Essa era é um saco, me pergunto se nos próximos séculos isso irá mudar, bom, eu espero que sim, afinal, eu ainda tenho muito para viver e espero que as coisas fiquem bem agitadas para mim no futuro, pensar nisso me faz olhar para Machiavelli, meu irmão mais velho tende a ter ideias interessantes, mas acho que ele errou ao nos apressar para seguir viagem rumo ao sul, segundo ele há algo que eu gostaria de ver durante nossa viagem com destino a vila Blackwood, a vila onde Kora e ele decidiram que seria interessante criar uma ordem com um propósito de nos servir, eles a denominaram como " pink lady's slippers ", o mesmo nome da orquídea que marcou o dia em que nasci, " a orquídea sagrada " como eles adoram chamar.
Esses dois não cansam de me surpreender com suas bobagens.
No entanto, devo admitir que foi uma boa ideia.
Afinal, eu tenho muitas sementes a espalhar por aí ainda, minha hora de cumprir meu papel nesse jogo da vida ainda não chegou, a roda da fortuna ainda está sorrindo para mim e mesmo que eu saiba que isso não irá durar por mais tempo, não quer dizer que eu tenha que ficar parada, afinal, eu sou o demônio de Jersey, esse lugar inteiro se tornará parte de tudo aquilo que eu venho construindo por séculos, pouco a pouco, dia após dia, foram anos e anos me divertindo por toda essa terra e assegurando que no futuro a roda da fortuna tornará a girar em meu favor. Olho pela janela da carruagem e observo que a estrada de terra aqui está mais alinhada do que estava há léguas atrás, o que indica que estamos perto de alguma vila e é com essa certeza que eu encaro meus irmãos com uma expressão divertida.
- Pretendem fazer uma pausa em nossa viagem? - pergunto e vejo Kora sorrir, enquanto Machiavelli retira o chapéu que cobria seu rosto. Essa mania dele é algo muito particular, afinal, eu sei que quando ele faz isso é porquê sua mente maligna está tramando algo, enquanto ele finge que descansa tranquilamente.
- Eu tô precisando de uma bebida. - diz Kora e eu sorrio de canto arqueando as sobrancelhas.
- Você ainda não tem idade para beber. - digo divertida e ela revira os olhos.
- Se formos contar nos anos humanos, eu já tenho mais do que idade suficiente para beber. - diz descontente com a minha brincadeira e sua expressão indignada me faz rir.
- Minhas adoráveis meninas, não vamos tomar um caminho para uma possível discussão inútil só porquê vocês se amam tanto que não podem conter esse amor por um momento. - diz Machiavelli chamando nossa atenção para ele que tem uma expressão tranquila e uma sobrancelha arqueada, enquanto ajeita o chapéu em sua cabeça. - Vamos fazer uma pausa para relaxar, nosso cocheiro precisa de descanso e nós de uma boa bebida. - completa sorrindo de canto e então eu entendo que há algo nesse lugar, algo que ele quer que eu veja e esse retorno antecipado para Blackwood foi uma maneira de me mostrar tal coisa.
- O que há nessa vila a caminho do sul irmão? - pergunto e ele olha para Kora que sorrir para ele e em seguida me olha.
- Você deverá ver com os seus próprios olhos irmã. - responde Kora com uma expressão divertida e eu sorrio assentindo.
- Tudo bem, irei aguardar o momento adequado para saber do que se trata esta viagem de retorno tão precoce. - digo e meus irmãos trocam sorrisos. - Vejo que vocês andam tramando bastante pelas minhas costas. - completo divertida e ambos arqueam a sobrancelha esquerda em sincronia e eu faço uma careta achando graça da maneira como eles se olham e reviram os olhos em seguida ao se darem conta da situação.
- Sempre minha querida irmã. - diz Machiavelli divertido e em seguida mexe as sobrancelhas freneticamente, mas em seguida é atacado por Kora que acerta seu rosto com um travesseiro, fazendo seu chapéu cair no chão e eu não consigo conter o riso, sabendo que nossa irmãzinha vai ouvir um longo monólogo sobre etiqueta.
