Jade Fortune
Sigo em direção à cozinha, para tomar meu café da manhã e depois ir para a academia. Vejo que todas estavam na cozinha, a maioria estava cochichando entre si. O que estava acontecendo?
— Bom dia, meninas — digo enquanto pegava um pouco de café para mim.
— Jade, chegou uma nova garota— disse Luna enquanto se aproximava de mim.
Uma nova garota? Me lembro que as últimas a chegarem aqui foram eu e Luna, cerca de anos atrás. Por que Caspian aceitaria uma nova garota nessa época do ano? O inverno está chegando e com isso o movimento na cidade é mais monótono.
— Onde está Ivy? — pergunto para Luna.
— Foi recepcionar a garota!
— E por que todas estão com essas caras? — observo Luna com a sobrancelha arqueada, enquanto esperava a resposta.
— Bem… Dizem que ela foi vendida para o Caspian! — Sua voz sai quase como um sussurro, porém eu compreendi perfeitamente.
Meu peito se enche de tristeza. Me levanto rapidamente e sigo em direção à sala de Caspian. Ouço as meninas me chamarem, mas apenas ignoro e sigo caminhando.
Sei o quanto é difícil viver esse momento, e o quanto precisamos ser acolhidas. Eu tive a enorme sorte de ter Ivy em minha vida. Ela me deu um enorme apoio todos esses anos, principalmente no meu primeiro ano aqui. Inclusive, com alguns meses morando aqui, descobri que Ivy havia passado pelo mesmo que eu, também tinha sido vendida ao Caspian por sua família.
Por isso, sempre senti que ela era a única que realmente entendia o que eu estava sentindo, mas eu nunca soube explicar o porquê. Até descobrir a verdade sobre seu passado.
Ao subir as escadas, dou algumas batidas na porta da sala de Caspian, então ela é aberta.
Me deparei com a garota no canto da sala, sentada no chão, com a cabeça entre os joelhos, enquanto chorava. Ivy estava ao seu lado conversando, enquanto Caspian e um homem de aproximadamente 50 anos conversavam.
— Ótimo ter você aqui! — Caspian sorri ao me ver entrar — Ajude a levar a garota daqui!
Assenti, sem dizer uma palavra e segui em direção à menina.
Ivy me olhou, aparentemente triste pela situação, assim como eu. Me ajoelhei, ficando próximo à menina.
— Me chamo Jade. Qual o seu nome?
— Eu não quero falar com você, nem com ninguém! Eu só quero ir embora! — sua voz sai abafada.
— Olha, eu sei como você se sente…
— Você não sabe! — ela me interrompe, demonstrando sua raiva, ela levanta seu rosto, e olha em meus olhos — Você por acaso foi vendida para esse lugar? Claro que não! Ninguém nunca vai me entender!
— Na verdade… — Ivy, que até então estava em silêncio, começou a falar — Eu e Jade, fomos vendidas, assim como você!
Vejo a surpresa no rosto da garota.
— É sério? — ela pergunta incrédula.
— Sim! Nós passamos pela mesma coisa que você está passando! — digo e vejo em seus olhos a curiosidade por saber mais — Sei que não é fácil, sei que dói muito. Mas talvez, se você sair daqui e vir com a gente, podemos te ajudar a melhorar todo esse sentimento.
Ela apenas assentiu e então nos levantamos. Seguimos para fora da sala, e descemos as escadas, segui para o meu quarto e ao entrar, ofereci a ela um pouco de água. Ela se sentou na cama de Luna e aceitou o copo d'água.
— Há quanto tempo você está aqui? — ela me pergunta curiosa.
— Cinco anos — dou um sorriso fraco.
Seus olhos se arregalaram e ela pareceu ainda mais assustada.
— Vou buscar algo para você comer, fique aqui com Jade, ok? — Ivy diz olhando para ela, que concorda. — Não assuste ela demais!
Ivy sai, deixando nós duas a sós.
— Posso perguntar uma coisa? — sua voz é baixa e curiosa. Assenti. — Por que vocês duas não fogem daqui?
— Porque não é tão fácil! — tento ser o menos pessimista possível.
— Por que não? Vocês parecem estar livres aqui, e eu já te vi pela cidade, você estava comprando sapatos em uma loja que eu trabalhava.
— E realmente somos livres para irmos aonde desejarmos, na cidade. O importante é cumprir com nossas obrigações a noite! — Digo com um sorriso falso no rosto — Recebemos uma parte do valor que conquistamos a noite.
— E então o que impede vocês de fugirem? Vocês têm dinheiro, por que não juntam e fogem? — Ela pergunta como se fosse a coisa mais fácil do mundo, o que me faz rir um pouco.
— Acho que é melhor conversarmos sobre isso depois! É muita informação para sua cabeça no momento. — Me levanto da cama e ela segura meu braço.
— Por favor, Jade! Eu quero saber! Quero entender toda verdade.
Respiro fundo e me sento ao seu lado.
— Primeiro, quero saber mais de você, como o seu nome, quantos anos tem, como veio parar aqui. — digo e ela concorda.
— Me chamo Ayla — ela sorri ao dizer.
— Ayla é um nome lindo — esboço um sorriso sincero. — Você sabe o significado?
— Minha avó sempre me contou vários significados, mas o que eu mais gosto é “Luz da Lua”
— Realmente, combina com você!
— Eu tenho 19 anos e… meu avô me trouxe para esse lugar… — a decepção era nítida em sua voz — Mas, agora me explica, por que não é tão fácil fugir desse lugar?
