A luz fraca do entardecer atravessava as cortinas do quarto 206 quando Elle terminou de organizar suas coisas. As paredes nuas pareciam um convite ao recomeço, mas ela sabia que novos começos também podiam significar novas dores.
Sentada na cama de baixo do beliche, Lina apareceu com um pote de pipoca e uma expressão animada.
— Ok, nova colega de quarto, hora da verdade: você tem segredos obscuros, traumas irreparáveis ou é só antissocial mesmo?
Elle riu pela primeira vez desde que chegou. Um riso curto, mas sincero.
— Pode ser as três coisas. Depende do dia.
— Maravilhosa! — Lina comemorou. — Amei. Vai se enturmar rapidinho.
— Eu não vim pra isso. — Elle respondeu, sem raiva, só verdade.
— Todo mundo diz isso no início. Depois você se pega rindo alto no refeitório com uma bandeja na mão e um crush nos olhos.
Elle desviou o olhar. Crush não estava nos planos. Laços, muito menos. Mas Lina era insistente, falante, e estranhamente acolhedora. Havia algo de leve nela que Elle não conseguia repelir.
Mais tarde, elas foram convidadas para uma recepção informal dos calouros. Elle hesitou. Lina praticamente a arrastou.
O salão estava cheio de gente bonita, música ambiente e olhares cruzando o espaço como flechas. Foi lá que Elle conheceu Caíque — o melhor amigo de Théo. Moreno, tatuado, sorriso fácil, e um charme despretensioso que fazia qualquer um relaxar.
— Você é Elle? A garota que fez o Théo calar a boca por três segundos? — Caíque perguntou, com uma lata de refrigerante na mão.
— Ele calou a boca? Milagre.
— Pois é. Você devia ganhar um prêmio. Tipo... um beijo meu. — ele piscou.
Elle deu uma risada curta, mas genuína. Caíque era daquele tipo que fazia piada de si mesmo. Fácil de gostar, difícil de levar a sério.
Foi quando sentiu um olhar queimando. Théo, encostado no batente da porta, a observava. Rosto sério. Mandíbula tensa. Copo na mão. Como se ela já fosse dele — e ele não estivesse disposto a dividir.
Elle desviou os olhos. Mas o arrepio ficou. E quando Théo finalmente se aproximou, não foi com charme, mas com intensidade.
— Já tá se enturmando, tempestade?
— Só tentando sobreviver. — ela respondeu, sem fraquejar.
Ele sorriu, mas havia algo feroz ali. Um desafio velado.
E naquela noite, Elle percebeu que, por mais que tentasse fugir, o fogo estava se espalhando rápido demais para ignorar.
E o nome dele era Théo Cavalcanti.
Lina não perdeu tempo.
— Caíque está nitidamente encantado por você. Se eu fosse mais ciumenta, estaria preocupada.
— Ele parece o tipo de cara que se encanta fácil. — Elle respondeu, jogando o corpo no colchão e encarando o teto.
— Ele é, mas só quando a garota é bonita, inteligente e meio misteriosa. O problema é que Théo já colocou os olhos em você.
— E qual é exatamente o problema?
Lina fez uma careta teatral.
— Ele é lindo, mas perigoso. E não no estilo bad boy fofo. É perigoso mesmo. Daqueles que te viram do avesso e depois fingem que nem lembram seu nome.
Elle absorveu a informação em silêncio. Não precisava de alertas — ela já sentia o perigo pulsar quando Théo se aproximava. Havia algo nele que acendia cada instinto de defesa que ela cultivou por anos. Mas também havia uma parte dela que se sentia viva sob o olhar dele. E isso era o mais assustador.
No refeitório, no dia seguinte, Elle se sentou ao lado de Lina. Não queria contato visual com ninguém, mas bastou levantar os olhos para encontrá-lo. Sentado duas mesas adiante, Théo encarava diretamente para ela, os dedos brincando com uma colher de forma indecente, como se o simples ato de comer fosse um convite silencioso. Ele não sorria. Ele queimava.
Caíque apareceu de repente e se jogou ao lado delas.
— Vim salvar vocês do tédio. E roubar um pouco do seu suco, Elle.
Ela entregou o copo, rindo de leve. Caíque era uma distração segura.
Mas Théo viu. E não gostou.
Levantou da mesa com passos firmes, ignorando os amigos, e veio em direção a ela. Elle sentiu antes mesmo de vê-lo. O ar pareceu pesar.
— Você tem gosto duvidoso pra companhia, tempestade. — ele disse, a voz baixa e rouca.
— E você tem mania de se meter onde não foi chamado. — respondeu, firme.
— Eu gosto de desafios. E você parece ser o maior deles aqui.
