CAPÍTULO 1 – Encontro com a Tempestade

1512 Words
O calor parecia grudar na pele como um lembrete c***l de que um novo ciclo estava começando. Elle desceu do ônibus com uma mochila surrada nas costas e uma mala com rodinhas mancando atrás de si. Seus tênis estavam gastos, seus olhos escondiam um mundo que ninguém ali conhecia, e sua alma... essa já tinha apanhado demais. A Universidade Hartsfield era como um monumento ao luxo disfarçado de educação. Prédios imponentes, jardins perfeitamente aparados, jovens sorridentes com celulares de última geração e mochilas de marca. Elle se sentia como uma peça fora do tabuleiro. Mas era só mais um degrau. Ela aguentaria. Como sempre aguentou. Entrou no campus com passos decididos, evitando olhares, ignorando cochichos. Seus cabelos castanhos estavam presos em um coque improvisado, e seus ombros carregavam mais do que o peso da mala: traziam o peso de uma vida que ninguém entenderia. No alto da escadaria, apoiado no corrimão, Théo Cavalcanti observava tudo. Ele tinha aquele olhar blasé de quem já viu de tudo — e cansou. Alto, cabelos escuros desalinhados com charme, camiseta branca justa e um sorriso de quem sabia exatamente o efeito que causava. E quando Elle cruzou o portão principal... ele sentiu. Não era só beleza. Era presença. Era o tipo de garota que não tentava chamar atenção — e por isso chamava. Ele deu uma risada baixa quando ouviu um dos amigos comentar: — Aposto cem que ela não dura uma semana aqui. Muito deslocada. — Aposto que eu faço ela ficar. — Théo respondeu sem tirar os olhos dela. — O quê? — Caíque, seu melhor amigo, riu. — Sério? Vai fazer da novata sua nova missão? — Não. — Théo sorriu com malícia. — Vou fazer ela se apaixonar por mim. E quando isso acontecer... eu desapareço. Caíque arqueou a sobrancelha. — Isso é sujo, até pra você. Théo deu de ombros. — É só uma aposta. Ela nem vai lembrar meu nome daqui a um mês. Mas o destino tem um jeito curioso de virar o jogo. E, naquela manhã quente de segunda-feira, o que parecia apenas uma brincadeira se transformaria na queda livre mais intensa que Théo já conheceu. Elle, por sua vez, apenas seguiu para o alojamento feminino. Não sabia o que o futuro reservava, mas sabia se proteger. Já tinha aprendido, com dor, que toda aproximação tem um preço. E ela estava cansada de pagar. Na porta do dormitório 206, encontrou Lina — uma loira falante, simpática e cheia de perguntas. Diferente de tudo que Elle era. Mesmo assim, sorriu de leve. Talvez não fosse tão r**m. Talvez, só talvez, ela conseguisse recomeçar ali. Mas no dia seguinte, ao esbarrar com Théo no corredor da biblioteca, tudo dentro dela estremeceu. Ele segurou seu braço para evitar a queda, os olhos nos dela como se procurassem segredos. Ela puxou o braço rapidamente. — Cuidado. — disse fria. Ele sorriu. — Seu nome é cuidado? — Meu nome é "não estou interessada". E saiu andando. Théo riu. Ah, isso ia ser divertido. E pela primeira vez em muito tempo... ele queria mais do que vencer uma aposta. Ele queria vencê-la — e depois, quem sabe, se perder nela também. Naquela noite, Elle permaneceu acordada mais do que deveria. A imagem daquele cara — Théo, como Lina havia contado entre risadinhas — se repetia como uma provocação teimosa em sua cabeça. O toque quente dos dedos dele em seu braço, o sorriso insolente, o jeito com que a encarava como se já a tivesse decifrado. Detestável. Atraente. Perigoso. Lina falava sobre ele com entusiasmo. "Théo Cavalcanti é como uma lenda viva por aqui. Filho do reitor da universidade. Rico, lindo e com histórico de corações partidos. Se ele está olhando pra você... corre. Ou se prepara." Elle já tinha corrido de muita coisa. Talvez, por uma vez, fosse diferente. Mas não queria se deixar levar. Seu passado não permitia. Na manhã seguinte, durante o café, ela se sentou sozinha sob uma árvore no jardim central. Achava que estava invisível — até a sombra dele surgir. — Você sempre foge ou é só charme? — Théo perguntou, sentando-se sem ser convidado. — Eu prefiro lugares silenciosos. — Elle respondeu, sem encará-lo. — E eu prefiro desafios. — ele provocou. — Você tem nome, ou devo continuar te chamando de tempestade? — Elle. Mas não se incomode em memorizar. — Eu já memorizei. — Ele sorriu. A resposta era rápida, o olhar cheio de