O Dia Seguinte!
A mulher perfeita, será que ela existe?
A fotografia estava em todos os lugares.
Revistas.
Sites.
Redes sociais.
Não se falava em outra coisa.
O rosto de Arthur Lancaster sorrindo ao lado de Helena Alcântara estampava as principais manchetes do mercado de luxo.
"O novo casal que une dois dos maiores impérios brasileiros."
"Arthur Lancaster e Helena Alcântara oficializam relacionamento durante acordo histórico."
"A nova geração das famílias mais poderosas das pedras preciosas."
Bianca observava a tela do celular em silêncio.
Ela não precisava ler.
Não precisava ver.
A imagem estava gravada em sua mente desde a noite anterior.
O braço de Arthur envolvendo Helena.
O sorriso dele.
O olhar dele.
A felicidade dele.
Um sorriso que ela esperou receber por dez anos.
E que nunca recebeu.
Bianca suspirou fundo, sem coragem de se levantar e seguir a vida, a rotina, a agenda lotada.
— Senhorita Bianca?
A voz da empregada fez com que ela afastasse o celular do rosto.
— Sim?
— Sua mãe está esperando para tomar café com você.
Bianca respirou fundo antes de responder.
— Já estou indo.
Ela desligou o aparelho, depositando-o na mesa de canto de sua cabeceira, e caminhou até o espelho do enorme closet.
Durante anos, aquele reflexo era seu maior aliado.
A mulher perfeita.
Cabelos loiros impecáveis.
Pele perfeita.
Corpo que fazia grandes marcas disputarem sua imagem.
Ela era Bianca Berg Montmorency.
A garota que nasceu cercada por diamantes antes mesmo de entender o valor deles.
Mas naquela manhã, pela primeira vez em muitos anos, ela não se reconheceu completamente naquela mulher que olhava de volta para ela.
Porque uma coisa era perder um homem.
Outra coisa era descobrir que talvez nunca tivesse tido aquele homem de verdade.
Bianca e Arthur se conheciam desde sempre, seus avós eram amigos e os negócios aproximaram os seus pais.
Otto e Ricardo nunca foram amigos, mas eram parceiros de negócios e isso aproximou as famílias.
Aos quinze anos, Bianca se viu apaixonada por Arthur, que, com os seus dezoito, já embarcava para fora do país para cursar a faculdade.
No ano seguinte, ela conseguiu que os pais a enviassem para o mesmo lugar onde Arthur morava, para fazer um intercâmbio, e, aos dezesseis anos, após uma festa da fraternidade, Bianca conseguiu o que tanto queria.
Perder a virgindade com Arthur.
Ele não se lembrava muito daquela noite, mas depois daquela vieram várias outras das quais ele se lembrava bem.
Talvez pela pouca idade e falta de maturidade, Arthur nunca levou o lance dos dois mais a sério.
Na cabeça dele, era somente sexo casual.
Já para Bianca, a paixão virou amor que resistiu por anos e se mantinha vivo até a noite de ontem.
O café da manhã na mansão Montmorency parecia uma cena de revista.
Flores frescas.
Louças importadas.
Funcionários andando em silêncio.
Tudo perfeitamente organizado.
Assim como a família.
Otto Montmorency estava sentado na ponta da mesa, lendo os jornais enquanto tomava seu café.
Ele parecia exatamente como todos esperavam que ele fosse.
Um homem poderoso.
Frio.
Exigente e distante daqueles que não estavam no mesmo nível que ele.
E poucos homens estavam nesse nível.
Exigente.
E letal quando necessário.
Mas elegante? Sempre.
Com Bianca, ele era diferente.
— Minha preciosa.
Ele sorriu ao vê-la entrar.
Durante toda a vida, Bianca foi sua menina.
Sua joia mais rara. Ele via nela, desde a adolescência, grande potencial para um excelente casamento no futuro.
Ela se aproximou e recebeu um beijo na testa.
— Dormiu bem?
Ela segurou o sorriso.
— Sim, papai.
Era mentira.
Ela quase não dormiu.
— Vi as notícias.
Otto comentou, dobrando o jornal, e o silêncio mudou imediatamente.
Bianca percebeu.
— Arthur e Helena?
Ele perguntou, sarcástico.
— Você imaginava algo tão...
Ele não precisou terminar a frase. A imagem dos dois soava estranha na cabeça de Bianca.
