O MATCH PERFEITO
Lua narrando.
Me debruço no guarda-corpo da varanda olhando a avenida movimentada. Os carros vêm e vão; cada carro uma história, um ponto de vista, um romance talvez... Cada dia que passa, eu me pergunto se vou viver um romance, formar uma família, me casar. Acho que esse é meu sonho: conhecer alguém legal o suficiente para me relacionar.
O vento bate forte, sinto meu cabelo balançar. Estou no décimo nono andar, aqui sempre venta muito. Olho para a lua fixamente; ela está cheia, num tom amarelado, linda!
— Querida lua cheia, quero me sentir tão cheia e completa quanto você! Cheia de amor, abundância, felicidade e dinheiro! Me traga tudo de que eu preciso, traga um homem que me ame intensamente, traga minha família, me traga dinheiro — repeti intensamente, olhando para a lua.
Balancei a cabeça negativamente após perceber o que estava fazendo e ri sozinha.
— Que grande besteira!
Saí da varanda e fui direto para o quarto. Me deitei e fiquei mexendo no celular; a intenção era pegar no sono ali mesmo, até que apareceu um anúncio de um app de relacionamento. Eu olhei, ri e passei direto. No mesmo instante, repensei e resolvi baixar o app.
Era aquele típico aplicativo de arrastar para o lado para dar match. Já conhecia bem, usei há muito tempo, até saí com uns caras, mas nada que fizesse eu me sentir especial. Mas confiei que desta vez seria diferente.
Completei meu perfil, coloquei fotos bem bonitas porque, apesar de estar encalhada, eu sou uma mulher linda. Cabelos loiros longos, olhos verdes, corpão. Meu defeito era querer um relacionamento sério, do que a maioria dos homens fugia.
Comecei a ver as fotos dos caras, curtia os que eu achava interessantes, até conversei com alguns que puxaram assunto, mas nada demais. Já estava com sono, pronta para apagar, até que subiu uma notificação: um simples "oi". Cliquei em cima e respondi.
Entrei no perfil para relembrar o porquê de ter curtido. Tinha descrição: falava que amava cozinhar, que o sonho dele era ter uma família. Rapidamente lembrei o motivo do like. Mas aquilo não me surpreendia muito, porque homem em app de namoro diz tudo o que a mulher quer ouvir para t*****r; a grande maioria está ali apenas para isso. Eu também estava ali para t*****r, mas esse não era meu único objetivo.
Conversa:
Matheus: Oi.
Lua: Oi, tudo bem?
Matheus: Melhor agora falando contigo.
Lua: Nossa, essa frase foi bem clichê, hein? Confesso que ri aqui. Mas pontos pela tentativa!
Matheus: Hahaha, eu sei, eu sei! Mas juro que não foi ensaiado. Às vezes a gente só sente uma energia boa de cara e solta o que vem na cabeça.
Lua: Vou fingir que acredito na sua espontaneidade... Mas me diz, vi no seu perfil que você gosta de cozinhar. É verdade ou é só estratégia de marketing para atrair as românticas?
Matheus: Estratégia? Jamais! Cozinhar pra mim é terapia. Faço um risoto de cogumelos que, olha... é covardia. E você? Curte gastronomia ou é do time que pede delivery até pra fritar um ovo?
Lua: (Risos) Eu sou do time que aprecia uma boa comida, mas na cozinha eu só não queimo a água porque tenho sorte. Então quer dizer que temos um mestre cuca por aqui?
Matheus: Temos um entusiasta! Mas o segredo não é só a receita, é a companhia. E pelo visto, você também tem o sonho de construir algo real, né? Vi seu "em busca de relacionamento sério" e achei raro encontrar alguém tão direta por aqui.
Lua: Pois é... cansei de jogos. Eu sou uma mulher intensa, Matheus. Olho pra lua, faço pedidos pro universo e não tenho medo de dizer que quero uma família. Muita gente corre quando ouve isso.
Matheus: Pois eu, em vez de correr, acabei de puxar a cadeira e sentar. Também sou desses que prefere o "pra sempre" do que o "só por hoje". Acho que o universo ouviu seu pedido hoje hein?
Lua: (Sorrio para a tela, sentindo um frio na barriga que não sentia há tempos) Cuidado com o que você diz... eu posso acabar acreditando.
Matheus: Essa é a intenção. O sono já bateu aí ou a gente pode continuar descobrindo o que mais temos em comum?
