Capítulo 10

3037 Words
Quando foi que minha vida começou a dar tão errado assim? Em um momento eu era apenas uma secretaria responsável, com trabalho estável, futuro certo, estudo em dia e agora... estou no banco do passageiro do carro do Cohen a caminho do Studio rezando para que Holly não me entregue, nem ela nem ninguém que esteja lá. O caminho até o carro já foi absurdamente humilhante. As pessoas abriram espaço para o Cohen como se ele fosse um tipo de rei da selva. Como se a qualquer mínimo olhar, elas fossem se desintegrar. — Algum problema com sua família? — Cohen perguntou de repente. Perdida em pensamentos, eu m*l digeri sua voz. — Como? — Sua família. Longe de me intrometer, mas a porta ainda não tem acústico. Vi você chorando achei que pudesse ter algum problema. — Nada que eu consiga resolver. — Ele buscou meu olhar rapidamente. — Era um choro de… saudade e raiva. — Raiva de quem? — Ignorei a quase preocupação na sua voz. — De mim mesma. — Fui sincera, direcionando meus pensamentos na voz cansada e aparência exausta da minha mãe. Nas dores que papai sentia no fim do dia, e na empolgação do Tom que eu morreria se alguém ousasse tirar aquele brilho esperançoso dos seus olhos. — A impotência é uma m***a… Desculpe! — Não precisa se desculpar! — Disse em um sorriso franco. — Eu sei exatamente como é! Anui reprimindo o ímpeto de debochar. Cohen não faz ideia do que é se sentir impotente diante de uma situação como essa. Não quando, para começo de conversa, ser quem ele é, elimina qualquer chance de passar por problemas como os que minha família estava enfrentando. — Que cara é essa? — inquiriu ofendido, mas um sorriso de canto nasceu ali. Na minha tentativa de esconder o que estava sentindo, devo ter criado uma careta ainda pior. — Acha que eu não sei o que é se sentir impotente? — Não é isso. Quem sou eu pra dizer o que o que já sentiu ou não, mas… as situações são bem diferentes, acredite. — Então você acha que alguém como eu não tem o direito de se sentir impotente? — Me diga o que o seu dinheiro não compra, Archer. — O desafiei. Um silêncio perdurou por longos minutos, ele perdeu seus olhos na estrada, calando-se sem pretensão alguma de me dar uma resposta. Ele não tinha uma resposta. Foi isso que pensei quando também desviei meu olhar para além da janela, quando sua voz chegou tão fria quanto a chuva de uma madrugada escura. — O amor. — Duvidei se eu realmente tinha escutado aquilo, quando ele mesmo continuou. Fixei meus olhos nos seus lábios que provaram de um sorriso sem calor algum, ele sorriu mesmo sem vontade de sorrir. — Meu dinheiro não compra o amor. Eu entendi que ele não estava falando de pessoas, tampouco de mulheres. O vazio dentro do carro me fez questionar se Cohen realmente conhecia o amor de uma mãe ou de um pai, e ao julgar pelo seu relacionamento conturbado com o irmão, eu duvido que ele sinta por Casper o mesmo que eu sinto pelo Tom. Isso era frustrante. É errado pensar que a vida dá um jeito de ser justa? Pois, o que parecia é que pessoas como ele, realmente não podiam ter tudo. Que o dinheiro tem sim seu preço, ele é distante para uns, e te torna distante para outros. — Não, não compra. — Repeti concordando. No meu caso, eu tinha todo amor do mundo, mas não conseguia comprar a distância que me separava da minha família, nem o tempo que eu não tinha para estar com eles, tampouco a saúde que eles mereciam, e se estou nesse carro agora, é para garantir o mínimo que eu ainda conseguia. Meu coração falhou algumas batidas quando paramos de frente para o Ateliê da Stella. Engoli seco antes de descer do carro atrás de Cohen. Ele foi o primeiro a entrar pela porta de vidro, que na verdade, foi aberta como se ele fosse incapaz de tocar a maçaneta por conta própria. A primeira imagem que tive foi da Holly atrás do balcão, conferindo algo alheia às vendedoras. Uma delas veio imediatamente ao encontro de Cohen, e ao pronunciar seu nome em alto e bom tom, todos direcionaram seu olhar para ele. Holly foi uma delas, arregalando os olhos com espanto ao me encontrar junto com Cohen, há apenas um passo para trás. Balancei minha cabeça discretamente de forma negativa, esperando que ela compreendesse. — Estou procurando por Stella Valencio. — Ele