Cap. 9 Capturada

1625 Words
...Floresta Afastada... Depois de toda aquela comoção com a morte de Teodora, eu que ainda estava jogada na lama e era segurada por aquele homem que até hoje sequer sabia o nome, pois ninguém em minha casa ousava o pronunciar, fui pega por ele pela cintura sem nem poder olhar para trás, que me colocou na sela do cavalo, eu estava em um estado de choque tão grande que nem resisti, só queria ir embora daquele local desolador. Mesmo os céus que tinham nascido hoje com o aspecto de bela manhã chuvosa eram os mesmos, agora eram tomados por uma cinza tempestade, que para eu, aquilo nada mais era a representação do que eu estava sentindo por dentro, cada gota de chuva que caía no meu rosto me ajudava a esconder as lágrimas que eu não queria mostrar para aquele monstro assassino. Andamos por um bom tempo, foi um trajeto muito silencioso, eu não queria me segurar nele, queria ficar o mais longe possível, mas em alguns momentos era simplesmente impossível diante de trajetos tão difíceis, ele corria de uma forma que se eu não me segurasse cairia com toda certeza. Todas essas nossas andanças mata à dentro, me deu tempo para pensar, pensar no porque aquele homem era tão obcecado por mim, eu não servia para ser uma boa esposa, nunca fui tão prendada, me usar como seu objeto para satisfazer seus desejos mais ardentes também não fazia sentido, hoje em dias de guerra qualquer moça com fome, ou mãe com filhos famintos e órfãs de pai, se venderia por poucas moedas de cobre nas estradas, toda essa obsessão era muito intrigante. O fato dele ser calado de mais não me agradava, ainda lembro-me de suas falas suaves, a forma como seus dedos percorriam os objetos de decoração que minha mãe deixava em nossas prateleiras, como ele era enigmático, mas agora pouco, estava com um olhar de lunático que não dormia há dias. Minha avó sempre dizia que os piores homens, eram os de personalidade calma e quieta por fora, mas que por dentre eram muito crueis. Finalmente pude sentir o galopar do cavalo cedendo e parando aos poucos, quando ele parou de vez, o ex caçador de elfos desceu e em seguida me tirou da cela também, ele começou a conduzir o cavalo para uma caverna, lá dentro pelo que pude notar de longe, já tinha comida e água para o mesmo, após isso ele veio ao meu encontro, parou diante da grande árvore que se erguia em nossa frente e ficou olhando para ela com seu olhar cansado. — Eu subirei primeiro – eu fiz cara de alívio, acredito, porque ele leu minhas expressões e disse — Caso tu queira fugir, saiba que os animais da floresta podem te matar talvez antes mesmo de eu lhe encontrar. Ao ver minha expressão ser substituída por angústia, ele me deu as costas e subiu de forma tão ágil e rápida, que repensei minha fuga, que estava totalmente ligada em sair correndo na densa floresta. Já lá em cima ele me jogou uma escada de cordas, na qual eu não estava com ânimo para subir, mas foi escutar um uivo na mata, que mudei de ideia em um instante e foi assim, tropeçando na barra suja do meu vestido, segurando os sapatos na mão que cheguei ao final na escada, ele me aguardava lá em cima com a mão estendida para me ajudar a se equilibrar na etapa final da escada, mas eu de minha parte o encarei e subi sem aceitar a sua ajuda, não facilitaria a vida dele, o homem que caçava seres vivos os ditos ‘não humanos’ e que tinha acabado de assassinar na minha frente minha criada e melhor amiga, além dos guardas e dos cocheiros? Não iria ceder! Lá em cima tinha um pequeno esconderijo, uma casa na árvore, eu fiquei tentando ver o local que estávamos, mas só conseguia ver mais árvores, ele recolheu a corda e me olhou, eu desviei o olhar, não conseguia o encarar por tudo o que ele fez, levantei meus olhos brevemente e pude o ver sorrir, como podia? Após cometer tantas atrocidades? Quanto sangue frio em um só corpo. — Entra – ele disse apenas, com a voz baixa e autoritária. Após tirar uma chave do pescoço e abrir a porta do pequeno cômodo, ele ficou encostado na passagem e esperou eu passar por ele, assim que entrei ele fechou a porta e a trancou novamente. A parte interna do esconderijo era tão pequena quanto imaginei vendo-a por fora, tinha apenas um armário e uma cama velha de solteiro, não tinha nenhum lugar nem para um banho, como ele poderia querer me manter naquele lugar imundo? — Tua cara não é das melhores – eu não o respondi, o que ele estava pensando? Eu