Lua: O sono até estava batendo, mas essa sua resposta me despertou. É difícil encontrar alguém que não se assuste com a palavra "família" em um app de namoro.
Matheus: Pois é, eu sinto o mesmo. A maioria está aqui por passatempo, mas eu realmente gosto de conexão. Por falar nisso, de onde você é? Se você disser que mora em outro estado, eu vou ficar bem frustrado, porque a conversa está boa demais.
Lua: (Rio sozinha, mordendo o lábio) Pode relaxar, Matheus. Moro na gávea, em frente a praça do sol, conhece?
Matheus: Não brinca... Eu moro no bairro vizinho! Se o trânsito ajudar, estou a uns 15 minutos de você. Dá pra ir de carro em um pulo.
Lua: 15 minutos? Nossa, o mundo é mesmo um ovo. Ou talvez a Lua tenha me ouvido rápido demais hoje (risos).
Matheus: Se ela te ouviu, ela caprichou. Aliás, Lua, preciso dizer... suas fotos são lindas, mas o seu jeito de conversar é o que está me ganhando. Estou gostando de verdade de te conhecer, mesmo que faça pouco tempo. Você parece ser diferente de tudo o que já vi por aqui.
Lua: (Sinto meu rosto esquentar) Obrigada, Matheus. É bom ouvir isso. Geralmente os caras só reparam no "corpão" e esquecem que tem uma pessoa aqui dentro que gosta de conversar. E por falar em "pessoa", me diz: o que você faz pra passar o tempo quando não está cozinhando risotos?
Matheus: Promete que não vai rir? Eu sou viciado em filmes de comédia romântica. Aqueles bem clichês mesmo, que todo mundo sabe o final, mas a gente assiste só pra ver o casal ficando junto.
Lua: Você está brincando?! Eu amo! Sério, meu guilty pleasure é assistir àqueles filmes de Natal ou de casamentos que dão errado no começo. Achei que eu fosse a única pessoa solteira no mundo que ainda acreditava nesses roteiros.
Matheus: Pois agora somos dois. Já estou até imaginando o cenário: um filme clichê na TV, eu cozinhando pra você e a gente discutindo se o mocinho vai ou não chegar a tempo no aeroporto.
Lua: (Dou um sorriso bobo, olhando para o teto) Isso soa perigosamente como um encontro perfeito, Matheus.
Matheus: E quem disse que não pode ser? Se a gente continuar se dando bem assim, 15 minutos de distância não vão ser nada
Lua: Tá bom, senhor "Mestre Cuca das Comédias Românticas", vamos ver se a nossa compatibilidade vai além dos filmes. Qual sua comida favorita no mundo? Sem ser a que você cozinha!
Matheus: Difícil... Mas eu sou apaixonado por culinária japonesa. Um bom sashimi me ganha fácil. E a sua? Deixa eu adivinhar... italiana?
Lua: Acertou em cheio! Uma lasanha bem suculenta ou um nhoque quatro queijos e eu sou a mulher mais feliz do mundo. Pizza também, claro. Sou uma formiga pra massa.
Matheus: Anotado: levar a Lua para comer massa ou preparar um jantar italiano. Check! ✅
Lua: (Risos) Já está fazendo planos, é? Pois saiba que eu sou exigente. Outra curiosidade: eu sou baixinha, tá? Tenho 1,65m. Nas fotos de salto não parece, mas pessoalmente eu não sou tão alta assim.
Matheus: 1,65m? Perfeita. Eu tenho 1,87m, então você vai ter que olhar bastante pra cima pra falar comigo. E eu vou ter o ângulo perfeito pra te abraçar.
Lua: Meu Deus, você é um gigante! 1,87m? Eu vou parecer uma miniatura do seu lado. Minha cabeça deve bater no seu peito, mais ou menos.
Matheus: Exatamente onde ela deveria estar, não acha? Dizem que os melhores abraços são assim, quando a altura se encaixa de um jeito que a gente se sente protegido.
Lua: (Sinto um frio na barriga com o comentário) Você é bom com as palavras, Matheus. Estou até ficando sem resposta, o que é raro. Me diz uma coisa que ninguém imagina sobre você, um segredo bobo.
Matheus: Hum... deixa eu ver. Eu tenho uma coleção de canecas de super-heróis e não deixo ninguém usar a do Batman. É meio infantil, eu sei, mas é meu xodó. E você? Qual seu segredo?