disse à vendedora. — Ela está no Ateliê, vou mandar chamá-la agora mesmo. — Disse a vendedora, dedilhando seu celular rapidamente. — Enquanto isso, com quem posso falar a respeito dessa etiqueta? — Perguntou, tirando a mesma do bolso. A vendedora fina e elegante, observou mais atentamente a mesma antes de se virar para o balcão, onde Holly fingiu que não estava trocando olhares comigo. — Holly Price é a estilista que assinou essa peça. Algum problema com o mesmo? — Respondeu devolvendo a etiqueta ao Cohen. — Quero saber se ele já foi devolvido?! — O olhar da moça ficou perdido. Provavelmente aquilo não fazia sentido. Foi quando Holly se aproximou tentando disfarçar seu nervosismo. — Posso olhar a etiqueta? — Perguntou se aproximando. — Holly Price, muito prazer. — O prazer é meu senhorita Price. — Minha amiga me fitou brevemente apenas para capturar minhas caretas gesticulando o incompreensível, antes de pegar a etiqueta. Cohen também procurou meus olhos, antes de voltar sua atenção ao que Holly falava. — Ah sim, essa peça foi consignada na noite de sábado, e sim, já foi devolvida, chegou há pouco da lavanderia. — Disse com naturalidade. — Eu posso ver? — Seu pedido me fez saltar os olhos. Holly soprou um sorriso. — Por acaso ele é evidência de algum crime? — A voz que chegou de surpresa era de ninguém menos que Stella Valencio, sustentando um sorriso presunçoso, elegantérrima como sempre . — Quase isso. — Cohen entrou na sua brincadeira. — Cohen Archer. — Disse estendendo o braço para cumprimentá-la. — Eu sei, e sei também porque está aqui. Por aqui, por favor. — Ela pediu, esperando Cohen passar antes de me lançar uma piscadela cúmplice. Holly segurava uma risada pavorosa, e eu segurava a minha vontade de gritar e sair correndo. Chegamos a um cômodo reservado para clientes, algo mais íntimo e exclusivo, e foi impossível não paralisar ali mesmo, depois da porta, pois o único modelo que estava exposto em um manequim, era o bendito, bem de frente para a vidraça exuberante de vidro, dando ao mesmo ainda mais brilho. O ar me faltou por alguns segundos, principalmente ao ver Cohen circundar a peça lentamente, como um predador espreitando sua presa. Eu pude me imaginar dentro daquele vestido novamente, e ainda que seu olhar não estivesse direcionado a mim, eu sentia a intensidade do mesmo. Ele parou de frente para o manequim, encarando cada detalhe da peça, sua respiração também parecia mais pesada, enquanto algo se revirava dentro de mim. Queria saber o que se passava na sua cabeça. Se as mesmas lembranças que me invadiam, também dominavam seus pensamentos agora. — Estou atrás da pessoa que alugou esse vestido na noite de sábado. — Declarou sem tirar seus olhos do mesmo. Holly me cutucou discretamente, enquanto Stella apenas sorria. — Ninguém alugou esse vestido, senhor Cohen. — Respondeu ela, de forma branda e plena, ganhando a atenção de Cohen. — Essa peça é um modelo único de Holly Price, minha mais nova estilista do Ateliê. E sua criação fez parte de um projeto que eu mesma lancei. A Dama que estava usando-o na noite de sábado, é na verdade uma convidada minha, e em hipótese alguma, sua identidade será revelada. Cohen estremeceu, provavelmente tentando controlar seu ego ferido. — Foi uma ótima jogada de marketing, eu admito, e ela com certeza tem seu preço. Diga-me o seu. Stella sorriu. — Não se trata apenas de mim. Ela não quer ser exposta, e está enganado senhor Cohen, esse vestido tem um preço, não a minha palavra. Principalmente agora, que eu sei para que fim quer encontrá-la. — Sabe mesmo? — Ele a desafiou. — Vingança. Pelo que ela fez com você na festa. Estou certa? Foi a vez dele sorrir. — Não, não está! — Cohen olhou rapidamente para a quantidade limitada de pessoas naquela sala. Apenas Holly, eu e Stella presenciaram aquela cena. Na verdade, Holly apenas me encarava exasperada. — Não estou atrás de vingança, ela e eu... temos apenas assuntos não terminados. — Eu posso tentar uma conversa, talvez, com a garantia de que ela não será procurada, pois esse foi o nosso acordo. — Então você sabe onde ela está. — Concluiu Cohen. — Certamente. — Então diga, que eu vou encontrá-la! E isso não é uma escolha que cabe a ela. Por ora, vou me contentar com a proposta