Pedro Carpinetti
- Você não vai se arrepender. - Respondo, e percebo que a minha voz saiu mais rouca do que eu planejava. - Tem a minha palavra.
A mão dela é pequena, quente e encaixa perfeitamente na minha.
Imediatamente imagino o que mais nesse corpo assombrosamente delicioso se encaixaria perfeitamente em mim.
No momento em que os nossos dedos se fecharam, eu senti uma descarga elétrica que quase me fez perder a fala. Eu vim aqui para fechar um negócio, para garantir uma peça no meu tabuleiro, mas a sensação da pele da Giulia contra a minha é muito mais do que estratégia.
É perigo puro.
Eu sorrio, mas por dentro estou tentando controlar o meu próprio corpo. A proximidade é perigosa. O cheiro de morango dela está me deixando louco, e o jeito que o maiô marca cada curva do corpo de bailarina dela me faz querer esquecer qualquer plano.
- O que preciso fazer agora? - Ela pergunta e me obrigo a soltar a mão macia. Me obrigo a focar nos próximos passos do plano, mesmo que a minha atenção esteja toda nela.
- Preciso dos documentos, sejam eles digitais ou físicos, o que você conseguir. E sim, você tem razão, poderia ter ido ao seu pai direto, mas preciso de você de qualquer forma, porque não quero ir em desvantagem.
- E saber o que foi previamente combinado com o seu pai, te dará vantagem, assim a sua proposta será irrecusável. - Estou fascinado com a inteligência dela. A forma com que se adapta a cada situação, como molda o comportamento conforme o que imagina que eu quero ver. Ela é um trunfo que não posso perder!
- Exatamente. - Estendo o meu cartão para ela. - Assim que conseguir, me mande mensagem, não importa a hora, eu vou até você.
- Não acho isso seguro, imagino que até você se reunir com o meu pai, o seu não pode desconfiar. - Ela segura o cartão. - Eu vou até você. - Ela decide.
- Viu, como eu disse, muito mais esperta do que faz parecer. - O rubor que corre pelo rosto dela me cativa violentamente, porque esse elogio foi apenas porque eu quis, porque eu posso.
- Não faça isso! - Ela pede, agora caminhando até o fundo do estúdio e vestindo um casaco por cima da roupa.
- Não fazer o quê? - Pergunto, percebendo que ela está vestindo mais roupas, agora um shorts, por cima do maiô.
- Isso. - Ela acusa e eu fico definitivamente confuso. - Flertar comigo. - A vermelhidão da pele dela parece de raiva agora e sinto o meu sorriso aumentar. - O nosso acordo se resume às empresas, a sua vingança e a minha liberdade. - Pisco, surpreso e a cada segundo mais admirado.
Ela citou vingança?
Reviso a conversa, não falei sobre vingança, falei apenas sobre ter mais vantagem no nosso ramo e sobre atrapalhar os planos do meu pai.
- É óbvio que você quer se vingar. - Ela afirma, com convicção e caralhö, sinto uma vontade quase incontrolável de beijar ela, quando ela conclui. - Eu me vingaria também se o meu pai fizesse o que o seu fez.
- Pesquisou sobre mim? - Ela revira os olhos, acho que para o meu tom cheio de charme.
- Sou noiva do seu irmão, lembra? - Ela respira. - Meio-irmão. - Ela corrige, antes que eu a corrija.
Percebo que ela não respondeu a minha pergunta.
- Confesso que estou admirado por você ficar ao meu lado nessa história, mas desconfio que não sabe das coisas que eu fiz… - Ela coloca a bolsa no ombro e caminha até mim, as sapatilhas firmes, um pé na frente do outro.
- Você era uma criança quando a sua mãe adoeceu e seu pai casou de novo, um adolescente quando ele casou pela terceira vez… - Ela lista. - Não acredito que você tenha tido muita escolha, seja lá o que tenha feito.
Essa parte da minha história é uma zona cinza, com várias nuances de trevas, em que eu prefiro não pensar.
- … Depois você foi deserdado do seu próprio legado, porque ousou ser mais esperto que o seu pai. - Ela conclui e sinto uma sensação estranha, algo que só tem acontecido perto dela. Uma vontade intensa de gargalhar alto. Experimento a sensação, soltando uma risada forte.
- Gostaria que você fosse a responsável pelas minhas relações-públicas, a sua ótica sobre tudo o que me envolve é bastante interessante. - Ela dá de ombros.
- Só quero delimitar a nossa relação, é melhor assim. - Ela retorna ao início do discurso. - Nada de flertes, nada de voz rouca ou olhos brilhando. - Aperto a boca, porque quero rir genuinamente. - Somos sócios, temos um inimigo e interesses em comum, nada mais.
- Sei o que está fazendo. - Acuso. - Tem medo de se envolver demais comigo. - Ela solta uma risada alta, antes de falar.
- Estou determinando, Senhor Carpinetti, que não quero me envolver mais do que o necessário com a família Galvão Carpinetti, e isso te inclui. Agora, que não serei obrigada a casar com o Fábio, prefiro buscar diversão em outros lugares. - Estou impressionado. - Na verdade, quanto mais distante do mundo podre que vivemos, melhor. - A determinação dela é admirável.
Eu dou um passo para trás, me afastando da zona de perigo. Preciso sair daqui antes que eu a encoste na parede desse estúdio e mude as regras do nosso acordo, quebrando os limites que ela está impondo agora mesmo.
- Aceito os seus termos e entendo os seus motivos. Prefiro não misturar as coisas também. - Falo, honestamente e torço por um segundo para ver decepção nos olhos dela. - Agora, vá para casa, descanse. - Ela assente, mas a determinação se mantém firme.
- Te mando notícias. - Ela balança o cartão, antes de caminhar em direção à porta.
- Nos vemos em breve, espero. - Ela sai pela porta sem olhar para trás e ainda sinto a tensão da presença dela no ar ao meu redor.
Ela é cheia de energia e luz, completamente o oposto do que eu sou. Almeja pela liberdade, pelos sabores da vida e estava aprisionada na responsabilidade do legado da família.
Estou orgulhoso de dar uma saída para ela. Um passarinho tão lindo não merece uma prisão, principalmente uma prisão dos Galvão.
Saio do estúdio sentindo o sangue pulsar nas minhas veias. Eu consegui o que queria. Tenho a herdeira, tenho o plano e tenho o caminho livre para destruir o meu pai.
Mas, enquanto caminho para o carro, a única coisa que sinto é o calor da mão dela gravado na minha, o cheiro de morango impregnado no meu nariz.
Eu disse que não queria nada além de vantagens nos negócios. Aceitei os termos dela, de manter tudo profissional…
Eu menti. E o pior é que eu acho que ela sabe disso.