— Jamais pensei.
Ela respondeu seca.
— Não ornam.
Como se pertencessem a outras pessoas.
— Ela parece uma boa moça.
Disse sua mãe, apaziguadora como sempre.
Bianca pegou sua xícara de café.
— Parece.
Viviana Berg Montmorency observou a filha por alguns segundos em silêncio, encarou a filha atentamente.
Ela conhecia Bianca melhor que qualquer pessoa.
— Você está bem?
A pergunta simples quase destruiu toda a postura que Bianca havia construído.
O sorriso vacilou.
Mas ela era uma Montmorency.
E Montmorency nunca demonstravam fraqueza, então ela respirou fundo e sorriu.
O mesmo sorriso das capas de revista.
O mesmo sorriso que enganava o mundo inteiro.
Aquele sorriso que ela deu ontem ao conhecer e cumprimentar Helena Alcântara.
— Claro que estou.
Otto assentiu satisfeito.
Para ele, sua filha sempre foi forte.
Aos olhos de Otto Montmorency, Bianca era perfeita.
Ele não percebeu que algumas feridas não aparecem no rosto.
O olhar de Helena.
Aquela mulher havia sorrido, apertado sua mão e demonstrado uma educação ímpar.
Não perfeita, não ao seu nível, Bianca pensou.
Mas Helena não era comum.
Bianca conhecia pessoas e aquele sorriso não era de alguém que se dobraria fácil.
Mesmo Helena sendo como era, n***a e emergente, talvez.
Bianca travava uma guerra interna para terminar aquele café em família.
Ela queria correr, pegar o celular e stalkear a vida de Helena inteira.
Descobrir seus pontos fracos e aniquilar sua existência da face da terra.
— Você percebeu?
Otto perguntou com a xícara parada no ar.
Bianca virou o rosto.
— O quê?
— Bianca, não seja tola e ingênua como sua mãe.
Ele ralhou e um pequeno silêncio surgiu.
Viviana suspirou, mas não disse nada.
Permaneceu partindo um pedaço de melão e levando lentamente à boca, sem levantar o olhar.
— Ricardo não ficou de todo feliz, só... disfarçou bem.
Bianca abaixou o olhar.
Pela primeira vez desde que Arthur surgiu naquela festa, ela pareceu confortável novamente.
— Então ele agiu melhor que o senhor, papai...
Bianca sorriu antes de bebericar seu suco verde detox.
— O senhor faltou pouco rosnar quando cumprimentou a moça.
Bianca se recusava a pronunciar o nome de Helena em voz alta.
— Talvez eu devesse mesmo, aquilo foi um disparate sem tamanho da parte do Arthur.
Bianca o encarou.
— Aonde já se viu, apresentar uma negrinha para a sociedade?
Otto bufou e jogou o jornal sobre a mesa.
— Aquele moleque passou de todos os limites, seu irmão jamais faria uma loucura dessas.
Aquele assunto havia tirado a paz de Otto.
— Que loucura, papai, se envolver com uma mulher n***a?
Otto se levantou da mesa, ajustando o terno caro.
— Se envolver com essa gente nunca foi o problema, minha filha.
Ele se abaixou e beijou a testa da filha.
— Tornar isso público, sim... É um problema e dos grandes.
O homem passou pela esposa e fez um carinho em seus ombros, antes de sair.
Viviana já estava acostumada, eram mais de trinta anos de casamento, e há pelo menos dez anos ela sabia da amante negrinha que o marido mantinha fora de casa.
A sala ficou em silêncio.
Porque aquela era uma verdade que as duas não queriam encarar.
O pai era racista, machista e misógino, mas ainda era o dono daquela família e, em lugar nenhum daquele país, ele seria contrariado.
Muito menos dentro da sua própria casa.
Ao ver o sofrimento e a submissão da mãe, Bianca Montmorency tomou uma decisão.
Ela não iria implorar amor.
Não iria chorar por alguém que escolheu outra pessoa.
Mas se Helena Alcântara queria entrar no mundo dela...
Então ela conheceria as regras daquele mundo.
Porque Bianca não tinha perdido apenas um homem, ela tinha perdido uma história que acreditava ser dela.
E agora...
Ela faria quem a roubou pagar o preço.
Helena saberia quem era Bianca Berg Montmorency.
Mesmo que ela não fosse a mulher que ganhava todas no final.