Jason
Entro pelo portão de ferro negr0, cujas grades delicadamente ornamentadas têm um ar quase solene, e avanço devagar pela estrada de paralelepípedos, sentindo o cheiro da terra úmida que se mistura ao frescor da maresia. A brisa traz consigo um toque salgado, quase doce, como uma promessa de calma escondida na paisagem à frente. Ao redor, as árvores formam um túnel natural sobre o caminho, suas copas verdes entrelaçadas como se sussurrassem segredos umas às outras. A luz do sol penetra entre as folhas, criando feixes dourados que dançam pelo chão em um espetáculo que parece quase mágico.
O som rítmico dos pneus sobre as pedras ecoa levemente, complementando o canto suave dos pássaros que se esconde entre os galhos. Cada detalhe parece conspirar para criar uma atmosfera de tranquilidade, como se este lugar fosse um refúgio secreto, intocado pela pressa ou pelo caos do mundo lá fora. Um pedaço de paz, guardado com cuidado.
Mais adiante, à minha direita, percebo o lago que surge como um espelho distante, a cerca de trezentos metros. Suas águas são serenas, tão imóveis que refletem o céu como uma pintura viva. Nas margens, uma praia de areia clara se estende em curva graciosa, enquanto um deque de madeira avança com simplicidade elegante sobre o lago. Ele parece me chamar, como se esperasse alguém disposto a se sentar, mergulhar em seus pensamentos ou simplesmente contemplar a beleza das águas. Sei que, se seguir a trilha pela mata, encontrarei outra praia, onde o mar se esconde entre as árvores, guardando segredos em suas ondas e sussurrando histórias antigas para quem estiver disposto a ouvir.
Finalmente, a casa principal surge à minha frente, majestosa em sua simplicidade. A construção, de um branco impecável, reflete a luz do sol com uma pureza que parece quase etérea. Um alpendre espaçoso envolve toda a fachada, suas redes estrategicamente penduradas em cantos que convidam ao descanso preguiçoso. Vasos de plantas exuberantes, com folhas largas e verdes intensos, pontuam o espaço, como se a natureza tivesse decidido contribuir com seu próprio toque de beleza. Sobre uma parte do alpendre, um caramanchão de Primaveras em flor explode em tons de vermelho vibrante, projetando sombras vivas e dramáticas que parecem uma obra de arte natural, contrastando com o branco puro das paredes.
Enquanto contemplo a cena, um sentimento estranho começa a crescer em mim. É como um sussurro no fundo da mente, um déjà-vu inquietante que faz meu peito apertar. Essa casa me parece inexplicavelmente familiar, como se eu já tivesse vivido momentos aqui, mesmo que minha memória negue. Há algo de quase vivo nesse lugar, uma presença que me observa, esperando por mim. Essa conexão é tão profunda que me surpreende perceber que nem mesmo a casa da minha irmã provoca tal sensação. Aqui, porém, cada detalhe parece carregado de significados, como peças de um quebra-cabeça que me pertence, mas que ainda não sei montar.
Estaciono ao lado de um Dodge azul marinho que repousa sob uma área coberta, sua pintura brilhando sob o sol. Desço do carro, inspirando fundo enquanto deixo o ar cálido e fresco preencher meus pulmões. A casa principal continua a me atrair, mas sei que minha estadia será em outro lugar. Um pouco mais afastado, entre a casa e o lago, vejo o chalé onde vou ficar.
O chalé, de madeira escura e janelas amplas, parece ter sido moldado pela natureza ao seu redor. Sua fachada é acolhedora, rústica, quase discreta, misturando-se perfeitamente à vegetação exuberante. É um lugar que parece feito para quem busca refúgio, um canto tranquilo para escapar do mundo. Atrás dele, uma trilha sinuosa desaparece na mata, um convite silencioso para explorar os mistérios que ela guarda.
Ajusto meus óculos escuros e começo a caminhar em direção ao chalé, sentindo o calor das pedras sob os pés através dos sapatos. Cada passo parece sincronizado com o pulsar deste lugar, como se ele respirasse em harmonia com a minha presença. Ao chegar, paro por um instante e olho ao redor. Aqui, cercado por essa natureza intocada, sinto-me envolvido por uma paz rara e preciosa. É como se essa terra, com toda sua beleza e mistério, estendesse os braços e me abraçasse, compartilhando comigo seus segredos mais íntimos.
Jéssica
O som de pneus se aproximando quebra o silêncio tranquilo da tarde. Primeiro, um ruído distante, como um aviso sutil, depois o barulho grave do motor diminuindo e o leve ranger das pedras quando o carro estaciona. Então, o som seco da porta se abrindo e fechando ecoa no ar, cada movimento tão claro que parece amplificado. Meu coração dispara antes mesmo de eu entender o motivo, uma reação involuntária, quase instintiva.
Sinto um formigamento no fundo da mente, um alerta silencioso que me faz abandonar o que estava fazendo e caminhar até a varanda. Minha respiração já está presa quando alcanço a porta, e, ao sair, vejo-o de costas. Um arrepio gélido corre pela minha espinha, paralisando-me por um instante. É como se uma sombra que eu julgava enterrada no passado tivesse acabado de ressurgir, mais real do que qualquer lembrança que me atormentara até agora.
Ele está ali, alto, com os ombros largos e postura que carrega um ar de familiaridade inquietante. Os cabelos negros continuam os mesmos, mas agora, nas laterais, as mechas grisalhas que antes eu ignoraria parecem gritar algo sobre o tempo que passou. O contraste é marcante, como se ele carregasse a marca dos anos vividos de uma forma que o tornasse ainda mais impossível de ignorar.
Meu coração aperta, como se fosse incapaz de processar o turbilhão de emoções que me invade, e a garganta se fecha em um nó que m*l me deixa respirar.
Jake...