Era uma bela manhã, eu ainda estava dormindo quando fui interrompida por nossa criada que abria as cortinas das janelas de meu quarto deixando toda a luz do sol envolver meus olhos.
— Bom dia, senhorita – começou ela. — Sei que não gosta de ser acordada, mas seu pai pediu a sua presença com urgência em seu gabinete.
— Sério? Ele nunca quer nada comigo, porque tanto alarde há essa hora? Diga a ele que recuso ao seu chamado e que ainda estou repousando – o que mais ele poderia querer depois de todos esses anos fatídicos.
— Não será possível, senhorita – como ela ousa? Foi o que pensei, mas ela nunca me desafiou em nada e sempre fomos amigas.
— Olhe pela janela – falou ela fazendo um gesto para que eu olhasse para o lado de fora, já que meu quarto tinha as janelas viradas para a entrada da nossa toscana.
— Diga-me, sobre o que se trata toda essa comoção lá em baixo? – ela me fez um olhar muito infeliz que de certa forma gelou minha espinha.
— É o matador de elfos, alguns dos guardas de seu pai o informaram nesta mesma manhã que o avistaram acampado nas redondezas da Toscana...
— E não o mataram? – não sabia que misturas de sentimentos sentia, entre querer que ele desaparecesse e vê-lo novamente, já lembrava da sensação do beijo que ele me deu um ano antes.
— Pelo que escutei não senhorita – ela baixou o olhar, sabia como ela me estimava e tudo isso havia sido difícil para ela, no entanto essa jovem para mim foi de uma grande ajuda durante o último ano em que estivemos juntas.
Me levantei e ela me ajudou a se vestir, sai do meu quarto e fui em direção ao escritório de meu pai no primeiro andar, ao chegar pedi licença e abri a porta do escritório.
— Diga meu pai, o que deseja tratar comigo. – disse da forma mais solene que pude.
— Estou te mandando para um local de adoração...– antes que eu pudesse dizer algo ele continuou — Tenho amigos que irão com você, que partirá imediatamente, suas coisas mais necessárias já estão prontas, irás para as terras altas depois dos mares do Norte!
— Está dizendo que me mandará para uma casa de adoração? Onde as mulheres só fazem jejum e oram a deuses desconhecidos?
— Querida, acredito que a definição que procura é Asusrir, e sim vou te mandar para lá, entenda que é a ultima saída, esse maldito homem não para de rondar a nossa família há anos! Eu não estou contente em saber que ele está acampando aqui do lado! Pelo menos algum deus esse maldito tem de respeitar!
— Levarei minha criada comigo? – perguntei irritada.
— Não! Irás para uma gruta de oração e sua criada não é aceita lá, pois já está impura! – a última frase de meu pai me fez pensar em como ele sabia sobre tais intimidades da minha criada.
— Como sabe o senhor sobre esse tipo de assunto? – vi que ele fugiu da pergunta, ficou encabulado, poderia ser por conta do teor da conversa, homens e nem mães falavam sobre esses assuntos com suas filhas, apenas as entregavam a homens alheios que já sabiam de tudo e mais um pouco.
— Esse assunto não lhe diz respeito, como poderias tu, pura como és, abrir tua boca e falar algo tão hediondo, com todos os tipos de acusações que vejo em seus olhos? Será bom te afastares dela! – exatamente não poderia tocar nesse assunto, mas teria uma conversa com minha criada mais tarde.
— Desculpe meu pai, se te pareceu ofensivo! – disse irônica.
— Com quem aprendeu a ter a língua tão travessa? Se eu tivesse tempo lhe corrigiria agora.
— Sei que não farias tal coisa, pois aprendi com o senhor a ser assim.
— De fato, agora vá, tenho assuntos a tratar ainda a respeito da sua partida, lhe cairia bem se despedir de seus irmãos e não apenas de sua criada, avó e mãe.
— Farei isso. – eu disse isso aceitando momentânea o que ele tramava, mas faria as coisas do meu jeito.
Enquanto andava pelo corredor pensando em quantos destinos a deusa me tinha imposto, foi quando me deparei com Ector e seus cabelos negros marcantes como sempre, igual aos de nosso bisvô, assediando uma de nossas empregadas, eu lhe chamei a atenção.
— Ector?!
— Am? Sim, bela irmã? No que posso lhe ser útil? – respondeu ele largando a moça que abaixou a cabeça e saiu andando depressa pela porta de acesso dos empregados.
— Não em muita coisa, talvez ajudando a sua bela irmã a carregar os baús dela para o lado de fora da casa – ele me olhou de forma nada séria.
— Irás mesmo partir? – eu o olhei e me lembrei da moça que ele agarrava .
— Sim irei e não contarás mais com meus avisos, mas sim com os cascudos e broncas de Rudi – ele revirou os olhos e fingiu estar assustado.
