Capítulo 2

1427 Words
O Casal do Ano. O Felizes para Sempre, será que existe? Helena nunca havia pensado nisso, até aquela manhã. Sua foto estava em todos os lugares. O beijo. A mão possessiva de Arthur em sua cintura. O aperto de mãos entre o pai Augusto e o agora oficial namorado. Suas redes sociais, que antes eram discretas, precisou tornar privadas. Helena deslizou o dedo pela tela do celular, ainda deitada na enorme cama de seu apartamento de três mil metros quadrados. Leu uma manchete. Depois outra. E outra. Até que não conseguiu conter o sorriso. Era estranho ver seu próprio rosto estampado em revistas. Mais estranho ainda era perceber que sua vida pessoal havia se tornado assunto para pessoas que sequer a conheciam. Logo ela, que sempre fora tão reservada e discreta, passou a adolescência inteira low profile... Agora via sua vida sendo revirada do avesso por jornalistas e portais de fofocas. Ela abriu uma das fotografias. Era a imagem da noite anterior. Arthur estava ao seu lado, uma das mãos delicadamente apoiada em sua cintura. Ela sorria. Ele também. Pareciam felizes. E estavam. — Meu Deus... Helena soltou uma risada baixa e cobriu o rosto com uma das mãos. A fotografia era bonita. Bonita demais. Eles combinavam. Talvez porque ela não estivesse olhando para as câmeras. Estava olhando para Arthur. E Arthur estava olhando para ela. Foi isso que fez seu coração apertar. Não o luxo, ela mesma não ligava para nada daquilo. Não o contrato. Não as famílias, afinal, cresceu tendo apenas o pai e a mãe como base familiar. Era ele. Arthur. Helena colocou o celular sobre o peito e fechou os olhos. Ainda conseguia sentir o perfume dele. Ainda conseguia lembrar do toque de sua mão. Ainda conseguia ouvir a voz baixa que ele usara quando se aproximara dela no meio da festa. — Você está linda. Duas palavras. Tão simples. Mas ditas por ele pareciam diferentes. Helena sorriu. Conhecia Arthur Lancaster havia pouco mais de um ano. Um ano que parecia ter passado rápido demais. Tudo havia começado muito antes daquela fotografia. Muito antes dos contratos. Muito antes das famílias descobrirem que seus filhos estavam apaixonados. Tudo começara em um leilão beneficente. Helena não queria ter ido. Naquela noite, preferia estar em casa, descalça, assistindo a um filme antigo com uma taça de vinho ao lado. Mas seu pai havia insistido. — Preciso que me represente, filha. Helena revirou os olhos, mesmo sabendo que o pai não podia ver pelo telefone. — Sua mãe não está bem, e preciso ficar com ela. Helena sabia das dores que a mãe vinha sentindo há tempos e de como o pai era superprotetor com a esposa. Ainda mais nesses momentos. — Papai, eu fico com ela e o senhor vai ao evento. Ela tentou argumentar, mesmo sabendo que seria em vão. — Helena... Ele usou aquele tom de advertência que ela sabia que não devia questionar mais. — Eu prometi, diante daquele altar, naquela capela minúscula em Serra Azul, que estaria com Eliana na saúde e na doença. Helena sorriu. Ela amava o lado romântico e apaixonado do pai. Conhecia aquela história de cor e salteado, afinal, já escutara centenas de milhares de vezes nesses vinte e dois anos de vida. — Você precisa aparecer, Helena. Ouviu a voz de sua mãe ao fundo. — Mãe, eu apareço o tempo todo. — Não... A mãe respondeu um pouco mais fraco e longe do telefone. — Você aparece quando seu pai precisa que apareça. Helena riu. — Não é verdade. — É exatamente a verdade. Dona Eliana Alencar de Alcântara disse agora mais firme, De forma alta e clara, para que não restassem dúvidas à filha de que ela iria representar o pai esta noite. Helena suspirou e colocou os brincos diante do espelho e encarou o próprio reflexo. — Além disso, você tem vinte e dois anos. Não pode passar todas as noites lendo, assinando relatórios e dando ordens. Afirmou o pai. — Posso, sim. Bateu o pé Helena. — Não pode. Retrucou o pai. — Posso. O gênio difícil e mimado de Helena queria dar as caras. — Helena... chega. Dona Eliana falou firme, interrompendo a possível discussão que viria a seguir. Eliana sabia melhor que ninguém como a filha era parecida com o pai. Não na aparência, já que a filha era a cópia física de sua avó. Dona Maria, mãe de Eliana! Negra, alta, corpo