— Porque essa cidade é comandada pelo Caspian, ele é o dono da boate, o homem que comprou você. — digo séria, e ela parece surpresa — Ele comanda todos os lugares que você imaginar. — Seu corpo agora estava tenso — Se quiser fugir de avião, ele controla o aeroporto. Se quiser fugir de carro, ele controla as rodovias, se pedir ajuda na polícia, ele controla os policiais.
A cada palavra, eu via a esperança se apagar em seus olhos, como uma vela sendo suavemente apagada. Sabia que a verdade era c***l, mas era a mesma verdade que me havia dado forças para seguir em frente. Talvez a dor fosse inevitável, mas eu precisava que ela entendesse.
— Caspian não é somente o dono da Fever Dream, ele é o dono de Las Vegas!
As lágrimas escorriam em seu rosto como cachoeiras, me senti impotente por não saber como ajuda-lá. Então fiz a única coisa que estava ao meu alcance, abracei ela com força. Na esperança de passar um pouco de conforto nesse momento horrível.
— Então quer dizer que eu nunca vou sair daqui? — perguntou, chorona.
— Nunca é uma palavra muito forte, só não digo que vai ser hoje ou amanhã. Mas em algum momento você estará livre de novo— digo tentando mais me convencer do que convencer a ela. — A liberdade é como um pássaro aprisionado. Mas com tempo e cuidado, ele aprenderá a voar novamente. E nesse momento, você é esse pássaro, Ayla.
— Obrigada por tentar me ajudar, Jade!
— Você é uma sobrevivente, Ayla. E os sobreviventes são os mais fortes. — sorrio ao me lembrar de quando Ivy me disse essa mesma frase — Somos uma família agora, você não está sozinha!
Ela sorri e faço o mesmo.
— Agora deite um pouco, Ivy já deve estar trazendo algo para você.
Me levanto da cama.
— Para onde você vai? — perguntou, curiosa.
— Ensaiar minha apresentação de hoje a noite. — respondo.
— Posso assistir?
Assenti sorrindo e ela se levanta. Saímos do quarto e no corredor, o aroma de café recém-feito nos guiou até Ivy. Com um sorriso gentil, ela entregou a Ayla um prato com frutas e um copo de suco. Seguimos em direção ao palco, onde algumas já estavam ensaiando, o som da música já ecoando pelo espaço. Ayla se acomodou no chão, seus olhos fixos na barra de pole dance onde eu estava. Enquanto deslizava pelo metal, sentindo a adrenalina pulsar em minhas veias, a vi me observar com uma mistura de admiração e espanto.
— Quer tentar? — pergunto.
— Melhor não — negou receosa.
Aproximei-me dela e a levei para perto da barra. Enquanto a ensinava os primeiros passos, senti uma conexão especial se formando entre nós. Começamos com os movimentos mais simples, e a cada novo passo, a vejo se soltar mais. A alegria nos olhos dela era contagiante. Passamos a tarde imersos naquele universo, a conversa fluindo entre um ensaio e outro. As meninas chegaram aos poucos, e Ayla se encaixou no grupo com naturalidade. A pausa para o almoço foi breve, a ansiedade pela apresentação me impulsionava. Hoje, a coreografia seria especial. A estética terrosa, em sintonia com a chegada do outono, prometia uma apresentação única. Para a ocasião, escolhi um figurino que complementasse a atmosfera da estação.
Quando a noite foi se aproximando, fui para o meu quarto me arrumar, tomei um banho longo, com direito a esfoliação na pele e lavagem do meu cabelo. Após o banho, voltei para o quarto e logo vesti a roupa escolhida para a noite. Sequei meu cabelo e fiz uma maquiagem na paleta de cores da minha roupa. Quando finalmente estava pronta, passei o meu perfume e fui até o espelho.
Olhei-me no espelho, a luz amarelada do espelho acentuando cada curva do meu corpo. A roupa cobria pouco, mas me vestia perfeitamente. Um top de renda marfim, tão justo que parecia uma segunda pele, moldava meus sei0s e realçava a tatuagem delicada que serpenteava pela minha costela. A saia, uma micro saia de couro marrom, terminava um pouco abaixo do quadril, revelando as longas pernas torneadas. A f***a lateral, generosa, permitia liberdade de movimento e um vislumbre estratégico da coxa. Por baixo, uma calcinha do mesmo couro da saia.
As botas, de cano alto e salto fino, eram da mesma cor do couro da saia, e me faziam sentir poderosa e confiante. Cada detalhe da roupa, desde o brilho discreto dos strass no top até o zíper dourado da saia, havia sido escolhido com cuidado. Era sensual, mas sem ser muito vulgar, e o mais importante: funcional. A roupa era leve e confortável, perfeita para os movimentos ágeis do pole dance.
Respirei fundo, sentindo a adrenalina pulsar em minhas veias. A coreografia nova estava na ponta da língua, e eu já podia sentir a música ecoando em meus ouvidos. A estética terrosa da apresentação, com tons de marrom, dourado e verde musgo, combinava perfeitamente com a roupa. Eu me sentia bonita, confiante e pronta para conquistar a pista.
Sai do quarto e atrás do palco pude ver as meninas, todas me olhando com admiração.
— Você está perfeita! — Ayla diz admirada.
— Perfeita é pouco! Está uma grande gostos@! — Giselle diz animada, o que me faz rir — E parece que seu cliente favorito adivinhou!
Arqueio a sobrancelha, confusa.
— Que cliente? — perguntei confusa.
— Você vai ver, baby! Agora é a hora do seu show! — Giselle apaga as luzes do palco e inicia a música escolhida por mim.