Pedro Carpinetti
Estou encantado.
Certo, talvez encantado não seja a melhor definição do quão impressionado estou com a figura diante de mim. A mulher linda, deliciosa e flexível diante de mim.
Observei boa parte dos movimentos dela, da entrega e da paixão que envolveu o seu corpo, enquanto dançava; continuei a assistir os movimentos mesmo depois que a sala esvaziou e apenas ela ficou, girando, saltando e se movendo como uma pluma.
Em algum momento ela parou, se jogando no chão, e eu não fui capaz de me mover, porque a imagem diante de mim era de total vulnerabilidade.
Uma princesa presa numa torre alta demais para saltar, mesmo que ela seja capaz de voar enquanto dança.
Não sei quanto tempo encarei as pernas grossas e a respiração forte, que subia e descia contra o maiô que ela está. Vejo o momento que ela senta e é possível sentir a determinação ao redor dela, quando ela volta a se mover.
É o pé para cima, expondo a profundidade da virilhä dela que me faz dar um passo na sua direção.
O magnetismo que sinto quase me faz tremer, mesmo que por fora eu passe a imagem implacável que criei com tanto cuidado.
Mulher nenhuma, nunca, me atraiu dessa forma. Eu quase me sinto um adolescente, completamente fascinado pelos movimentos das pernas dela.
Quando os nossos olhos se encontram no espelho, ela parece mais ofegante, mais vermelha, mais deliciosa.
Linda pra caralhö.
- Olá. - É tudo o que eu consigo falar, porque vejo quando a expressão dela se transforma completamente. Saindo da natural para a atrevida.
A mais linda de todas as que eu já vi até agora.
- Como me achou? - A afronta dela faz as minhas bolas pesarem e eu adoro esse jogo.
- Tenho os meus contatos, Senhorita Mantovani. - Declaro e vejo a expressão dela endurecer. - Ou devo te chamar de futura Senhora Galvão? - Provoco, apenas porque o fogo nos olhos dela é intenso demais para ser apagado.
- Me chame de Gio. - Ela rebate, mas ainda parece pronta para me atacar.
É impossível não sorrir.
- Prefiro cunhadinha. - Me aproximo e ela aperta os dentes, mostrando o incômodo nítido que percebi desde o início com esse título, quando o Fábio revelou que ela pertencia a ele. - Se bem que você não parece muito feliz com isso, certo?
Ela respira fundo, vira de costas para mim e se abaixa.
A desgraçada empina a bundä linda e quase nua na minha direção.
Pega uma garrafa de água, que eu não tinha notado até agora, e bebe um longo gole enquanto eu ainda me recupero da visão que acabei de ter. Tenho dificuldades de entender se foi a porta do paraíso ou do inferno.
- O que posso ser útil, Senhor Carpinetti? - Ela pergunta, com a voz modulada numa calma que eu não vejo nos olhos dela.
- Te conhecer melhor… - Me aproximo mais um pouco e espero ela recuar, mas não. Ela me surpreende mais uma vez, enquanto sustenta o meu olhar, com o queixo empinado em desafio. - Entender as suas intenções com o meu irmãozinho.
Acho que ela sente o desprezo que envolve a palavra, porque ela abre um sorriso frio na minha direção, que me diz tudo o que eu preciso saber.
Ela sabe que eu o odeio.
E compartilha do sentimento.
- Você não pareceu muito preocupado com o seu irmãozinho. - Ela se aproxima agora, pouca coisa, apenas o suficiente para manter a postura de poder. - Pareceu, na verdade, incomodado com a interrupção. - Estalo a língua e coloco as mãos no bolso. Um hábito antigo que tenho quando preciso parecer relaxado enquanto reflito sobre uma boa resposta.
- Fiquei incomodado, sim, mas o motivo é totalmente diferente do que imagina, Giulia. - Ela levanta a sobrancelha, enquanto analisa as minhas expressões e por um segundo imagino que ela sinta a mesma tensão que eu sinto. A necessidade de me aproximar mais, explorar como essa boca atrevida pode me desarmar.
