Capítulo 3

1453 Words
Indo à Caça! O que acontece quando o caçador vira a caça? Dias depois do leilão, Arthur descobriu tudo sobre Helena. Helena Alcântara. Filha única de Augusto Alcântara e Eliana Alencar de Alcântara. Herdeira de um dos maiores grupos de logística do país. Uma fortuna que fazia o sobrenome Lancaster parecer menos impressionante do que ele estava acostumado. Mas eles não tinham o berço dos Lancaster, devido a um escândalo de mais de 20 anos atrás. Augusto Lancaster se fugiu e se casou com a filha da empregada da casa de seus pais. Um escândalo digno de novela das 21 horas. Ele, herdeiro do agronegócio. Rico de berço há gerações. Foi deserdado da família e teve seu nome riscado do livro de membros da respeitável família Gurgel. O próprio retirou o imponente sobrenome do avô, Coronel, e adotou somente o sobrenome da mãe, Alcântara. A pobre mulher morreu logo depois que o filho saiu de casa, acometida por uma forte depressão. Um trágico fim. Arthur ficou olhando para a tela do computador. Então riu sozinho. Ela sabia. Ela sabia exatamente quem ele era. E, ainda assim, naquela noite, não havia demonstrado o menor interesse pelo sobrenome Lancaster. Foi a primeira coisa que realmente o encantou. Helena não precisava da fortuna dele. Não precisava do nome. Não precisava de acesso. Ela já tinha tudo. O pai determinado, que só se reergueu sozinho no ramo de transportes. E hoje é o magnata da logística no país todo. E, se tudo der certo, em breve vai dominar o mundo. Fechando o contrato trilionário com o seu pai. E, pela primeira vez em muito tempo, Arthur encontrou alguém que parecia enxergá-lo sem enxergar primeiro aquilo que ele possuía. E isso o deixou interessado. Quase obcecado pelo novo desafio. O que ele não sabia era que Helena também havia se interessado. Não pelo bilionário. Mas pelo homem que havia perguntado sobre uma pintura antes de perguntar quanto dinheiro ela tinha. O celular de Helena vibrou novamente. Ela abriu os olhos. Uma nova mensagem. Mãe "Venha almoçar comigo. Quero saber tudo sobre o leilão." Helena riu e digitou "Você já sabe de tudo." A resposta veio imediatamente. "Gosto de ouvir a sua versão dos fatos." Helena levantou da cama e, duas horas depois, ela estava na casa dos pais. A mesa estava cheia. Flores. Pratos sofisticados. Sobremesas. E sua mãe sorrindo como se tivesse acabado de ganhar na loteria. — Finalmente! Eliana exclamou quando a filha entrou. — Mãe, eu cheguei há trinta segundos. — Trinta segundos que poderiam ter sido evitados se você tivesse vindo mais cedo. Helena riu e a abraçou. — Você está bem, está feliz? Eliana segurou o rosto da filha entre as mãos. — Muito. Vamos, me diga, quem é ele? Helena sorriu. — Eu sabia. As duas caminharam até o sofá e se sentaram próximas, com Eliana segurando as mãos da filha entre as suas. — Vamos, me conte tudo? A mãe fingiu indignação. — Mamãe, tenho certeza que sua assistente fofoqueira já te contou tudo! — Fofoqueira não, eficiente. Helena sorriu. A mãe amava ler romances com finais felizes. E sonhava com o dia em que a filha encontraria seu príncipe encantado, como ela mesma encontrou Augusto. — Mamãe, foi apenas uma conversa. Eliana riu. — Mais de meia hora sem você fingir uma ligação importante e sair à francesa. Era exatamente assim que funcionava sua família. Amor e negócios sentavam-se à mesma mesa. Seu pai apareceu pouco depois, ainda falando ao telefone. — Sim. Não, o cronograma da primeira remessa precisa ser antecipado... Ele desligou ao perceber a filha. — Minha flor. Helena correu para abraçá-lo. Augusto a apertou contra o peito. — Eu estava com saudades de você. Ele sorriu. — O papai também, minha princesa, muitas saudades. O pai sorriu e a apertou ainda mais contra o peito. Para Augusto, Eliana e Helena eram sua maior riqueza. — Como foi no leilão? Soube que quase investiu uma pequena fortuna em um quadro do primeiro lote. O pai não ligava para o valor em si do dinheiro, desde que a filha estivesse feliz e satisfeita... para ele, valia o preço. E, para Helena, aquilo era prova de amor suficiente. Ela era feliz. Ela tinha os pais. Tinha dinheiro. Tinha uma carreira. Tinha amigos. E quem sabe, no futuro, não teria também Arthur. A vida parecia ter sido cuidadosamente organizada para que nada lhe faltasse. Talvez fosse por isso que Helena nunca tivesse entendido completamente o medo