Théo nunca foi do tipo que se interessava de verdade. Olhava, pegava, largava. Era fácil. Era previsível. Até Elle.
Ela não se encaixava em nenhum dos perfis que ele estava acostumado a dominar. Não se derretia com seus olhares. Não sorria para suas piadas. E, principalmente, não fazia questão de se aproximar. E era exatamente por isso que ele não conseguia tirá-la da cabeça.
Na manhã seguinte ao beijo na quadra, Théo acordou com o gosto dela ainda nos lábios. Havia algo naquela garota que o fazia sentir como se estivesse sempre no limite — e ele gostava disso. Queria entender o que ela escondia por trás dos olhos de tempestade.
Caíque entrou em seu quarto, jogando uma pasta sobre a mesa.
— Sabe que isso parece obsessão, né?
— Informação é poder. — Théo respondeu, folheando os papéis.
— E o que exatamente você quer descobrir?
— Por que ela parece ter construído uma muralha em volta de si. Ninguém é tão fechado assim à toa.
O que Théo encontrou o surpreendeu mais do que imaginava: Elle Vasquez, órfã desde os 12 anos. Criada em lares adotivos. Nenhuma presença familiar. Nenhuma festa registrada. Nenhuma foto em rede social com amigos. Apenas notas perfeitas e uma bolsa de estudos integral.
Era como se ela vivesse entre linhas. Como se sua existência fosse feita de sombras e silêncio.
— Ela não tem ninguém. — ele murmurou.
Caíque o observava em silêncio. Sabia que aquele olhar em Théo significava mais do que simples curiosidade.
— Isso muda alguma coisa?
— Muda tudo. — Théo disse, e pela primeira vez, a aposta pareceu pequena diante do que sentia.
Naquela tarde, ele a encontrou sentada no jardim, lendo um livro. Não falou nada. Apenas se sentou ao lado, deixando o silêncio fazer o trabalho.
Elle lançou um olhar de canto de olho, desconfiada.
— Vai começar a me seguir agora?
— Talvez. — ele sorriu. — Gosto de tempestades imprevisíveis.
— E eu gosto de paz.
— Quem sabe a gente se encontra no meio do caminho?
Ela fechou o livro com calma, virou-se para ele e disse:
— Se está esperando que eu me abra, vai esperar sentado. Eu sou feita de portas trancadas.
Ele a encarou com suavidade.
— E eu sou bom com chaves.
Elle sentiu o chão tremer. E não tinha nada a ver com o vento que soprava.
Porque Théo não queria só vencê-la. Queria decifrá-la. E isso, para ela, era muito mais perigoso.
Na biblioteca, Elle tentava se concentrar nos estudos, mas o silêncio do lugar não ajudava. Era quase sufocante. E Théo, duas mesas à frente, não tirava os olhos dela. Ela fingia que não percebia, mas cada centímetro do seu corpo estava ciente.
Ele fazia anotações, rabiscava um caderno — mas era tudo encenação. Ele estava ali por ela.
Quando Elle se levantou para devolver um livro, Théo fez o mesmo. Os dois se encontraram no corredor das estantes, como se o acaso tivesse planejado a cena.
— O que você quer de mim, Théo? — ela perguntou, direta.
Ele se aproximou devagar, os olhos fixos nos dela.
— Você. Mas não do jeito que pensa.
— Então de que jeito?
— Do jeito que ninguém mais teve. Do jeito que você não deixa ninguém chegar.
Elle engoliu em seco. Aquilo era demais. Era íntimo demais. E assustador.
— Você não me conhece.
— Ainda não. Mas estou disposto a aprender cada pedaço seu, se você deixar.
Ela deu um passo para trás, mas ele não a seguiu. Ficou parado, respeitando o espaço, mas com os olhos dizendo tudo.
— E se eu não quiser ser decifrada?
— Então continuo tentando, até você dizer que vale a pena parar.
Elle saiu dali com o coração acelerado. A biblioteca nunca pareceu tão quente. Tão apertada. Tão cheia de promessas silenciosas.
E Théo? Ele apenas sorriu. Porque, naquele dia, percebeu que Elle não era uma aposta. Era uma missão.
E ele estava mais do que disposto a se perder nela.
