Passaram-se três dias e finalmente a vida parecia ter voltado à rotina de sempre e Bárbara adorava essa sensação. Estava sentada à mesa de seu escritório analisando um portfólio, tomando um café fresco, tudo estava em silêncio e a luz do sol entrava sutilmente pelas frestas da persiana conferindo ainda mais tranquilidade ao ambiente.
"Perfeito!" - Pensou.
E então Emily entrou como um furacão pela porta.
- Emily, por acaso já passou por essa cabecinha ruiva a possibilidade de bater antes de entrar? - perguntou Bárbara sem levantar os olhos do portfólio.
- Ah desculpa, mas não passou. Bárbara, lembra que você me disse que talvez algum dia eu encontrasse Daniel McCain atravessando a rua? Acho que não vou precisar disso para conhecê-lo.
- É mesmo? E por que você acha isso? Aliás, reformulando, por que você veio até aqui me dizer isso? - perguntou Bárbara tomando um gole de seu café.
- Porque ele está na recepção.
Bárbara engasgou no mesmo instante, perdendo o ar.
- Como é? - perguntou ainda tossindo.
- Daniel McCain está lá fora e quer falar com você. Aliás, você tinha razão, ele é lindo!
- O que que esse homem está fazendo aqui?!
- Não faço ideia...
- Foi uma pergunta retórica Emily, não se preocupe. Bom, seria uma falta de educação não falar com ele, mas honestamente eu bem que gostaria de pular a janela -disse Bárbara com um suspiro - Mande-o entrar. Não! Espere! Tenho que ver como estou, acabei espirrando café para todo lado. Peça para que entre em cinco minutos.
Emily acenou com a cabeça e saiu e Bárbara foi até o espelho. Arrumou depois algumas coisas que estavam na mesa e se sentou. Então se lembrou que ele estava em pé quando a recebeu e decidiu que talvez fosse mais sensato recebê-lo assim também.
O que ele queria? Por que estava ali?
Respirou fundo e lembrou a si mesma que era melhor manter a calma e uma expressão neutra.
A porta se abriu e ele entrou.
E Bárbara só conseguiu pensar em uma palavra para descrevê-lo: "Impecável".
Sim, impecável, em um terno cinza escuro ainda usando óculos de sol. O cabelo com cada fio em seu devido lugar e a gravata milimetricamente arrumada. Por um momento ela pensou que gostaria de esfregar as mãos na cabeça dele e bagunçar aquele cabelo.
"Como é possível?!" - pensou Bárbara - "Ninguém é tão impecável assim!".
- Senhor McCain - disse ela estendendo-lhe a mão.
- Srta. McNamara - respondeu ele tirando os óculos e retribuindo o gesto.
Foi então que Bárbara deu-se conta de que Emily ainda estava ali, paralisada, observando aquele homem.
- Obrigada Emily.
Emily não se mexeu.
- Emily!
- Sim. - respondeu assustada, acordando de seu devaneio.
- Obrigada.
- Ah, claro, desculpe. - e saiu envergonhada.
Bárbara apontou para a cadeira em frente à mesa e McCain se sentou, com a mesma postura ereta de sempre.
- Aceita um café Senhor McCain?
- Não, obrigado.
- Certo. A que devo a honra de recebê-lo aqui?
- Em primeiro lugar deixe-me dizer que quero que esta seja uma conversa franca, sem meios-termos. Sei que não esperava me receber aqui e sei também que isso de forma alguma representa uma honra, dada a forma como deixou meu escritório em nossa última conversa.
Que petulância! m*l esperou até que ela se acostumasse com sua presença inesperada e já estava comportando-se com arrogância! Bárbara quis levantar da cadeira mais uma vez e deixar a sala, e por um momento quase fez isso antes de se lembrar que aquele era seu escritório.
Isso mesmo: SEU escritório, então se ele queria uma conversa "franca e sem meios-termos" era exatamente isso que teria.
- Pois bem, creio que isso facilita bastante as coisas. Posso então saber o que o traz aqui, uma vez que deixei muito claro meu desinteresse por qualquer coisa que tenha a ver com o senhor ou sua empresa?
- Não sou s***o e também não tenho um intelecto limitado a ponto de não compreender sua total e veemente recusa. Mas também não sou um homem de derrotas Srta. McNamara. Quando decido que algo é importante para mim ou para minha empresa, torno isso possível custe o que custar.
- Honestamente Sr. McCain, perdoe-me a franqueza, mas isso tudo já está se tornando um inconveniente. Eu não quero trabalhar para o senhor e não há o que possa me fazer mudar de ideia, portanto já chega e ...
- Nem mesmo o progresso da empresa de sua família?
- Como é?
- Tem suas prioridades, como eu tenho as minhas. Ficou claro para mim que a empresa de sua família representa a maior delas, seguida por esta agência. Então ofereço-me para atender as suas prioridades, uma vez que atenda as minhas prioridades.
- Não entendi.
- É bastante simples. Há muitos anos a McNamara Têxteis procura um investidor para que possa alcançar o objetivo para o qual foi criada. Aceite o cargo de superintendência que estou lhe oferecendo e eu serei esse investidor.
Por um momento Bárbara duvidou do que estava ouvindo. Aquele homem estava mesmo lhe oferecendo o investimento que sua família tanto havia buscado em troca de que ela aceitasse um cargo de destaque com um salário inacreditavelmente alto? Isso fazia sentido?
- Agora não entendo como isso pode interessar-lhe Sr. McCain. Por que está fazendo isso?
- Eu jamais explico o porquê de meus atos senhorita. Jamais. Simplesmente me interessa que seja assim e assim será.
"Que homem irritante!" - pensou Bárbara - " que tipo de pessoa se acha tão autossuficiente ao ponto de não justificar suas ações quando elas envolvem outras pessoas? Francamente, isso é a coisa mais ridícula que..."
- De qualquer forma - Ele interrompeu seus pensamentos. - Esta é minha proposta: você aceita o cargo que lhe ofereci e em troca me torno investidor da empresa de sua família. Quanto à agência, creio que não seja difícil para você administrá-la à distância e além disso lhe darei flexibilidade para que possa visitá-la quando achar necessário. Devo lembrá-la que minha oferta de investimento não se limita à recursos financeiros. Associar sua empresa ao meu nome lhe dará visibilidade e portas abertas para alcançar o que quer que seja. Talvez pense, por algum motivo que sinceramente não entendo, que fazer essa escolha não é o melhor para você. Porém, me lembro bem da conversa que tive com seu pai quando nos encontramos naquela convenção e ele jamais recusaria uma oportunidade como esta.
- Mas o senhor não lhe ofereceu nada parecido.
- Não me era interessante na época.
- Mas agora é...
- Ou eu não estaria aqui. Espero você na segunda-feira para o início de suas atividades - ele disse levantando-se da cadeira - tenha uma boa tarde.
- Mas eu não aceitei.
- Lhe garanto que nossa próxima conversa será em sua nova sala na McCain Corp. Obrigado por seu tempo. - Virou-se e caminhou em direção à porta, sem que Bárbara deixasse de perceber que, com uma boa dose de ironia, usou a mesma expressão que ela havia usado quando deixou sua sala.
- Sr. McCain alguma outra vez o senhor foi pessoalmente atrás de um profissional para insistir que ocupasse algum cargo em sua empresa?
Ele se virou.
- Srta. McNamara, eu nunca recebi uma recusa. Um profissional que tem a capacidade de me dizer 'não' certamente tem muita coragem. Valorizo isso. Até segunda.
Colocou os óculos de sol e saiu, deixando Bárbara em um estado de total confusão.