e dar a ela um prazo, mas sugiro que não teste minha paciência. — Sua voz fria e pesada arrancou meu medo mais profundo, sendo ele uma mistura de ansiedade e excitação, pela promessa disfarçada. — Eu espero que isso não seja uma ameaça, senhor Cohen, caso contrário essa mensagem nunca chegará a ela. — Não sou de fazer ameaças, eu apenas cumpro promessas, ao contrário dela. — Engoli seco sentindo cada terminação nervosa estremecer, e o sangue que corria em minhas veias borbulhar. — Engraçado, você parece saber mais coisas sobre ela do que eu. — Brincou Stella. Nesse momento eu quis dar um chacoalhão nessa mulher e mandá-la ficar quieta. — Ela também pareceu saber muito sobre mim. O suficiente, na verdade. — Soltei o ar em uma fechada rápida de olhos. — Pensei ter sido alguém que a enviou para boicotar o lançamento, mas eu duvido que escolheria alguém com esse intuito, estou certo? Stella suspirou tranquilamente. — A única pessoa que enviou aquela mulher à sua festa, está na sua frente, e não, não houve intenção alguma senão a visibilidade da minha marca. Presumo eu, senhor Archer, que o senhor tocou em um assunto delicado para ela. — Eu cheguei a essa conclusão também. Mas, com todo respeito, meu desejo de encontrá-la nada tem a ver com seu discurso, já que eu já sei como usá-lo ao meu favor, pois ela também proporcionou visibilidade a minha marca. — Entreitei meus olhos com ultraje. Quase não acreditando nas suas palavras. — Ah, eu duvido, e é por isso que estou preservando a sua identidade. No mínimo alguma proposta tem aí, senhor Archer. E já vou avisando que a imagem da Dama de Prata é de uso exclusivo para mim. Era uma disputa por poder. Cohen não intimidava Stella. Talvez pelo mesmo motivo que ele não conseguiu me intimidar dentro daquele vestido, muito embora os impérios sejam de pesos com diferenças exorbitantes, cada um são considerados imperadores em seu nicho. — Minha proposta é extremamente de cunho pessoal. E nada decente. O sorriso de Stella aumentou gradativamente, enquanto ela entendia o que ele queria dizer. — Acho que ela não ganhou qualquer visibilidade. Está encantado com a moça. — Não vou me expor mais do que já fui exposto. Como você disse, esse vestido tem um preço e eu quero saber qual é. — Vai comprá-lo? Cohen observou o vestido por um bom tempo com um sorriso traiçoeiro de canto. Não sei se por delírio do nervosismo ou visão de ótica, mas pelo reflexo do vidro da janela, eu encontrei seus olhos me fitando, e meu coração tamborilou contra as costelas. Quem me visse agora, saberia que o desconforto é evidente, ele molhava minha testa com gotículas de desespero. — Vou! ⚜ No caminho de volta para a empresa, eu evitei ao máximo olhar para o banco de trás, onde uma caixa branca com a logomarca da Stella Valencio era impressa em um design minimalista e sofisticado. Mas não resisti. Olhei tão discretamente que duvidei seriamente que Cohen pudesse perceber. Chegava a parecer piada e eu não gostava de pensar na bola de neve que me meti em tão pouco tempo. Talvez eu devesse culpar a Holly, isso é claro se eu não quiser enlouquecer de tanto pensar. O pior de tudo é que uma parte de mim estava com raiva, a outra, preocupada, mas em nenhuma das partes eu me via arrependida. Quando penso naquela noite e tento mudar algo, eu aceito tudo, menos o momento que eu tive com Cohen. Me arrisco dizer que nunca me senti tão viva, em toda minha vida. É como se ele fosse uma d***a ilícita. Proibido para mim, viciante, e por mais que eu saiba o quanto é nocivo, eu ainda queria ter mais. E depois da visita ao Ateliê, eu descobri que Cohen também queria, e precisava me convencer de que ele falou aquilo apenas para facilitar sua busca. — Por que comprou o vestido? — Eu não conheço uma pessoa mais i****a do que eu. Nenhuma resposta para sanar minha curiosidade, amenizaria essa confusão dentro de mim agora. Pelo contrário, eu sabia que corria sérios riscos de piorar. — Não vou permitir que ele pertença a outra pessoa. — Me olhou muito brevemente, mas com uma intensidade quase tenebrosa. — E o que pretende fazer, sair buscando por todas as damas com um vestido de cristal? — Ele riu disfarçando sua voz olhando pela janela. — Não vou buscar por ela mais, ela vai vir