Lua: Eu converso com a Lua! Eu peço coisas pra ela como se ela fosse minha melhor amiga. E pelo visto, ela resolveu trabalhar rápido hoje mandando um cara de 1,87m que gosta de cozinhar e vê comédia romântica no meu app.
Matheus: Pois diga a ela que eu agradeço a indicação. De verdade, Lua... estou adorando falar com você. O papo flui, a gente mora perto, gosta das mesmas coisas... Se isso for um sonho, não me acorda agora não.
Matheus: Pois é, a Lua caprichou mesmo. Mas agora fiquei curioso... além de conversar com os astros, o que a Lua de 1,65m faz da vida quando não está dando match com gigantes?
Lua: (Risos) Eu trabalho com marketing digital, então passo o dia criando conteúdo e analisando métricas. É um caos que eu amo, mas exige muito da minha criatividade. E você? O mestre cuca trabalha com o quê?
Matheus: Eu sou engenheiro civil. Passo boa parte do tempo em obra, de bota e capacete. Acho que por isso que, quando chego em casa, tudo o que eu quero é o silêncio da cozinha e um filme bem leve pra desligar o cérebro.
Lua: Nossa, engenheiro? Então você é o homem dos cálculos e eu a das ideias. Equilíbrio perfeito! Mas confesso que agora imaginei a cena: você de 1,87m no meio de uma obra, deve impor respeito só pelo tamanho.
Matheus: Ah, com certeza! Mas por dentro sou um manteiga derretida, você já percebeu. Aliás, acabei de ver que já passou da meia-noite... Por mim, eu ficava aqui a madrugada toda, mas não quero que você vire um zumbi amanhã.
Lua: (Suspiro, olhando o relógio) Nossa, verdade! O papo fluiu tanto que eu nem vi a hora passar. Matheus, eu adorei te conhecer, de verdade. Fazia tempo que eu não sentia uma conexão assim, tão leve e rápida.
Matheus: Eu também, Lua. De verdade mesmo. Dorme bem, tá?
Lua: Você também. Mas agora eu realmente preciso ir... amanhã finalmente é sexta-feira, mas eu ainda preciso trabalhar e tenho uma reunião logo cedo. Se eu não dormir agora, não vou conseguir nem digitar "bom dia" no grupo da empresa.
Matheus: Combinado! Amanhã, assim que você despertar, me manda um sinal de vida? Quero saber se a "minha" baixinha favorita acordou bem.
Lua: (Sorrio boba para a tela) Pode deixar, gigante. Amanhã a gente se fala. Boa noite, Matheus!
Matheus: Boa noite, Lua. Sonha com a gente no cinema (e com o risoto!). 😉
Bloqueei a tela do celular, mas o brilho dele parecia ter ficado impresso nos meus olhos. Fiquei alguns segundos encarando o teto, com um sorriso bobo que eu simplesmente não conseguia desfazer. Fazia tempo — muito tempo — que uma conversa não me deixava com essa sensação de "borboletas no estômago", um clichê que eu jurava que só existia naquelas comédias românticas que ele tanto gosta.
1,87m... Imaginei o contraste. Eu teria que ficar na ponta dos pés, e ele teria que se curvar um pouco. Um encaixe perfeito, como ele mesmo disse.
Me revirei na cama, abraçando o travesseiro, e o pensamento de que ele morava a apenas 15 minutos de distância me trouxe um frio na barriga. Ele não era apenas um perfil em um aplicativo; era alguém real, logo ali, do outro lado do bairro, talvez olhando para a mesma lua que eu.
"Será que a Lua me ouviu tão rápido assim?", pensei, soltando uma risada abafada contra o lençol.
Sempre fui cética com essas conexões instantâneas, mas algo no Matheus parecia diferente. O jeito como ele falou da família, o gosto pelos filmes bobos, a forma como ele não recuou quando eu disse que queria algo sério... parecia bom demais para ser verdade.
Fechei os olhos, tentando acalmar a mente para o trabalho no dia seguinte. Mas, antes de o sono chegar, minha última imagem mental foi a de um risoto de cogumelos, uma cozinha aquecida e um abraço de um gigante que, por algum motivo, eu já sentia que conhecia há anos.
"Obrigada, Lua", sussurrei, já quase pegando no sono. "Pela primeira vez em muito tempo, m*l posso esperar para a sexta-feira começar."