O primeiro dia era sempre o mais tranquilo, apenas apresentações e reuniões. Richard, o responsável pelo pólo de Miami iria sair rápido demais, não daria muito tempo de eu me inteirar sobre a situação em que tudo se andava. Hoje mais cedo, ele me apresentou a mulher que me ajudaria nessa difícil tarefa. A senhorita Ashley Johnson. Apesar de seu evidente nervosismo, ela me parecia alguém muito competente e esforçada. Pelas recomendações de Richard, Ashley estava por dentro de cada detalhe da empresa, como uma ótima secretaria ou braço direito.
Além de ser uma mulher extremamente atraente, senhorita Johnson, como eu a chamava, era uma linda morena de traços latinos, seu rosto magro era lindamente modelado, seu nariz era pequeno e a sua boca carnuda, pude notar que os seus olhos eram castanhos. Ela usava um justo e modelado vestido na cor turquesa, ressaltando as suas belas curvas. O seu cabelo era escuro, liso, até o meio das costas, estava parcialmente preso por um delicado laço na parte de trás. Seu olhar era temeroso, e um tanto assustado para mim. O que será que lhe causa tanto medo? O que será que ela sabia de mim? Céus! Fui o mais gentil possível, o que não era de minha natureza, mas a moça assustada merecia gentileza, já que seria praticamente minha companheira a partir dali.
Expliquei à ela a forma como gostava de trabalhar, e de tudo o que eu iria precisar no dia a dia, Ashley pareceu entender tudo perfeitamente bem, anotou algumas das coisas em sua pequena agenda azul. E logo depois se retirou quando eu a liberei.
Estudei pelo resto do dia alguns dos relatórios deixados em minha sala, e pelo jeito tudo estava andando bem por aqui. Mas, como tudo na vida, precisava melhorar – eu pensei.
Mesmo focando naqueles papéis, algo, ou melhor, alguém, me desconcentrava. Desde a noite anterior a dançarina não saia um minuto sequer da minha cabeça. A imagem dela dançando de forma tão sensual estava penetrada em meus pensamentos. d***a, Logan! Como eu poderia deixar uma mulher a qual nem se quer troquei uma palavra invadir o meu espaço tão rápido? Neguei com a cabeça, tentando afastar a imagem daquela morena rebolando de forma sexy para mim – isso mesmo, para mim. Mas era impossível, eu precisava vê-la de novo. No final de seu show, me senti um tanto frustrada e alegre por ela não receber as pessoas, se ela não recebia qualquer um que lhe oferecesse dinheiro, era um tanto de bom caráter... foi quando senti mais vontade de vê-la, mas minha vontade foi recusada.
— Senhor Martínez? – eu ouvi alguém me chamar, tirando Kehlani dos meus pensamentos.
Ashley entrou na sala timidamente.
— Lhe trouxe o café que o senhor pediu, está bem quente – ela falou colocando ao meu lado.
— Obrigada, senhorita Johnson. Sabe me dizer se Richard está na empresa?
Ela caminhou para frente da minha mesa, com a pequena bandeja nas mãos.
— Ele já foi embora senhor, na verdade, a maioria dos funcionários já se foram!
Olhei para ela um tanto confuso. Todos já estavam indo embora? Que horas deveria ser? Peguei o meu celular olhando para o visor e pude perceber que já se passava das oito horas.
— Oh, céus! Já passa das oito! O que ainda faz aqui, senhorita Johnson?
— Bom, senhor... eu estava terminando os relatórios que o senhor me pediu.
— Deixe-os para amanhã, você pode ir para a sua casa. Esqueço das horas, às vezes. Peço que me ajude nisso também, ou é bem capaz de eu lhe fazer trabalhar a madrugada toda!
Ashley assentiu tranquilamente. Eu fitei a mulher parada em minha frente, analisando disfarçadamente. Algo nela me era familiar, eu apenas não sabia o que, talvez fosse loucura. Eu estava ficando tão focada na dançarina que via ela em todas as mulheres que me parecessem atraente. A moça ficou um tanto desconfortável sobre o meu olhar, eu então rapidamente parei.
— Posso ir embora? – ela perguntou, timidamente.
— Claro! Nos vemos amanhã, senhorita Johnson.
— Boa noite, senhor Martínez.
— Boa noite.
Fiquei mais uma hora ali no escritório, travando uma batalha comigo mesmo de ir ou não àquela boate. Eu não podia deixar que alguém me visse ali, o que iriam dizer? Mas a vontade de vê-la novamente era desmedida. Kehlani me enfeitiçou de tal forma que eu só pensava em tê-la para mim. Pensei em ligar para Charles e marcar de nos encontrarmos na Imperium novamente, mas talvez eu devesse ir sozinha.
Levantei-me pegando meu celular e vesti o meu paletó, eu saí daquela sala rumo ao estacionamento onde peguei o meu carro e sai pelas ruas de Miami, andando por alguns quarteirões ao redor da boate, lutando comigo mesmo para me ver longe dali. Por anos eu não me permiti viver mais relacionamentos. É claro que as vezes eu me deixava levar com alguma amiga da faculdade, mas nunca consegui ter tempo de desenvolver um namoro sério. Talvez o meu trabalho tomasse mais tempo de mim do que deveria.
Estacionei o carro em frente à boate, e do lado de fora eu já podia ouvir a musica que tocava em seu interior. Encostei a cabeça sobre o volante pensando que deveria ir embora dali, mas meu corpo como puro instinto resolveu fazer o contrario. Ajeitei o fino cachecol em meu pescoço, e saí do carro caminhando em direção a entrada. Paguei minha entrada, e fui à procura daquela maldita mulher.
Hoje a boate estava menos movimentada, é claro. Quem, em plena segunda-feira, frequentaria boates? Neguei com a cabeça e mesmo assim segui para o enorme balcão central, e comprei uma dose uísque e me sentei lá mesmo. Algumas mulheres dançavam pole dance, mas nenhuma delas se comparava a morena da noite anterior. Fiquei alguns minutos ali, mas talvez hoje não era o dia dela de se apresentar – eu pensei.
— Boa noite, você podia me dizer se a Kehlani vai se apresentar hoje?
Perguntei à uma morena de corpo bem esculpido.
— Kehlani? Ah não, ela não se apresenta hoje, os dias dela são sexta e sábado.
— Mas eu estive aqui ontem, e ela estava se apresentando – falei de forma educada.
— Ontem foi uma exceção. Kehlani dançou por um pedido de Camilo, mas geralmente são nos dias que eu falei mesmo.
Fiquei um tanto desapontado de ir até ali e não vê-la.
— Desculpe pergunta, mas como você se chama?
— Me chamo Kate – ela falou simpática.
— Certo... obrigado, Kate, você me salvou de esperar a noite inteira aqui – falei com um meio sorriso, e desci do banco onde estava sentado.
— Escute, senhor – ouvi a morena me chamar. — Se você quiser vê-la, pode vir amanhã. Kehlani ensaia todas as terças aqui na Imperium, a boate é aberta, mas, como hoje não tem tanto movimento.
Sorri no mesmo instante para a mulher que me deu a melhor noticia.
— Você, com toda certeza, me ajudou muito. Obrigado! – falei.
Kate me lançou um sorriso, e eu o retribui, e logo em seguida sai dali, indo em direção à minha casa.