estava suja dos pés a cabeça — O destino me presenteou com uma mulher muda, que azar o meu – ele riu de forma sarcástica, encostou-se no armário e apoiou o rosto com uma das mãos no queixo, parecia querer zombar de mim, mas logo um ar sinistro cobriu o seu rosto — Vamos ver até quando tu ficarás calada. Eu o olhava e a cada movimento seu eu dava um passo para trás, não sei se meu silêncio o perturbava ou se era ele tentando criar um diálogo entre nós que era o real problema, ele se desencostou do armário, me olhou dos pés a cabeça e disse: — Tens que trocar estas roupas, acabarás doente – ele se virou para o armário o abriu e pegou uma muda de roupas limpas para mim — Pegue, vista isso. Ele estendeu a sua mão para me entregar e eu que até agora havia me segurado comecei a chorar, mesmo não querendo fazer isso na sua frente, com a raiva que eu estava dele, dei um tapa em sua mão e derrubei as roupas no chão, ele por sua vez me encarou mais sério, se abaixou, pegou as roupas e colocou na cama. — Tu não entendes as minhas motivações, mas saiba que sem minha ajuda tu estás sozinha e perdida, não sobreviverá. Tive que ceder, estava com frio e por hora aquilo era a única coisa que tinha, até poder ir embora, mas fiquei pensando em suas palavras, provavelmente era um jogo mental para me prender, no entanto peguei as roupas e disse por fim: — Fique de costas, para eu poder me trocar – sem demora ele respondeu com uma pergunta. — Porque eu faria tal coisa? – eu fiquei incrédula com a atitude dele. — Não é correto que me veja! – respondi seca. — Também não é correto que eu mate pessoas ou sequestre outras, a tua criada não lhe ensinou nada? – o que ele queria dizer com isso? Ele me parecia a par de tantos assuntos. — O que ela deveria me ensinar? – a expressão dele se alterou de sarcástico para surpreso. — Pelo visto és uma boa moça, é que te observando de fora me parecia que vocês...bom se tu não sabes, ficarei de costas para ti. Ele se virou e eu comecei a tentar me livrar daquele vestido, mas era importunada com pensamentos voltados para suas palavras, me observando de longe? Sem falar que aquilo parecia tão mais fácil com a ajuda da Teodora, como cuidaria das minhas roupas agora, eu me esforçava, mas não conseguia me livrar das amarras do vestido, minhas lágrimas logo voltaram, os sentimentos ali presente eram de tristeza e a saudade crescente da voz de Teodora, além do desespero que sentia só de pensar que aquele homem estava no mesmo quarto que eu. Por uns instantes eu que também estava de costas para ele pude ouvir alguns passos, respirei fundo e tentei me concentrar na tarefa de trocar de roupa, foi quando senti mãos pesadas sobre a minhas costas, na hora senti um arrepio pelo corpo inteiro e minha respiração ficou densa, ele muito suavemente após o seu primeiro contato desamarrou os laços do meu vestido, eu comecei a tremer, por fim ele soltou o último e se afastou, quando fui olhar de relance para trás notei que ele estava de costas para mim novamente, peguei o vestido que ele me deu e troquei rapidamente, era um vestido simples de cores cinzentas, suas amarras eram na frente o que facilitou muito a minha vida naquele momento. — Já pode se virar – disse sem jeito, ele que sempre manteve seus olhos concentrados no meu, ao se virar olhava para o lado. — Pode ficar com a cama, eu ficarei de guarda na porta, ...já estamos no meio da tarde, ...é que quero garantir que tudo fique calmo para o anoitecer, se precisar de algo, ...eu separei alguns itens para você no armário. — Obrigada... –respondi também sem jeito. — Eu vou lá para fora, se quiser mais alguma coisa é só bater na porta. Tanto quanto eu, ele me parecia envergonhado e havia perdido um pouco de sua concentração, foi ele sair que decidi ver que itens eram esses, abri o armário e pude notar algumas roupas, um sapato feminino que me serviu como uma luva e também uma bota de cano mais alto, para as piores regiões, ao lado das roupas se encontravam um pente de ferro e um espelho decorado com entalhes de flores nas cores azul, verde e rosa, eram itens familiares para mim, haviam sumido tinha um tempo lá de casa, fiquei me perguntando, como ele havia conseguido tudo aquilo, ele era estranho. Em cima da cômoda, tinha uma bacia com água, peguei um pano e lavei meus braços e pernas, também com muita dificuldade comecei a pentear meus cabelos.
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