Isso me faz lembrar de quando eramos crianças e Kora vivia tentando nos copiar em absolutamente tudo, minha irmã caçula sempre teve uma admiração acima da média por seus irmãos mais velhos, ela sempre nos viu como um exemplo a seguir e isso durou por alguns séculos, séculos suficientes para que ela amadurecesse, evoluísse e começasse a aflorar seus sentidos, se conhecer e assim formar sua própria personalidade. Devo dizer que minha irmã tem uma personalidade muito peculiar e que algo raramente a tira do sério, ela sempre está rindo de tudo, mas principalmente em momentos inusitados e essa é uma das coisas que eu mais gosto nela, apesar de não expressar isso, no entanto, obviamente isso está longe de ser a única coisa que eu gosto nela, eu admiro meus dois irmãos igualmente, ambos são criaturas peculiares e possuidores de grandes capacidades, tê-los ao meu lado é algo do qual pretendo continuar disfrutando enquanto ainda tiver a capacidade de sentir, minha alma está condenada a se perder, eu estou destinada a cair, afinal maldições hereditárias são um grande problema até mesmo para demônios, no entanto, eu não irei me render assim, eu tenho plena consciência de como virar a roda da fortuna á meu favor, vai levar um bom tempo, mas eu estou disposta a tudo para destruir o meu karma para sempre.
Eu irei quebrar essa maldição e pagar a minha penitência.
Nada irá me parar, por bem ou por m*l, eu terei o que desejo.
Eu irei até o fim do mundo para encontrar aquilo que pode mudar tudo para mim.
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Quando finalmente chegamos a vila, a primeira coisa que me chamou atenção foi a falta de crianças brincando livremente, o que me deixou curiosa para saber se essa vila sofre com alguma praga que ceifa a vida de suas crianças, olho para Machiavelli me perguntando se ele me trouxe aqui com o propósito de que eu faça algo em relação a sombra que ronda essa vila. Meu irmão, no entanto parece bem focado em fingir que está distraído olhando tudo a sua volta, o que me faz querer revirar os olhos, mas me contenho, principalmente quando vejo um grupo de pessoas se dirigindo na direção oposta a qual estamos, meus irmãos curiosos seguem as pessoas de imediato e sem alternativa eu faço o mesmo, o que nos leva a uma capela de madeira, não é uma estrutura grandiosa ou chique como a da última vila que estivemos, onde há muitos mais devotos da religião cristã e diferente de outras capelas em que já estive, essa não transmite nenhuma boa vibração, pelo contrário, eu tenho a sensação de que há um predador ali dentro, aguardando ansiosamente o momento de por suas garras em sua próxima presa. Sigo em silêncio para dentro junto de meus irmãos e assim vimos as demais pessoas ali, nós nos sentamos em um dos últimos bancos de madeira, observo todos ao redor e posso sentir a ansiedade emanando de cada um ali presente, todos parecem aguardar por algo grandioso e eu tenho a sensação de que devo ficar de olhos bem atentos no que virá a seguir e é exatamente isso que faço, e não demora muito para que um homem que aparenta ter entre trinta e quarenta anos surja e se dirija até o centro da capela, ficando de pé atrás de um púlpito de madeira simples e gasto, ele usa um chapéu preto de couro, seu cabelo é longo e escuro, caindo por seus ombros de maneira alinhada, sua barba é um pouco grande e falha próximo as orelhas, também escura, ele tem olhos azuis escuros como o céu se preparando para uma grande tempestade, suas vestimentas são simples como a de um camponês, no entanto o tecido de suas vestes é de alto padrão, o que indica que ele é um homem de posses, também há uma abotoadura de crucifixo de prata em seu colarinho que indica que ele é o reverendo desta cidade, um homem de certa maneira jovem, de boa aparência e que deve ter boas terras é o reverendo de uma vila tão atípica e simplória como essa, isso não faz sentido para mim.
Sinto que há algo muito errado com este homem.
Talvez eu me divirta um pouco nessa vila.
