Jason
Na manhã seguinte, levanto-me por volta das nove. Tomo um banho demorado, tentando lavar a tensão acumulada dos últimos dias. A água quente escorre pelo meu corpo, levando com ela a exaustão que se infiltrou nos meus ossos. Visto uma calça jeans escura, uma camisa branca e sapatos de mocassim. Massageio o pescoço, tentando aliviar o peso de algo que nem consigo nomear, e sigo para a sala com minhas duas malas em mãos, deixando-as num canto.
Assim que Eleonora me vê, abre um sorriso, mas noto uma sombra de tristeza em seu olhar. Ela tenta esconder, mas não consegue. Retribuo o sorriso, e ela logo assume um tom mandão, típico dela, como se quisesse mascarar o que realmente sente.
— Sente-se, Jason, e tome seu café antes de ir — ordena com ares de quem não aceita um “não” como resposta.
Sorrio, divertido pela sua atitude maternal, tão intrínseca à mulher que ela é. Obedeço, e não demora para que ela encha meu prato com uma seleção generosa: pão de queijo, um croissant, uma rabanada. Em seguida, completa o banquete com um copo de suco de laranja e uma xícara de café com leite. A quantidade de comida poderia sustentar um batalhão inteiro, e isso só reforça o quanto ela está preocupada.
Mastigo devagar, forçando-me a comer, enquanto sinto o olhar dela sobre mim — uma mistura de afeto, preocupação e algo mais que não consigo decifrar por completo.
— Eu vou te visitar, viu? Não pense que vai se livrar de nós tão fácil — avisa, com uma irritação fingida que m*l disfarça o carinho por trás das palavras.
Levanto os olhos e a encontro me encarando, séria. Abro um sorriso, deixando escapar uma risada suave. Depois, meu olhar se volta para Ricardo, que parece mais relaxado, observando a cena com um meio sorriso.
— Então, Ricardo, me conta mais sobre o lugar. Você mencionou que a casa é perto da praia e de um lago, certo? — pergunto, tentando desviar a atenção.
Ricardo confirma com um aceno e um sorriso satisfeito.
— Exato. Você vai adorar. A casa fica a cinco minutos do mar e de um lago. À noite, dá para ouvir os peixes pulando na água.
Fecho os olhos por um instante, permitindo-me imaginar o som da água, a serenidade que deve envolver aquele lugar. Um sorriso surge em meus lábios.
— Parece o paraíso — murmuro, com uma ponta de esperança.
Eleonora
Meu coração quase para quando ouço Jason chamar o chalé de "paraíso". É como se o passado tivesse ecoado em suas palavras. Jake costumava usar exatamente essa expressão para descrever o lugar. Sempre que podia, ele passava horas ali com Jéssica, nadando no lago ou no mar. Ele amava a água; Jéssica costumava dizer que ele parecia um peixe.
Uma onda de emoções me atropela, e minhas pernas ameaçam fraquejar. Puxo uma cadeira e me sento, tentando recompor minha expressão. Jason me observa, confuso, claramente percebendo algo em minha reação. Esboço um sorriso trêmulo, forçando uma naturalidade que não sinto. Não posso dizer nada. Não agora.
Coincidência, tento me convencer. O lugar é realmente um paraíso, é compreensível que ele o descreva assim. Mas, coincidência ou não, é tarde demais para mudar qualquer coisa.
Jason continua me observando, e percebo minhas mãos trêmulas debaixo da mesa.
— Você está pálida. Está bem? — ele pergunta, com uma preocupação genuína que aquece meu peito.
Respondo com um sorriso suave.
— Minha pressão deve estar baixa. Estou bem, não se preocupe — murmuro, abanando a cabeça como se quisesse dissipar seus temores. E, tentando quebrar a tensão, brinco: — Coma tudo para ficar forte.
Ele sorri e volta a se concentrar no prato, mas eu não consigo desviar meus olhos. Por um instante, vejo algo de Jake nele — uma expressão fugaz, talvez o jeito de inclinar a cabeça. Jake? Jason? No fundo, não importa. De algum modo, amo cada pedaço de quem sobreviveu. Ele carrega algo de ambos, um elo invisível entre o passado e o presente.