— Diga-me irmã, irás mesmo abandonar o seu irmão preferido e também o mais lindo e partir para as aventuras de Asusrir? Sinto tanta inveja sua, me esconde em teu baú? Ou de baixo de tuas saias? – ele riu divertido — Ah eu traria tantas glórias para esta casa, mas não me esquecerias de ti, que junto comigo serias Mirian a Magnífica, o que dizes? – terminou ele, de forma mais dramática que poderia, colocando uma de suas mãos no queixo e me dando a outra mão.
— O que? Estás a sonhar como sempre fazes me deixando com todo o trabalho? – o surpreendeu Rudi.
— Rudi, faltavas tu para completar as nossas aventuras.
— Como se jogar para cima da empregada, se esconder nos baús de nossa irmã ou de baixo de suas saias, estava na sua lista provocar também a ira dos deuses? – ironizou Rudi.
— Exato!! Você captou a mensagem, nossos astros deveriam atravessar os seus céus juntos!! - disse ele passando a mão no ar como se tocasse os céus.
— Eu passo de qualquer forma, vamos voltar ao trabalho, até a despedida de nossa irmã, se nos atrasarmos tu já saberás de quem é a culpa.
Assim que os dois se afastaram voltei aos pensamentos que m*l se iniciaram, como podiam se dar tão bem aqueles dois, sendo um sério e o outro um palhaço que sonhava acordado a todo instante? A verdade é que Rudi precisava de Ector para sua vida ter mais alegria diária, juntos ele achava um lado tão bem humorado que poucos tinham o prazer de conhecer.
Falando um pouco de meus irmãos, nossa linhagem é da seguinte forma, Rudi tem os seus 25 anos e assim como eu e nossa mãe tem os cabelos num tom de loiro acinzentado quase castanho claro e os mesmos olhos verdes, sua personalidade se resume em levar muito a serio todo trabalho que nosso pai o confere em vista da sua responsabilidade, não é um dos melhores amantes, mas eu sei que ele ainda ama a sua primeira namorada agora comprometida com outro homem, a quem diga que eles se encontram em segredo numa casa da montanha que nosso pai deu a ele há três anos atrás, o segundo filho é meu irmão Ector com seus 19 anos dos cabelos negros e olhos também escuros como a água do Rio n***o que deságua nos Oceanos do Norte, tem uma personalidade humorada, mas com os seus 19 anos já entrou em diversos combates locais, pois apesar de sua amável personalidade ele tem sede de aventuras, além disso já se envolveu com diversas mulheres mais novas e mais velhas que ele, temos eu que falarei que estou constantemente se apresentando para voz e depois meu irmão mais novo Willian Philipe, o chamamos de Willy, ele só tem 13 anos é uma criança e passa o dia a observar os animais que encontra e também insetos, que com seus óculos redondos passa a ver cada espécie na sua melhor forma, ele é muito amável e quando não está em suas aventuras passa o dia com minha mãe, deixando que ela alise a todo o instante seus cabelos castanhos quase compridos cobrindo seus olhos verdes quase amarelos.
Eu sou um caso à parte, hoje possuo 17 anos e de fato minha história já está quase clara, meu destino parece querer andar entre dois caminhos, o que meu pai por seus erros me direcionou e o que ele agora tenta a todo custo arrumar pois seu tempo de fato acabou e meu destino parece o cobrar a todo instante.
— Senhorita? Senhorita? Estás sonhando acordada como seu irmão?
De fato eu estava, como minhas mãos apoiadas no parapeito do corredor do segundo andar que dava para os quartos, eu estava a observar a estátua disposta sobre a fonte que tínhamos em nosso jardim interno, onde todos ao acordar e abrir as portas poderiam ver.
— Sim, como sempre faço – disse já lembrando que teria uma conversa sobre meu pai com ela, mas deixei para depois, preferia falar com ela quando estivéssemos sozinhas, o que achava que seria muito difícil no momento.
— Me desculpe, senhorita.
— Diga-me porque ainda me chamas por esse título? Não seria melhor as pessoas saber quem somos?
— Senhorita, não acho que seja uma boa ideia, temos que continuar a manter a discrição.
— Mas diga-me porque veio me importunar? – perguntei com um sorriso
— Temos que arrumar os pertences do seu quarto.
— Vamos – caminhamos para meu quarto que logo estaria vazio, onde eu não dormiria hoje.
Eu que apesar de amar minha família já não aguentava as tantas soluções que meu pai arrumou para nosso infortúnio, decidi ser como Ector e tramei minha própria fuga, fugiríamos eu e minha criada na calada da noite, mas isso teria que ser novamente arquitetado já que meu pai pretendia me mandar embora para as terras de seu irmão ainda hoje, passaríamos pelo menos uns dois dias de viagem na carruagem e mais quinze dias no galeão do comércio que ia zarpar daqui três noites, ficaríamos um dia hospedadas na casa do amigo do meu pai, então eu zarparia com o navio e minha criada estimada iria embora para casa de meu pai novamente, eu odiava dar esse título para ela, mas fugiríamos antes do navio zarpar e foi o que combinamos quando chegamos no quarto, ela me olhou e eu retribui o olhar, por fim fechamos as portas.