até mim. — Mais uma vez me senti desafiada. — Como tem tanta certeza? — Eu apenas tenho. — E se estiver errado? Cohen ficou sério, mas a sombra de um sorriso ainda pairava sobre seu semblante. Ele demorou mais que alguns segundos, para então parar o carro no semáforo e me olhar com um sarcasmo presunçoso evidente. — Se tem algo maior que o seu profissionalismo, é a sua curiosidade, Anya. Sabe aquela linha que você mesma criou, e que nunca ultrapassou? Eu admiro ela, mas trabalhamos tanto tempo juntos que eu te vejo como alguém da minha confiança, e no momento, a única pessoa com quem posso me abrir, porque eu confio na sua índole. Então, eu ultrapasso a minha se ultrapassar a sua. Minha respiração falhou vergonhosamente, como em um suspiro derretido, no entanto eu estava mais surpresa e sem saber como prosseguir do que qualquer coisa. — Como assim? — Você mandou mensagem para o Joe? — Entendi o que ele quis dizer. Quando ele tentou falar sobre minha vida pessoal comigo, eu não permiti, e agora eu estou querendo saber sobre a sua, porque na minha cabeça a sua também me dizia respeito, e isso de alguma forma não faz sentido algum. — Entendi. É, eu enviei, mas duvido que ele vá querer falar comigo agora. — Por que? Porque eu dei um bolo nele. — Porque combinamos de nos encontrar na festa. Ele sorriu, como se não acreditasse. — Ele vai falar com você! — Garantiu. — Ele ia falar comigo, querendo ou não, mesmo que fosse só pelo café. — Eu quase senti que você está me culpando. — Foi minha vez de sorrir. — Você ao menos tentou explicar o porquê de ter deixado ele plantado te esperando? — Não, acha que eu deveria? — Não custa tentar. — Anui considerando pela segunda vez sua opinião sobre minha vida pessoal. — Ele me parece ser um cara legal, e bem, é você quem deve desculpas então não espere que venha atrás de você. — Talvez eu passe lá na hora do almoço, não garanto. — Só pela careta vi que Cohen não aprovou. — O que foi? Perguntei quando o sinal abriu e ele voltou sua atenção para a estrada, se aproximando do edifício da Archer. — Não defendo contato humano primitivo. Os celulares estão aí pra isso, sou defensor das mensagens de texto, torna tudo tão interessante e ao mesmo tempo fantasioso. Sabe, o frio na barriga, a ansiedade, a antecipação. — É claro que você vai defender as mensagens, você ganha com isso! — Cohen gargalhou lindamente, tão contagiante que quando dei por mim estávamos os dois rindo. — Você me pegou. É, eu ganho, mas o que falei não deixa de ser verdade. Além do mais, ia surtir uma certa revolta nele, no sentido de... você sabe onde encontrá-lo. — Isso é tipo aquele lance de demorar pra responder? — São primos. Também rola um mistério, é intrigante. Homens gostam de mulheres intrigantes. — Assenti balançando a cabeça negativamente em meio a um sorriso. Estou aceitando conselhos do meu chefe. Conselhos amorosos, de alguém que há dois dias atrás estava me proporcionando prazer. E que continuava sendo meu chefe. — Sua vez de responder. — Falei quando ele entrou com o carro no estacionamento subterrâneo do prédio. Cohen estacionou o carro em sua vaga reservada de frente para o elevador que dava direto no seu andar presidencial, quando ele mesmo finalmente me respondeu. — Eu não estou errado, Anya. Digamos que, essa mulher também ganhou minha atenção, e eu sei que você deve imaginar o que rolou para eu estar com a etiqueta do seu vestido. Imaginar? Porra Cohen, eu me lembro! — Eu não estou pensando em nada do que ela disse, ou fez, eu só estou pensando no gosto do seu beijo, no seu perfume, na maciez da sua pele. Cada detalhe faz do pouco tempo que tivemos juntos, horas. Ela está em cada pensamento obsceno, e eu não me conformo com a sensação de que tudo não passou de um vislumbre, coisa da minha cabeça, eu sei que aconteceu, eu sei que foi real, e tenho certeza que ela sabe também, porque eu vi nos seus olhos o mesmo desejo e a mesma entrega. Eu espero muito que isso seja uma questão de ego ferido, porque cada hora que passa sem que eu tenha essa mulher no meu colo de novo, é uma hora mais perto da minha loucura. Eu a quero, apenas isso, e vou deixar que ela venha até mim, porque eu gosto desse jogo.
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