O choro de Adam corta o silêncio, trazendo-me de volta. Levanto-me para pegá-lo no colo, afastando os pensamentos que me assombram. Ricardo, então, se vira para Jason.
— Quer que eu vá com você? Se precisar, vou e depois volto a pé. É bem perto.
Jason ergue os olhos, seu semblante sério.
— Eles estão me esperando hoje?
— Sim, mas, se quiser, eu vou com você.
Jason sorri, balançando a cabeça.
— Não precisa. Bem, vou indo. Obrigado por tudo.
Levanto-me para acompanhá-lo, sem querer deixar essa despedida passar despercebida. Ricardo sorri, sempre gentil.
— Você sabe o quanto devo a você. Eu que agradeço. Isso é o mínimo que posso fazer. Se precisar de qualquer coisa, estarei aqui.
Jason
Toco o ombro de Ricardo, num gesto quase automático, enquanto ele me agradece pela casa. Toda vez era a mesma coisa. Ele parece carregar a gratidão como um fardo, mas, sinceramente, não vejo razão para isso.
— Você não me deve nada, Ricardo. — Digo, tentando aliviar o peso em sua voz. — Essa casa não poderia estar em mãos melhores. Para mim, ela não significa muito... Mas sei que, para Eleonora, é diferente. Para ela, cada canto tem uma memória, um apego que eu já não consigo alcançar.
Ele me encara com aquele sorriso gentil, e por um segundo, eu quase sinto inveja da simplicidade de sua emoção.
— Mesmo assim, obrigado.
Antes que eu possa responder, Eleonora se aproxima. O rosto dela carrega uma tristeza que me desarma. É como se minhas decisões tivessem colocado um abismo entre nós, e isso me incomoda mais do que deveria.
— Queria tanto que você estivesse bem para ficar conosco.
Tomo sua mão entre as minhas. A delicadeza de seu gesto contrasta com o peso de suas palavras.
— Eu também, Eleonora. Mas preciso de um tempo. Como disse, você pode me visitar. Ficar longe de vocês não será fácil, mas ficarei feliz em revê-los quando for o momento certo.
Ela faz que sim com a cabeça, forçando um sorriso que não chega aos olhos.
— Nós iremos. Pode contar com isso.
Puxo-a para um abraço apertado, tentando transmitir uma segurança que nem eu sinto.
— Ótimo, minha irmã. Faça isso... Mas, por favor, me dê um tempo. — Acrescento, num tom debochado, tentando aliviar o clima.
Eleonora me dá um tapa no braço, um daqueles que deixa a pele ardendo.
— Não seja r**m.
Solto uma gargalhada inesperada.
— Não sou r**m, só um pouquinho.
O riso dela, ainda que breve, me traz um alívio que não sei explicar. Num clima mais leve, ela pega Adam no colo e caminhamos juntos até o carro. Ricardo já está colocando minhas malas no porta-malas, eficiente como sempre.
Eleonora, no entanto, parece relutar em me deixar partir. Seus olhos, tão parecidos com os meus, brilham com uma mistura de orgulho e tristeza.
— Nem acredito que está dirigindo. — Diz ela, suspirando como se a ideia fosse uma traição ao destino.
Faço uma careta para disfarçar o incômodo.
— Pelo menos a amnésia serviu para alguma coisa. — Respondo com um sorriso irônico.
As lágrimas nos olhos dela me pegam de surpresa. Eleonora raramente se permite chorar na minha frente.
— Te amo, meu irmão. Se cuida.
Sinto um nó na garganta, mas me esforço para manter o tom leve.
— Vou me cuidar, prometo. Eu também te amo. Pena não me lembrar da nossa infância juntos, mas saiba que, mesmo assim, sinto um carinho imenso por você. Acho que isso vem no sangue.
Ela limpa o rosto rapidamente, como quem tenta esconder a fragilidade de um momento tão íntimo.
— Com certeza vem.
Seu sorriso, mesmo tingido de tristeza, é a última coisa que vejo antes de entrar no carro e partir. O peso da despedida fica para trás, mas não some.