Aguardo ansiosamente o discurso do homem e quando ele o inicia tranquilamente, seu tom de voz me chama a atenção, ele fala de Deus como se estivesse falando de uma criatura qualquer em um casa dos prazeres fedida afastada da vila, um lugar onde acontece de tudo e qualquer assunto se torna banal diante de tantas bebidas e mulheres que estão dispostas a dormirem com homens de todo o tipo por alguns trocados, algumas por vontade própria e outras por falta de escolha ou opção, mulheres que foram vendidas por seus pais ou maridos para pagar dividas que sequer foram feitas por elas, vítimas de atos cruéis e irresponsáveis de terceiros, há também aquelas que perderam tudo, seus lares, sua família, seu dinheiro e assim tiveram que buscar na vida de promiscuidade um refúgio com a esperança de que fosse algo temporário, que algum dias seriam salvas de seus destinos cruéis. Acho que estou começando a divagar demais sobre coisas que não são relevantes agora, volto minha atenção para o homem caminhando entre os bancos, olhando a sua volta com atenção, ele cumprimenta algumas pessoas que parecem ser conhecidos seus de longa data, ele discussa entre tais atos e acaricia a cabeça de algumas crianças de uma maneira bem carinhosa.
- Nossa vila está sendo vítima de uma criatura maligna que ataca e rouba nossas crianças. - diz com um tom altamente preocupado e eu não consigo conter o sorriso que se forma en meus lábios ao ouvi-lo. - Essa criatura tem tirado nossas crianças de nós, mas podemos impedi-la se voltarmos nossos corações para o criador e tornar nossas crianças frequentes a este lugar sagrado. - diz e em seguida volta sua atenção para algo na entrada, me viro e vejo um garotinho entrar na igreja com uma expressão apavorada.
- Reverendo, a minha irmã, eu não consigo encontrá-la, por favor, me ajude. - diz o garoto desesperado e o homem fica sob um joelho só e agarra seu rosto com as duas mãos.
- Não se preocupe, iremos procurar incansavelmente por ela e eu só descansarei quando a encontrar. - diz olhando nos olhos do garoto que cai no choro e o abraça em resposta.
- Por favor, a encontre. - pede e o homem o abraça de volta.
- Montaremos um grupo de busca, homens, peguem suas armas e tochas e me encontrem aqui em meia hora, essa noite faremos uma busca pela floresta. - diz o padre ficando de pé com o garoto em seus braços. - Temos que lutar contra esse m*l que assombra nossa vila ou perderemos todas as nossas crianças. - completa com um tom firme e uma expressão furiosa, ele claramente está influenciado os demais.
- Pode contar comigo. - diz um homem baixinho e de barriga bem avantajada, sua barba ruiva e olhos azuis ficam bem destacadas devido a sua pele alva.
- Comigo também, não podemos continuar perdendo nossas crianças. - diz outro homem e em seguida vários outros começam a confirmar sua participação nesta empreitada.
Sinto os olhares de meus irmãos sobre mim e em resposta sorrio de canto, eu sei bem o que estão pensando e eu concordo que acompanhar essa caçada seria deveras interessante. Volto minha atenção para o reverendo que agora acaricia os cabelos do garoto com afeição, enquanto os demais vão saindo aos pouquinhos, as mulheres e crianças em silêncio, enquanto os homens fazem barulhos e ameaças contra a tal criatura maligna, enquanto a mim e meus irmãos, bem, nós permanecemos sentados aguardando todos saírem para que assim possamos fazer o mesmo, no entanto, meus olhos estão focados naquele homem, porquê ele é o tipo de criatura mais profana que existe, seres imundos que falam com tanta soberba sobre aquilo que sequer verdadeiramente entendem, isso me enche de repulsa e fúria, profanar as palavras do criador é algo demais até mesmo para demônios e essas criaturas fracas e frágeis as fazem com tanta facilidade e veemência como se fossem os reis da sabedoria, eu gostaria de poder aniquilar todos, no enquanto me contento em aniquilar aqueles que tem o azar de cruzarem o meu caminho. Sorrio encarando o reverendo agora conversando algo com o garoto e em seus olhos há luxúria, perversão e pecado, isso transbordando através de suas palavras reconfortantes.
Verme insolente, eu quero esmaga-lo com minhas próprias mãos, mas não é o momento.
Por enquanto irei apenas observar o que está para acontecer, afinal essa vila pode se tornar um prato cheio para mim.
_________________ Continua ________________