por conta dos estágios obrigatórios da universidade que eu não tinha cumprido. Isso porque eles m*l pagavam meus estudos, e por decorrer disso, eu precisava participar de todos os seminários e palestras como voluntária para não ficar devendo nada na grade de horários.
— Estudando um pouco o histórico dos grandes lançamentos que foram padronizados anualmente, vemos que essa questão da nova era digital já existe, mas para inovar e convencer seu público de que isso não é só mais um lançamento de produto, e sim um sistema operacional necessário, eles precisaram gerar um problema. — Leeson contava com empolgação. — Alguém sabe qual é esse problema?
Quando vi que ninguém levantou o braço, ousei me prontificar, reprimindo um sorriso. Ele me passou a fala como se já esperasse pela minha resposta. Afinal, eu deveria estar por dentro de todo plano de marketing, mesmo nunca nem tendo acesso a ele, só sabia que a fala da Dama de Prata, a minha fala, nada tinha a ver com jogada de marketing, e sim uma revolta real.
— O custo exorbitante que as empresas que adquirem o sistema repassaria em seus produtos para o consumidor final. — E com consumidor final estou me referindo a pessoas como meu irmão.
— Exatamente! — Disse ele quase como em uma comemoração. — A Archer sabe que o custo final é realmente muito grande, e essa jogada foi tão inteligente, que invés de convencer o público final que eles precisavam dos produtos, como uma empresa nos convence a comprar um celular novo só porque ele é o celular do momento, eles geraram um problema no qual seus próprios clientes terão que resolver, com o perdão da palavra… se comovendo com a causa para apenas implementar e não repassar esses valores. Então é muito provável que nos próximos dias, enquanto a polêmica alavanca a mídia gratuita que eles ganharam de forma orgânica, as empresas que adquirirem esses sistemas, irão anunciar algum projeto de inclusão para financiar esse produto. Bum, eles não vão pagar nada por isso. E quem mais lucrou com isso? Corporações Archer!
Meu queixo despencou. Estava ali, bem diante de mim a forma de fazer Cohen reverter essa situação a favor dele.
Se eu pudesse, daria um beijo na testa de Leeson e pularia de alegria, mas isso me entregaria então me contive testando todas as minhas linhas expressivas em admiração pelo gênio que eu tinha como professor.
Esse mesmo gênio falou meu nome quando a aula acabou, se despedindo dos alunos, mas pedindo que eu esperasse um pouco enquanto recolhia meus livros. Abracei tudo em frente ao meu corpo e desci a arquibancada das cadeiras até sua mesa, quando a sala já tinha esvaziado um pouco.
Leeson, que não deve ser muito mais velho do que eu, pelo menos não aparentemente, estava sentado literalmente na sua mesa, fazendo alguma anotação antes de pescar um panfleto e me entregar, esperando que eu lesse.
— Precisamos complementar sua grade, de novo. Ou vai ficar devendo horas, e eu não admito que minha aluna mais aplicada fique de DP². — Disse enquanto eu lia o panfleto.
É de um seminário para multinacionais que aconteceria em dois dias.
— Nesse horário eu ainda estarei trabalhando. — Comuniquei receosa. Leeson suspirou pesaroso.
— Anya, você não faz estágio, não atua na sua área, precisamos entregar suas horas de alguma forma, e você sabe que essa é a única forma de burlar a universidade. Isso porque eu ainda coloco você como colaboradora, tudo o que estou pedindo é para que compareça e não me coloque como mentiroso para os coordenadores.
— Eu sei, eu sei, eu jamais arriscaria sua credibilidade, o que você faz por mim é impagável. Vou tentar sair mais cedo, eu prometo, imagina.
— Não precisaria da nossa ajuda se pagasse essas horas com estágio, Anya. Estamos entrando no último semestre, você já deveria estar trabalhando na sua área. — Falou do que eu já sabia. Já tivemos essa mesma conversa inúmeras vezes.
— O estágio não paga o que preciso, além do mais, a experiência que ganho na Archer é imensuravelmente maior do que qualquer escritório de publicidade me proporcionaria, você sabe disso, e…
— As referências, eu sei. — Me interrompeu rendido em um sorriso. — Eu vejo os resultados no seu empenho. Sabe disso, o que faço por você eu não faria por nenhum outro aluno.
— É por isso que você pode contar comigo no seminário, me mande tudo o que preciso fazer. — Leeson riu ruidosamente. Todo seu rosto se iluminou.
— Nada de novo, apenas auxiliar os calouros nas apresentações, e apresentar os stands que estarão apresentando suas campanhas publicitárias.
— Moleza. Já fiz isso inúmeras vezes.
— E sempre sai com umas dez propostas de emprego. — Gargalhei concordando.
— É o personagem da Anya publicitária para nem você, nem os coordenadores pensarem que o estágio me faz falta. — Leeson semicerrou os olhos fingindo ter sido atingido.
— Obrigado pela consideração, mas essa Anya publicitária, é a profissional que está escondida atrás da mesa de um bilionário. — Relaxei meus músculos faciais com tédio.
— Até você? — Ele deu ombros com a postura presunçosa.
— Se eu não sou o único, é sinal de que precisa rever sua decisão.
— Eu faço isso todos os dias, mas os motivos que me fazem seguir dessa forma, são os mesmos que sofreriam caso eu pensasse somente em mim.
Leeson estreitou seus lábios em um sorriso fino.
— Eu te admiro, Anya. Admiro mesmo.
— Obrigado. — Agradeci, afastando-me com o panfleto em mãos. — Boa noite Sr. Leeson.