- Bem, eu não vou ficar entre vocês. O irmão é seu. - Ela responde e eu ignoro o pensamento anterior, porque não é esse o objetivo.
Pelo menos, ainda não.
- E o futuro amarrado ao dele, é o seu. - Falo com calma, mas firme e o resultado é exatamente o que eu esperava. Ela arregala os olhos, por um segundo, antes de respirar fundo e desviar o olhar do meu, encarando os próprios pés.
A mudança de postura da mulher na minha frente me surpreende a cada instante. Ela foi de altiva, lutadora e provocativa a aceitação e derrota completa. Sinto uma raiva arder no meu estômago, porque gosto mais quando ela me afronta.
- Existem futuros que já estavam destinados, antes de nascermos. - Ela aperta a garrafa nas mãos e levanta os olhos, agora, cheios de um brilho triste. - Por que está aqui?
A pergunta é simples, mas a resposta não.
Vim até aqui para confirmar que ela estava alheia a toda a falcatrua das nossas famílias, que estava condenada a viver para sempre ao lado de um homem de merdä, mesmo que não fosse a sua vontade, e claro, para propor uma aliança entre nós.
Mas, até agora, eu apenas admirei e enlouqueci pela imagem dela.
Foco Pedro!
- Tenho uma proposta para você. - Falo de forma direta. - Sei que o seu noivado é um acordo entre nossos pais, e desconfio fortemente que você não quer isso. - Ela se mantém estática, absorvendo as minhas palavras, sem mudar a expressão. - Farei uma proposta para o seu pai, porque quero frustrar os planos do meu, de monopolizar as frotas de exportação. - Ela aperta os olhos, acompanhando a minha explicação. - Por isso, preciso de acesso ao contrato deles. Preciso entender se está em andamento, quanto que foi combinado e principalmente, se o casamento é um fator determinante para o negócio.
Costumo ser direto nas minhas negociações. Não perco tempo buscando o convencimento de ninguém. Explico os termos, falo o preço e concluo.
- Ainda não entendi o que veio fazer aqui, Senhor Carpinetti.
- Preciso da sua ajuda. - Ela pisca. - O contrato ainda não é público, porque não foi finalizado, como deve saber.
- E precisa que eu te arrume esse contrato?
- Basicamente isso. - Ela cruza os braços e a expressão altiva está ali de novo.
- E se ele já tiver sido assinado? - Ela pergunta, com um brilho de curiosidade nos olhos.
- É possível anular, uma das partes pode declinar da negociação… Mas, os nossos pais não são burros. O casamento vinculado ao contrato tem algum propósito, por isso, eu desconfio que ele passará a valer quando o casamento for consumado. - Ela enruga lindamente o nariz, demonstrando nojo do termo e eu abro um sorriso largo. - Normalmente ela entra em vigor depois de 30 dias do casamento, período legal para uma anulação.
- E o que eu ganho, te ajudando? - Ela lambe os lábios e quase consigo ver esperança nos olhos dela.
- Bem… Não vai precisar casar com o Fábio. - Explico o óbvio e espero ela assimilar a informação.
Estou completamente concentrado nas mudanças de emoções que passam pelos olhos dela, analisando os prós e os contras e espero. Sei que esse momento será fatal se eu pressionar.
Novamente, ela levanta a sobrancelha, como se tivesse tido um pensamento genial.
- Certo. - Ela responde e seguro o ar, fervendo de ansiedade. - Tenho apenas uma dúvida. - Assinto. - Os motivos para você querer atrapalhar um negócio dessa proporção é muito claro e até mesmo o seu plano para isso. - Ela apoia o dedo no rosto, com uma expressão pensativa. - Porém, eu tenho certeza que existiam outras 10 formas de você colocar as mãos neste contrato, até mesmo, ir direto até o meu pai, que teria adorado arrancar um volume maior de dinheiro de alguém… - A minha ansiedade potencializa. - Então, me diga, Senhor Carpinetti, qual é a real necessidade de vir até mim?