violão, como diziam no interior onde cresceu Eliana. Olhar de predadora e um sorriso matador. — Mamãe. Fez-se um breve silêncio. Eliana suspirou. Helena cedeu. Ela sempre cedia para os pais. — Está bem. Helena suspirou. — Já estou pronta. O leilão beneficente acontecia em um dos hotéis mais tradicionais do Rio de Janeiro. Era uma noite destinada à arrecadação de fundos para um instituto que atendia crianças em situação de vulnerabilidade. Helena conhecia aquele tipo de evento desde pequena. Vestidos de alta-costura. Taças de champanhe. Homens de terno. Mulheres cobertas de joias. Conversas sobre arte, política, joias, transportes e diversos negócios. Ela já estava acostumada. Naquela noite, porém, algo diferente aconteceu. Arthur Lancaster a viu. Ele estava conversando com dois empresários quando seu olhar parou nela. Helena não fazia ideia. Estava distraída, observando uma pintura que seria leiloada. Não era a obra mais cara da noite. Nem a mais famosa. Mas havia alguma coisa naquela pintura que chamou sua atenção. Arthur observou enquanto ela inclinava levemente a cabeça, analisando a tela. — Quem é ela? — perguntou. Um dos homens ao lado dele olhou na direção indicada. — Não sei. Arthur continuou olhando. Ela usava um vestido preto simples, elegante, sem nenhuma joia exagerada. Parecia não querer chamar atenção. E talvez fosse justamente isso que o prendeu. Quando o leiloeiro anunciou a pintura, Helena levantou a placa. Arthur sorriu. Ela fez um lance. Outra pessoa cobriu. Ela aumentou. E, de novo, alguém cobriu. Até que o valor chegou a um número que fez algumas pessoas ao redor começarem a cochichar. Helena continuou. Arthur ficou curioso. Quando finalmente ela estava prestes a vencer, Arthur exagerou na oferta. Três vezes mais o valor do último lance dado por Helena. O salão explodiu em comentários. Alguns convidados se aproximaram para cumprimentá-lo. Ele agradeceu educadamente. E olhou na direção dela, que apenas o cumprimentou com um aceno de cabeça. Ela não parecia impressionada com o valor que ele acabara de pagar. Arthur resolveu descobrir quem ela era. Aproximou-se. — Boa noite. Ele disse, polido. — Gostou tanto assim da pintura? Helena virou, questionando-o. E, pela primeira vez, olhou diretamente para ele. Arthur percebeu duas coisas imediatamente. A primeira era que ela era ainda mais bonita de perto. A segunda era que ela não tinha a menor ideia de quem ele era. — Gostei. Respondeu ele. — O que você viu nela? Helena olhou novamente para a pintura e Arthur travou. Ele não esperava essa pergunta direta. — Me diga você, senhorita... — Helena. Ela disse, ainda olhando para o quadro. — Senhorita Helena, o que a encantou tanto nesse quadro? Helena suspirou. — Sabe o que eu vejo, Sr. Lancaster? Ela o pegou desprevenido. Helena sabia, sim, quem ele era e, pelo visto, não se importava com o peso de seu sobrenome. — Uma mulher tentando ocupar um espaço que não foi feito para ela. Arthur ficou em silêncio por um instante. — Interessante. — É só uma interpretação. Ela deu de ombros. — Uma boa interpretação. Ela sorriu. — Você sempre aborda desconhecidas dessa maneira? Arthur riu. — Só as que tentam gastar uma pequena fortuna em pinturas que ninguém mais parece entender. Helena ergueu uma sobrancelha. — Talvez o problema seja que ninguém mais entendeu. Arthur gostou da resposta. Continuaram conversando durante quase meia hora. Ele descobriu que ela trabalhava com logística. Que gostava de arte. Que tinha estudado administração, economia e logística internacional. Que odiava eventos em que as pessoas falavam de dinheiro como se fosse uma competição. E só depois ele perguntou: — Posso saber seu nome real? Ela estendeu a mão. — Helena Alencar de Alcântara. Arthur apertou sua mão e sorriu. — Da logística AA? Helena ergueu uma sobrancelha. — Sim. — Nossas famílias estão estudando uma parceria. Ele disse como se fosse um segredo, mas não obteve nenhuma surpresa da parte dela. — Eu sei. Ele achou curioso. — Sabe? — Estou a par de todos os negócios da minha família. Ele riu, mas estava admirado. Helena não era apenas uma mulher bonita. E foi naquele momento que decidiu que queria vê-la novamente.
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