O corredor estava vazio, exceto pelo som abafado de passos e vozes distantes vindo de outras salas. Elle caminhava com os livros apertados contra o peito, os fones no ouvido e a mente completamente longe.
Ela virou a esquina sem olhar.
E colidiu com um corpo quente e firme.
Os livros caíram. Os fones também. E quando ela levantou os olhos, prendeu a respiração.
Théo.
Os olhos dele a encontraram no mesmo instante. Intensos. Escuros. Com a profundidade de uma pergunta que ninguém ousava fazer.
— Desculpa — ele murmurou, mas não se afastou. A mão dele ainda segurava o braço dela. Forte. Quente. Presente.
Elle tentou recuar, mas os músculos não obedeciam. O toque dele queimava. A presença dele paralisava.
— Você vive caindo em mim. — ele provocou, com um meio sorriso que não chegava aos olhos.
— Talvez você viva se colocando no meu caminho. — ela rebateu, engolindo em seco.
O silêncio entre os dois foi mais alto que qualquer barulho. Um silêncio cheio de tudo o que não podiam dizer — mas sentiam. O ar parecia mais denso, mais pesado. Como se a tensão entre eles tivesse forma, cheiro e temperatura.
Théo deu um passo a mais.
Elle não recuou.
Os olhos dela estavam nos lábios dele. Os dele, no movimento da garganta dela engolindo nervosa.
— Você sente isso, não sente? — ele perguntou, a voz baixa e rouca. — Esse... incêndio entre a gente.
Elle fechou os olhos por um segundo, tentando achar controle. Mas quando abriu, respondeu:
— E se sentir for perigoso?
Théo inclinou o rosto, o nariz quase tocando o dela.
— Então a gente queima junto.
E antes que o momento se quebrasse, ele abaixou, pegou os livros e entregou um por um em suas mãos. Sem tocar. Sem pressa. Como se cada gesto dissesse mais que palavras.
Quando ela virou para ir embora, ainda sentia os olhos dele em suas costas.
E quando ele ficou sozinho no corredor, soltou o ar devagar.
O toque foi acidental. Mas o desejo? O desejo era planejado.
E estava cada vez mais impossível de segurar.
Elle saiu do corredor tentando recuperar o ar. Caminhou rápido, mas não o suficiente para escapar do que acabara de acontecer. O toque, o olhar, as palavras. Tudo nela pulsava. Cada parte do seu corpo parecia em chamas — e nenhuma gota de água seria capaz de apagar aquilo.
Ela se trancou no banheiro do alojamento e encarou o próprio reflexo. Os olhos estavam mais escuros. Os lábios, entreabertos. A pele corada.
— Respira — ela sussurrou para si mesma.
Mas era difícil. Porque havia algo em Théo que derrubava todas as defesas que ela construiu ao longo dos anos. E o pior: ela estava começando a querer que ele derrubasse mesmo.
No lado oposto do campus, Théo ainda estava no mesmo lugar.
Caíque apareceu rindo, com um saco de salgadinhos na mão.
— Vai ficar aí parado feito um maníaco ou finalmente vai admitir que tá ferrado?
Théo não respondeu de imediato. Continuava encarando o lugar por onde Elle tinha desaparecido, como se pudesse trazê-la de volta com o pensamento.
— Eu toquei nela, Caíque. Não foi nada demais. Mas… foi.
— Cara, isso tá ficando sério. E você nem percebe.
Théo bufou, passando a mão pelos cabelos.
— Ela me tira do eixo. Não sei se quero dominá-la... ou me entregar de vez.
Caíque deu um tapinha no ombro dele.
— Bem-vindo ao jogo, meu amigo. Só cuidado. Essa garota não é feita de peças fáceis. É xadrez emocional, e você tá jogando sem manual.
Théo sorriu de lado.
— Talvez seja isso que me atrai. Eu sempre ganhei. Agora… quero merecer.
Mais tarde, já no quarto, Elle se deitou de lado. Lina, do beliche de cima, percebeu o silêncio da amiga.
— Tá tudo bem?
— Não sei. — Elle respondeu com sinceridade. — Sinto como se algo estivesse prestes a acontecer… E me dá medo. Mas também… desejo.
— Tem nome esse “algo”?
Elle fechou os olhos.
— Théo. O nome é Théo.
Na manhã seguinte, Elle saiu mais cedo para evitar o inevitável. Mas o universo parecia conspirar para colocá-los frente a frente. Ao virar o corredor do prédio de Letras, lá estava ele.