— Isso não é um elogio.
— Não era pra ser. Era um aviso.
Elle se levantou, aproximando-se de Théo até que seus rostos estivessem perigosamente próximos.
— E eu não aceito ameaças, Cavalcanti.
Os dois se encararam por segundos longos demais. E, ali, no meio do refeitório, com dezenas de olhos em cima deles, Elle sentiu que a aposta estava longe de ser um jogo simples.
Era um incêndio. E ambos estavam dispostos a queimar.
Naquela noite, Elle tentava ler algo para a próxima aula, mas as palavras dançavam nas páginas. A presença de Théo ainda a rondava como um perfume que se recusa a evaporar. Ela odiava admitir que pensava nele. E odiava ainda mais saber que ele estava vencendo.
Lina entrou no quarto com o celular na mão, rindo alto.
— O vídeo de vocês no refeitório tá rodando pelo campus. Parabéns! Já é oficialmente a garota que encarou Théo Cavalcanti e saiu ilesa. Isso nunca aconteceu antes.
Elle soltou um suspiro irritado.
— Ótimo. Era exatamente o tipo de atenção que eu queria.
— Amiga... você não quer atenção. Mas ela te quer. E quando Théo quer algo, ele não desiste fácil.
Antes que Elle respondesse, seu celular vibrou. Um número desconhecido. Uma mensagem simples:
"Gosto de quando você me enfrenta. Me encontra na quadra às 23h. Sozinha. — Théo"
O coração dela bateu forte, como se quisesse escapar do peito. Ela sabia que não devia ir. Sabia que ele era um problema.
Mas problemas também têm olhos escuros, mãos firmes e sorrisos que desafiam a lógica.
E às 23h, Elle estava lá.
Na quadra vazia, sob as luzes brancas e frias, ele já a esperava. Sentado na arquibancada, com as mãos entrelaçadas, como se o mundo estivesse em pausa só para aquele momento.
— Achei que você não viria. — ele disse.
— Eu também achei. — ela respondeu, se aproximando com passos lentos.
Silêncio. Os olhos dele estavam diferentes. Menos arrogância. Mais algo que ela não sabia nomear.
— Por que eu? — Elle perguntou.
Théo a encarou, sem desviar.
— Porque você me olha como se eu não fosse ninguém. E isso me dá vontade de ser alguém. Pra você.
Foi a primeira vez que ela sentiu o ar sumir.
E foi a última vez que ela pensou que poderia escapar dele ilesa.
Elle estava prestes a responder quando Théo se levantou lentamente da arquibancada. Os passos dele ecoaram na quadra vazia como uma batida dentro do peito dela. Cada vez mais próximos. Até que estavam frente a frente, sob as luzes frias e o silêncio quebrado apenas pela respiração acelerada de ambos.
— Eu devia ir embora — ela sussurrou, quase sem voz.
— Então vá. — ele respondeu, mas não deu um passo sequer.
Elle não se mexeu. O coração batia rápido demais, como se quisesse avisá-la do perigo. Mas seus pés pareciam presos, e seus olhos não conseguiam desgrudar dos dele.
— Você é tudo que eu não preciso agora. — ela confessou.
— E ainda assim, aqui estamos.
O silêncio que se seguiu foi intenso. Carregado de tensão, de desejo contido, de tudo que ainda não havia sido dito. Até que ele levantou a mão devagar, como se estivesse prestes a tocar uma chama.
E tocou.
Os dedos dele roçaram o rosto dela com uma delicadeza que contrastava com o olhar faminto. Ela fechou os olhos por um instante, sentindo a pele formigar sob o toque.
— Me diz pra parar. — ele pediu, com a voz rouca.
Ela abriu os olhos e, por um segundo, tudo nela gritava "pare". Mas a boca dela disse:
— Não.
O beijo veio como um raio. Rápido, quente, inevitável. Théo a puxou com força e ao mesmo tempo com reverência, como se ela fosse o único vício do qual ele não queria se livrar. Os lábios se encontraram em um encaixe urgente, os corpos em busca de uma verdade que as palavras não conseguiam mais esconder.
Elle se odiava por querer aquilo. Mas queria. Queria o gosto, o calor, o perigo. Queria tudo dele — mesmo sabendo que podia ser destruída depois.
Quando o beijo acabou, estavam ofegantes, as testas coladas, os olhos fechados.
— Isso foi um erro. — ela murmurou, mesmo sem convicção.
— Não. Isso foi inevitável. — ele respondeu.
E enquanto ela se afastava com passos trêmulos, Théo permaneceu ali, sozinho na quadra, com a certeza de que a aposta havia mudado de lado.
Porque agora... era ele quem corria risco de se apaixonar.