que algumas pessoas sentiam quando falavam sobre perder tudo. Ela nunca havia perdido nada. Algum tempo depois, Helena encontrou suas duas melhores amigas. Camila e Júlia. As três haviam se conhecido na faculdade. Camila era filha de uma professora, mãe solo, e do atual padrasto, Jonas. Técnico de enfermagem, que foi morar com elas ah alguns anos. Júlia havia crescido com a mãe viúva, funcionária pública, e dois irmãos mais novos. As duas sabiam exatamente quanto custava uma conta de luz. Quanto custava um aluguel. Quanto tempo era necessário trabalhar para comprar uma passagem de avião. Helena não. Ela crescera em uma realidade completamente diferente. Era filha única. Nunca precisara dividir um quarto. Nunca precisara escolher entre comprar um livro ou pagar uma conta. Nunca havia entrado em uma entrevista de emprego preocupada com o salário. Seu futuro já estava garantido antes mesmo de ela descobrir o que queria fazer da vida. E, ainda assim, Camila e Júlia eram suas pessoas favoritas. Talvez porque nunca a tratassem como uma princesa. — Então é verdade? Camila perguntou assim que Helena a recepcionou no hall da casa dos pais. — Boa tarde para você também, fofoqueira? Elas riram abraçadas. — Sim, Cami. Disse Júlia, que vinha logo atrás. — Ela e o bilionário, juntinhos por mais de meia hora. Elas riram. — Bateu o recorde. Júlia mostrou o celular para Helena, que viu uma foto sua conversando com Arthur, distraída, e, acima da foto, o cronômetro marcava trinta e sete minutos. — Tem várias páginas de fofocas especulando no Insta. Helena ficou sem graça. Sempre viveu longe dos holofotes. Na faculdade, evitava as festas de fraternidade, pois sempre tinham paparazzi atrás de um furo dos ricos e seus herdeiros delinquentes. — Vocês são insuportáveis. Elas caminharam para a área externa, onde seria servido o almoço. — Nós somos suas amigas. Temos direito. Camila completou. — Eu ainda sou sua secretária, tenho direito em dobro. Júlia riu e bateu no peito. — Eu trabalho para a matriarca dessa família, a toda-poderosa e maravilhosa Eliana Alencar de Alcântara. Tenho direito triplo aqui. Elas riram. — Vocês sabem que eu quero vocês duas trabalhando comigo para sempre, não sabem? Camila riu. — Helena, já trabalhamos juntas. — E eu te vejo todos os dias. Júlia relembrou. — Então parem de criar fanfics nessas cabecinhas. — Não é fanfic, isso é coisa de adolescente. — É sim. Helena retrucou. — Não é. Júlia apoiou o queixo na mão. — A dona Eliana ama uma fanfic. As três caíram na risada. Todos que conviviam com dona Eliana conheciam seu lado romântico incurável. — Eu amo vocês. — Nós sabemos. Helena olhou para as duas. Camila. Júlia. Duas mulheres negras brilhantes, determinadas e independentes, que haviam chegado até ali por caminhos muito diferentes dos seus. Ela tinha orgulho delas. E também acreditava, sinceramente, que as três estavam vivendo a mesma vida adulta. Naquela época, Helena ainda não compreendia o quanto suas realidades eram diferentes. Não compreendia porque nunca precisara compreender. Ela acreditava que inteligência, esforço e educação eram suficientes para abrir qualquer porta. Acreditava que o mundo recompensava quem trabalhava duro. Acreditava que, se alguém fosse competente, seria reconhecido. Acreditava que o preconceito era algo que pertencia ao passado ou às histórias que lia nos jornais. Afinal, ela era n***a. Rica. Educada. Respeitada. E nunca havia sido impedida de entrar em lugar algum. Nunca havia sido tratada como menos. Nunca havia precisado provar que pertencia. Ou, pelo menos, era isso que acreditava. Naquela tarde, Helena falou sobre Arthur. Sobre a elegância dele. Sobre o jeito educado e espontâneo com que ele puxou assunto. Sobre o convite para jantar que recebeu na manhã seguinte, mas que gentilmente recusou. Afinal, ela viajaria a trabalho em breve. Helena estava bem sóbria sobre o seu futuro. Helena ainda não sabia que tinha virado o foco de Arthur Lancaster. E talvez essa tenha sido sua maior inocência. Ela crescera em uma redoma tão perfeita que, por muito tempo, confundiu proteção com realidade. E, naquela tarde, enquanto Helena planejava o futuro perfeito, Arthur acreditava ter encontrado a mulher perfeita que não precisava de seu dinheiro. E nenhum dos dois fazia ideia do que o destino reservava para eles.
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