Ryan Walker / 1 ano depois
Hoje faz um ano!
Um ano desde que a minha vida virou um pesadelo, desde que minha pequena Liza foi atingida naquele atentado. Ela ainda está lá, no hospital, presa em um coma, enquanto eu visito aquele quarto todos os dias. Sempre seguro a sua mão e converso com ela, e sempre mantendo a minha promessa: "Eu vou encontrar quem fez isso com você."
A investigação levou a um nome: Harrington. Uma das famílias mais influentes de Miami. Proprietários de uma empresa no ramo da aviação, eles eram conhecidos pela fortuna e reputação impecável. Patrick Harrington, o patriarca, comandava os negócios ao lado do filho do meio, Jonathan Harrington, enquanto os outros dois filhos, Madison e o mais velho, não tinham envolvimento direto com a empresa. Mas em uma família como essa, os segredos correm nas sombras.
Eu estava seguindo Madison hoje. Ela era diferente dos outros Harringtons, ou pelo menos parecia. Jovem, independente, fotógrafa. Estava em um parque no centro de Miami, um lugar que exalava vida. O ar cheirava ao sal do mar, misturado ao perfume das flores tropicais. Havia crianças correndo atrás de pipas, famílias sentadas em piqueniques, casais caminhando de mãos dadas. Madison andava lentamente, com uma câmera pendurada no pescoço, registrando cada momento.
Essa garota parece tão desconectada da sujeira em que a sua família pode estar envolvida. – murmurei comigo mesmo.
Ela focava em pequenos detalhes: o sorriso de uma criança, o reflexo do sol na água de um lago próximo, um pássaro descansando no galho mais alto. Eu estava a poucos passos atrás, mantendo distância suficiente para não ser notado, mas perto o bastante para não perdê-la.
De repente, ela deixou o parque e começou a caminhar por ruas mais desertas, em direção a uma área industrial da cidade. A paisagem mudou; o colorido dos brinquedos e das flores deu lugar a prédios desgastados, grafites e ferrugem. Ela parecia hipnotizada pela atmosfera do lugar, fotografando portas descascadas, janelas quebradas e trilhos abandonados.
Foi quando ela entrou em uma antiga fábrica abandonada.
Eu hesitei. Não queria que ela me visse seguindo-a, mas algo no ambiente me deixou em alerta. O lugar estava quieto demais, como se o ar estivesse pesado. Esperei do lado de fora, observando, até que vi o movimento do outro lado do prédio. Homens armados.
Minha pulsação acelerou.
- O que diabos está acontecendo aqui?
Sem pensar duas vezes, segui Madison para dentro da fábrica. O interior era sombrio, com luzes filtradas por frestas nas paredes de concreto. Pilhas de metal enferrujado estavam espalhadas, criando sombras ameaçadoras a cada passo.
De repente, ouvi o som seco de um disparo.
Meu coração disparou, e as minhas pernas se moveram sozinhas. Segui o eco do tiro, o som reverberando pelas paredes. Quando virei um corredor estreito, encontrei a cena: um homem segurava Madison pela cintura, uma arma apontada para sua cabeça. O medo estampado nos olhos dela era tão intenso que quase podia ser tocado.
- Larga ela, agora! – falei, minha arma já em punho.
O homem se virou para mim, ameaçando atirar. Antes que pudesse reagir, corri na direção dele e agarrei seu braço. A luta foi brutal. Ele era forte, mas eu estava movido por adrenalina e anos de treinamento. Troca de socos, corpos batendo contra paredes. Quando ele tentou levantar a arma novamente, torci seu braço com força até ouvir um estalo. Com um movimento final, quebrei seu pescoço.
Ele caiu no chão com um baque surdo.
Olhei para Madison, que ainda estava imóvel, o rosto pálido, lágrimas escorrendo pelo rosto.
- Você está bem? – perguntei, tentando soar calmo.
Ela balançou a cabeça, negando, incapaz de responder. Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, novos disparos ecoaram pela fábrica.
- Precisamos sair daqui, fica atrás de mim! – ordenei, agarrando a sua mão e colocando-a atrás de uma pilha de caixas velhas.
Os tiros vinham de várias direções. A fábrica parecia um labirinto de concreto e metal, e os homens armados estavam tentando nos encurralar. Atirei contra eles enquanto tentava avançar com Madison, meu foco dividido entre protegê-la e neutralizar as ameaças.
Houve um momento em que ela tropeçou e quase caiu.
- Levanta, agora! – sussurrei, puxando-a pela mão. Cada segundo parecia uma eternidade, e eu podia sentir seu pânico aumentando a cada disparo.
Consegui levá-la a um canto seguro, protegendo-a atrás de uma parede enquanto me posicionava para revidar. Os homens caíam um por um, mas eles continuavam vindo. "Por que diabos eles estão aqui? E o que Madison tem a ver com isso?" pensei comigo.
Depois do que pareceu uma eternidade, o silêncio finalmente tomou conta do lugar. O cheiro de pólvora e metal quente preenchia o ar. Confirmei que todos os atacantes estavam neutralizados antes de voltar para Madison.
Minha respiração estava pesada. Olhei para o corpo sem vida do homem, depois para o chão, onde algo pequeno brilhava sob a luz fraca. Era um cartão de memória, provavelmente caído da câmera de Madison. Peguei o objeto rapidamente, guardando-o no bolso antes de voltar a minha atenção para ela.
Ela estava encolhida atrás da parede, os joelhos abraçados ao peito, os olhos arregalados. Quando me aproximei, ela levantou a cabeça e me olhou com tanto desespero que senti um aperto no peito.
- Você está bem? – perguntei novamente.
Dessa vez, ela não respondeu. Em vez disso, se levantou e me abraçou, soluçando descontroladamente contra o meu peito.
Fiquei imóvel por um momento, surpreso com o gesto. Mas logo senti algo diferente. A vulnerabilidade dela mexeu comigo, como se por um instante, toda a dureza que carrego tivesse rachado.
- Acabou. – eu disse. –Vamos sair daqui.
- Obrigada. – ela sussurrou, ainda abraçada a mim.
Segurei sua mão e a guiei para fora daquele inferno. Quando finalmente saímos, a brisa pareceu aliviar um pouco a tensão. Olhei para ela, que ainda tremia.
- Agora, me diz. O que diabos você estava fazendo ali dentro?
Madison olhou para mim com os olhos cheios de lágrimas.
- Eu... eu vi eles matando alguém. – ela finalmente respondeu, sua voz falhando. – Eu fotografei tudo... mas joguei o cartão de memória fora, quando aquele homem apareceu apontando a arma para minha cabeça.
Minhas sobrancelhas arquearam.
- Jogou fora?
Ela assentiu rapidamente, o pavor evidente em sua expressão.
- Eu pensei que seria mais seguro assim... mas acho que eles descobriram. Eles estavam me perseguindo.
Minhas mãos instintivamente foram ao bolso onde o cartão estava. “Ela acabou de colocar um alvo nas costas, e nem faz ideia disso”. Mas não falei nada, ela já estava assustada o suficiente. Não ainda.
Quando ela começou a chorar novamente, não consegui evitar o aperto no peito. Madison parecia tão vulnerável naquele momento, tão diferente de qualquer coisa que eu esperava encontrar na investigação dos Harringtons.
- Você está segura agora. – murmurei sabendo que era mentira, tentando confortá-la.