Naquela noite, Elle pensou em tudo o que acontecera. As palavras de Théo, o jeito como ele a fazia se sentir exposta, mas ao mesmo tempo... viva. O beijo na quadra ainda estava quente em seus lábios, mas o que mais a perturbava era a verdade que ela não queria aceitar: ele tinha algo que a fazia querer mais.
E ela odiava isso. Odiava querer.
Ela estava deitada na cama, tentando se distrair com um livro, mas as palavras pareciam se misturar e desaparecer. Era impossível focar. Théo estava sempre ali, como uma sombra, pronta para se aproximar mais uma vez.
Quando o celular dela vibrou, foi como um chamado. Ela hesitou por um momento antes de olhar.
Uma mensagem. Théo.
"Me encontra no refeitório amanhã. 18h. Não vou te esperar. Não se atreva a faltar."
Elle sentiu um nó na garganta. Ele estava deixando claro que não ia mais ser fácil. Ele queria mais. E, pior ainda, ele sabia que ela também queria.
Ela passou a noite em claro, lutando contra um impulso que sabia que não deveria seguir. Mas quando as 18h chegaram, algo a impulsionou a se arrumar. Algo dizia que ela precisava dessa tempestade, mesmo sabendo que seria a maior dor.
No refeitório, Théo estava lá, como prometido. Ele a observou entrar com aqueles olhos predadores, e a tensão no ar se tornou palpável.
— Não vai me fazer esperar de novo, vai? — Théo provocou, seu tom calmo, mas carregado de desejo.
Elle respirou fundo e se aproximou dele.
— O que você quer de mim, Théo?
— Quero você. Mas, por enquanto, vou me contentar com sua atenção.
E, pela primeira vez, ela entendeu o quanto ele estava jogando com ela. E, pior, quanto ela estava se deixando envolver.
— Então vamos jogar. — ela disse, desafiadora.
A tensão foi quebrada por um sorriso de Théo, mas um sorriso diferente. Ele sabia que ela estava tão envolvida quanto ele. E ele queria mais.
E ela não sabia se conseguiria resistir.
Elle nunca gostou de jogos. E menos ainda de apostas. Sabia, por experiência própria, que sempre era ela quem acabava perdendo. Mas com Théo, cada passo parecia uma dança perigosa — e viciante.
No dia seguinte, ela tentou evitá-lo. Mudou os horários das aulas práticas, saiu mais cedo do alojamento, almoçou em horários alternativos. Mas Théo... ele era feito de obstinação. E ela já devia ter aprendido: não se foge do que está dentro da própria pele.
No final da tarde, ao sair do prédio de psicologia, Elle deu de cara com ele.
Encostado no capô de um carro preto, braços cruzados, sorriso de canto. Estava ali como se tivesse certeza de que ela passaria.
— Stalker agora? — ela disse, parando a alguns metros de distância.
— Não. Estratégico. — Théo rebateu, vindo em sua direção. — Eu disse que queria você. E eu sou bom com o que quero.
— E se eu disser que não quero ser desejada?
— Vai mentir?.
Elle travou. Ele não disse com arrogância, mas com uma calma confiante que a desmontava por dentro.
— Você leu minha ficha. — ela acusou. — Me investigou. Sabe tudo sobre mim, não é?
— Sei que você é mais forte do que todo mundo aqui. Sei que sobreviveu ao que muitos não suportariam. E sei que você sente medo de se apegar a qualquer coisa que pareça real.
Ela desviou o olhar. Doeu mais do que deveria. Mas o que mais a assustava era que ele estava certo.
— Você não pode usar meu passado contra mim.
— Eu não quero usar nada contra você. Eu quero ser algo a favor. — ele deu um passo mais próximo. — Me deixa ser.
Elle estava tão cansada de fugir. Mas também sabia que abrir a porta certa podia deixar entrar o caos.
Ela levantou os olhos, firmes, e perguntou:
— E se eu deixar? O que acontece depois?
Théo sorriu devagar. Um sorriso que não era de conquista. Era de promessa.
— Acontece que a gente para de jogar... e começa a sentir.
E naquele instante, Elle percebeu: talvez o perigo não fosse se apaixonar. O perigo real... fosse ele não estar blefando.