Cap. 8 No Fundo Do Oceano

1464 Words
Em frente da nossa casa se reuniu toda nossa família e empregados, me despedi de cada um deles com um beijo e abraço, estava eu com um vestido azul claro em que eu e minha criada arrumamos para minha partida, ela pegava minha bagagem de mão e eu me despedia. Minha mãe e avó acreditavam que aquilo era mesmo o certo a se fazer, meu pai estava satisfeito, achava ter achado a solução perfeita para nossos problemas, meus irmãos mais velhos estavam todos sérios e meu pequeno Willy escondeu as lágrimas e abraçou a mamãe, de fato ninguém havia saído daquela casa ainda, eu seria a primeira e estava certa que encontraria minha liberdade. Entramos na carruagem que nos levaria para a cidade de Juris mais próxima do mar do Norte onde iríamos encontrar o amigo de meu pai que me acompanharia até a tal gruta, não confiávamos muito nisso, ele podia me forçar a casar com alguém como sempre fez por isso ficamos prestando atenção a todo tipo de sinais, passar dois dias na estrada não seria nada fácil, mas estávamos prontas. As primeiras horas se passaram entediantes, meu pai escolheu uma carruagem nada chamativa para que não fossemos atacadas por salteadores, estávamos com dois cocheiros e alguns homens nos escoltavam entre a floresta que tinha do nosso lado esquerdo. — Mirian, que item você trouxe que nem a mim mostrou? – disse minha criada agora me tratando pelo nome, que era assim que preferia que ela me chamasse. — Se não lhe mostrei é porque não é para tu veres – ela me olhou indiferente, ela era assim arredia. Comecei a olhar para ela dando a entender que desconfiava de que meu pai não me levaria para a gruta, e sim para um casamento arranjado às escondidas. — Espera, outro casamento arranjado? – olhei para ela com a cara de descrença que fazia e respondi. — Sim, acho que é isso mesmo o que ele vai fazer para te ser sincera – ela fez a cara de desespero, eu sabia que ela faria. — E quanto a ... – eu ri e ela parou de falar. — Sabia que perguntaria e se acalme isso não vai acontecer, temos um plano bastante consistente, falando na gente, o que houve entre você e meu pai? Ele parecia bem atento a tuas intimidades. Ela fez o mesmo olhar que meu pai e para mim estava claro que algo havia acontecido e que os dois queriam deixar bem escondido, mas ela não mentiria para mim, me contaria tudo o que eu quisesse, e foi o que ela fez, logo após abaixar a cabeça e não olhar mais nos meus olhos, pronunciou: — De fato ele acha que sabe, ele me pegou em um momento não muito oportuno onde seu irmão estava… - ela fez uma pausa e por fim finalizou. - A me forçar... — Ector? O que ele te fez? – ela estava disposta a fazer com que eu a questionasse, devido a tantas pausas que fazia em sua narrativa. O silêncio reinou na carruagem e aquilo fez minha imaginação pensar nas piores coisas, Ector sempre foi de ser mulherengo e até já agarrou algumas mulheres, mas o fato é que elas sempre queriam, ele nunca precisou às forçar a nada... ela cortou meus pensamentos ao falar... — Rudi, foi Rudi, seu pai nos pegou num dia desses na dispensa... Rudi?? Nisso eu não podia acreditar, ela estava se demorando em seus afazeres, demorando a atender aos meus pedidos, sim até que fazia sentido, mas Rudi era sério demais para forçar alguém, o que me sugeria a ideia dela estar tendo um caso pelas minhas costas com meu irmão mais velho, mantive a calma e perguntei o que queira saber. — Ele te forçou a se deitar com ele? – ela nem me olhava. — Ele tentou, mas como disse seu pai chegou e nos separou, por um segundo achei que ele fecharia a porta e fingiria que nada estava acontecendo. — Tu ficarias com meu irmão? – nesse momento ela se ajoelhou no pequeno espaço que tínhamos para ficar em pé e segurou minha mão chorando. — É claro que não, nunca quis que Rudi me visse com esses olhos, nunca o provoquei! — Você bem sabes como preso nossa amizade, temos planos, não vamos acabar com eles por causa de outras pessoas que temos ao nosso redor. Ficamos em silêncio e nesse meio tempo