faíscas. Théo gostava do jogo, e Elle... bem, ela só queria vencer o próprio medo. Nos dias seguintes, ele começou a aparecer mais. No refeitório. Na biblioteca. No caminho entre os prédios. Sempre com um comentário atrevido. Sempre testando seus limites. E Elle, sem perceber, começou a responder. Um dia, ao sair de uma aula, ela o encontrou encostado no pilar do prédio de artes, com uma expressão que mesclava desafio e desejo contido. — Você me evita. Mas eu sei que pensa em mim. — ele disse. — Arrogância é sua segunda língua? — ela rebateu. — Não. Mas sedução é a primeira. O que veio depois foi um silêncio tenso. Um passo dele. Um passo dela para trás. Mas não havia medo — havia calor. E foi nesse momento que ela soube: Théo era mais do que um garoto bonito e irritante. Ele era perigo com perfume de paixão. E isso, para Elle... era quase impossível de resistir. Na aula de psicologia comportamental, Elle tentava manter os olhos no quadro, mas podia sentir Théo duas fileiras atrás. Era como se a presença dele tivesse temperatura própria. Cada vez que ela virava a cabeça, o pegava olhando. E ele não desviava. Não se desculpava. Só sorria. Na saída, ele estava lá. Encostado na mureta como quem já sabia que ela passaria por ali. — Você me encara durante a aula inteira e depois finge que não me vê? — ela perguntou, cruzando os braços. — Eu não encaro. Te estudo. — Théo respondeu, com um brilho preguiçoso nos olhos. — Psicologia comportamental, lembra? — Então já deve ter notado meu comportamento de te ignorar. — É isso que me faz insistir. Elle bufou e passou direto, mas ele a acompanhou com passos tranquilos, mãos no bolso, como se nada no mundo o preocupasse. Quando chegaram à escada do prédio principal, ele segurou seu pulso com firmeza, mas sem força. — Me dá uma chance. Um café. Vinte minutos. — Não sou seu tipo, Théo. Eu não corro atrás de brilho. Eu corro de incêndio. E você... você é fogo demais. Ela se afastou antes que ele respondesse. Mas o coração batia forte. E não era de raiva. Era de alerta. Naquela noite, Elle sonhou com olhos escuros e toques que ela nunca sentiu — mas que sua pele parecia reconhecer. E, do outro lado do campus, Théo não parava de pensar na garota que o desafiava como ninguém. Pela primeira vez, ele não tinha certeza se a aposta era dele... ou se era ele quem já estava sendo jogado. Os dias seguintes foram um campo minado de provocações disfarçadas de coincidência. Elle fingia indiferença, mas por dentro, sentia cada olhar de Théo como se ele estivesse mapeando sua alma. Na sexta-feira, durante a aula prática no laboratório de comportamento, o professor decidiu formar duplas para uma atividade. O sorteio não perdoou. — Elle e Théo. — anunciou em voz alta. Os olhares se voltaram para eles. Alguns sorrisos, outros cochichos. Elle revirou os olhos. Théo apenas sorriu como quem já sabia que o universo jogava a seu favor. — Isso é destino. — ele disse, ao sentar ao lado dela. — Isso é azar. — ela retrucou. Théo não respondeu. Apenas a observou por alguns segundos em silêncio, e isso a desconcertou mais do que qualquer piada ou flerte. Durante o exercício, que exigia simular reações emocionais em situações de estresse, Elle mergulhou no papel com frieza e precisão. Mas quando a atividade terminou, Théo se aproximou e murmurou: — Você é muito boa em se esconder. Mas eu já vi o que tem atrás dos seus olhos, Elle. E não vou parar até tocar isso. Ela não respondeu. Não podia. Não queria admitir que, por dentro, já estava se rendendo. Na saída da aula, o céu ameaçava chuva. Elle estava sem guarda-chuva, e os pingos começaram a cair com força. Correu até a marquise mais próxima e, para sua surpresa, Théo apareceu ao seu lado, completamente encharcado. — Vai ficar aí até o semestre acabar? — ele brincou, tirando a jaqueta e oferecendo. — Vai ficar me perseguindo por quanto tempo? — ela rebateu, mesmo aceitando o gesto. — Até você parar de fugir. Ou até eu cansar. — ele sorriu. — E te aviso: eu não canso fácil. Ela segurou a jaqueta contra o corpo e, por um momento, deixou o silêncio falar por ela. Era isso que a assustava: não o jeito de Théo falar, mas o jeito como ele fazia seu silêncio gritar. E ela já não sabia mais se corria dele… ou para ele.
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