Théo não disse nada. Só caminhou ao lado dela como se fosse normal, como se tivessem feito isso mil vezes.
— Não vai fugir hoje? — ele perguntou, com um sorrisinho torto.
— Não fugi ontem. — ela respondeu sem olhar.
— Então é um progresso. — Ele a encarou de lado. — Você está linda assim, séria e perigosa.
Elle rolou os olhos, mas não conseguiu esconder o leve rubor nas bochechas.
— Por que você insiste?
Théo parou, fazendo com que ela também parasse. Os dois ficaram no meio do corredor vazio, com a luz suave da manhã os cercando como se o tempo tivesse desacelerado.
— Porque você mexe comigo. Porque o jeito que você me olha... me desmonta e me desafia ao mesmo tempo.
Elle sentiu o chão sumir por um segundo. Era real. Estava acontecendo. Aquilo não era só atração física. Era mais. E isso a apavorava.
— E se eu disser que não posso? Que não estou pronta?
— Então eu espero. Mas não vou parar de tentar.
Ela respirou fundo, tentando conter a avalanche que se formava dentro de si.
— Eu não sou como as outras, Théo. Não sou leve. Não sou simples. Sou cheia de fendas.
— Então me deixa explorar cada uma. — ele sussurrou, se aproximando, como se cada palavra fosse uma confissão íntima. — Me deixa descobrir onde dói... e onde pode curar.
Elle engoliu seco. A voz dele era um toque. O olhar, um mergulho.
Eles ficaram tão próximos que bastava um suspiro para que os lábios se encontrassem de novo.
Mas ela deu um passo atrás.
— Isso é loucura. — disse, quase sem voz.
— É. — ele concordou. — Mas você sente também. E vai chegar uma hora em que não vai mais conseguir negar.
Elle o encarou por mais um segundo — e depois virou as costas.
Mas não porque não queria.
Era porque, se ficasse mais um segundo... ela se entregaria.
Elle caminhou até o alojamento como se estivesse fugindo de algo que já vivia dentro dela. Cada passo era pesado, como se deixasse para trás um pedaço de controle. E controle era tudo o que ela achava que ainda tinha.
Mas naquela noite, o universo parecia decidido a desafiá-la outra vez.
Quando saiu do banho, com os cabelos ainda úmidos e um moletom velho cobrindo o corpo, encontrou uma mensagem em seu celular:
"Estou na quadra de novo. Não sei por que estou te dizendo isso. Talvez porque você seja o único lugar onde minha mente não consegue mentir. — Théo"
Elle encarou a tela por longos segundos. Podia ignorar. Fingir que não viu. Apagar. Mas as palavras dele... pareciam escritas direto nas partes que ela passou anos tentando proteger.
Minutos depois, os pés dela estavam caminhando sozinhos.
A quadra estava silenciosa. As luzes apagadas. Mas ele estava lá, sentado no meio do piso, como se fosse o dono da noite. Quando a viu, se levantou devagar.
— Achei que não viria. — ele disse.
— Eu também achei.
Silêncio.
Ela ficou a alguns passos de distância, braços cruzados, como se aquilo a protegesse do que ele despertava.
— Por que você está aqui, Théo?
— Porque você me tira de mim mesmo. E isso deveria ser assustador... mas é libertador.
Elle sentiu a garganta apertar. Ele era bom com palavras, mas havia verdade no olhar dele. Uma verdade que a desarmava.
— Você não me conhece. — ela disse mais uma vez, quase num sussurro.
— Então me deixa conhecer. Nem que seja no escuro. Nem que seja aos poucos.
Ele se aproximou. Devagar. Medindo cada movimento. E quando estendeu a mão, foi diferente. Não foi exigente. Não foi invasiva. Foi um convite.
E Elle... aceitou.
Ela colocou sua mão na dele. Quente. Forte. Humana.
E naquele toque simples, houve mais i********e do que em qualquer beijo.
— Você me assusta. — ela confessou, baixinho.
— E você me desafia. — ele respondeu, com um sorriso torto.
Ficaram assim, em silêncio, de mãos dadas, no meio da quadra vazia. Duas almas feridas tentando se encontrar no escuro.
E quando Théo levou a mão dela aos lábios e depositou um beijo suave ali, Elle soube:
Eles estavam caindo. E a queda seria linda — e perigosa.