pensei no porque meu pai dizer que ela era impura, apesar de não querer tocar em tal assunto doloroso tive que perguntar, e ela me respondeu rápido. — Acho que ele pensou que não foi a primeira vez que eu e seu irmão havíamos nos encontrado. Eu já tinha certeza que meu pai sabia o que Rudi tinha feito, mas fingiu-se de cego como muitos homens se faziam diante de situações do tipo, me senti culpada por ter deixado meu ciúme e egoísmo tomar conta de meu interior e questioná-la tanto. Ela sentou-se ao meu lado e como a lembrança era dolorosa demais chorou até dormir enquanto eu passava as mãos em seus cabelos pretos, meu irmão como pode? Sempre nos mostrando seu lado sério, mas ainda assim fraco e cedendo aos desejos que a deusa condenava tanto, nesse meio tempo me lembrei do item em minha bolsa, peguei minha pequena caixa de joias a abri e pude ver novamente o pingente de adagas, o pingente que passei por tantas noites olhando, como podia tanta coisa acontecer em meus anos juvenis? Minha companheira de viagem estava adormecida e eu ainda olhava aquele pingente, quando senti um solavanco na carruagem, o soco foi tão forte que a porta da nossa carruagem abriu e meu pingente caiu de minhas mãos na lama que se encontrava do lado de fora, minha criada acordou sem saber o que estava acontecendo e eu me abaixei no chão da carruagem me esticando para poder pegar o pingente caído no chão, quando uma mão coberta por uma luva preta me entregou o pingente, eu o encarei com os olhos arregalados. Não demorou muito para ele segurar meu braço e me puxar para fora, eu que estava abaixada quase cai na lama, mas minha criada me segurou e me puxou novamente para a carruagem, mas não consegui entrar, ele me segurou e fiquei do lado de fora, Teodora saiu, e ele fez uma expressão nada feliz, fiquei com medo dele matar ela, pois como já havia notado que ele tinha se livrado dos nossos cocheiros, como não apareceu nenhum dos homens que faziam a nossa guarda, imaginei que eles tiveram o mesmo fim. Ele me soltou e empurrou Teodora para dentro da carruagem, foi quando escutei uma explosão e vi nossa carruagem com minhas coisas e principalmente Teodora, caindo para um precipício que dava para o mar n***o que estava do lado direito da estrada, não podia fazer nada, apenas vi a mão dela se esticando para tentar alcançar a minha, isso partiu meu coração de tal forma, que me pus a pular atrás dela, ver a dor em seu rosto me alcançar lá, de baixo daquele precipício, me fez sangrar por dentro e tudo o que havíamos construído tinha ido junto com Teodora para as profundezas do mar bem diante dos meus olhos, por alguns segundo aquilo me pareceu um sonho, onde eu acordaria e teria Teodora comigo outra vez. A cena da carruagem caindo e dando várias voltas naquele precipício, preservando o corpo de Teodora em câmera lenta, que junto da carruagem girava tantas vezes, eu não tinha nada que pudesse me conectar a ela a não ser as nossas lembranças, pensar nas nossas últimas palavras de consolo não foi algo que me ajudou a levantar daquele chão imundo. Tudo estava em câmera lenta e tão barulhento como em um campo de batalha, onde só os meus gritos podiam ser ouvidos diante de tanto terror, o terror daquele momento que me assolava de vez, me deixando com o vestido rasgado, sujo e num tom pardo, meus cabelos soltos e tudo o que conseguia sentir eram aquelas luvas me segurando para que eu também não tivesse o mesmo fim de Teodora. Após todo esse trágico momento, pude novamente sentir o cheiro de ferro que acompanhava aquele homem e me lembrei de ter pensado em pedir para a morte me levar consigo á uns anos atrás e agora... ela estava diante de mim, me levando consigo, me pegando em seus braços me colocando em seu cavalo e me levando para longe daquele local onde minha Teodora ficará para trás ao invés de comigo seguir viagem, tudo o que pude fazer foi fechar meus olhos e lembrar da cena dela empalidecendo e afundando nas águas com nossas memórias.
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