1° O dia da lua
Lia despertou antes mesmo do sol nascer por completo, o coração batia acelerado, inquieto, como se algo dentro dela soubesse que aquele não era um dia comum, o ar parecia mais denso, carregado de expectativa, ela respirou fundo, tentando acalmar os pensamentos.
— Hoje é o meu grande dia… — sussurrou.— meus dezoito anos.
O dia em que finalmente conheceria sua loba, sentou-se na cama e fechou os olhos por alguns segundos, buscando qualquer sinal, qualquer sensação diferente, nada apenas o silêncio… e uma estranha ansiedade que se espalhava pelo peito.
Ao sair do quarto, um cheiro delicioso de café fresco e pão quente a envolveu, antes mesmo de chegar à cozinha, ouviu risadas e vozes conhecidas, um sorriso surgiu automaticamente em seu rosto.
— Surpresa! — disseram seus pais e o irmão, quase ao mesmo tempo.
A mesa estava caprichada, simples, mas cheia de carinho, frutas, pães, bolos e um pequeno bolo de aniversário no centro, a mãe de Lia se aproximou e a abraçou com força.
— Feliz aniversário, meu amor.
— Dezoito anos… — completou o pai, orgulhoso. — Um dia muito importante.
O irmão, ainda meio sonolento, sorriu.
— Hoje você vira loba de verdade minha pirralha.
Lia riu, sentando-se à mesa, sentindo o calor daquele momento, mesmo sendo filha de betas, nunca se sentiu diferente dentro da alcateia, ainda assim, sabia que tudo mudaria a partir daquela noite.
Enquanto comiam, os pais começaram a falar sobre a Cerimônia da Lua, a clareira sagrada seria preparada ao entardecer, as fogueiras seriam acesas, e os jovens que completavam dezoito anos no decorrer do mês se reuniam sob a lua cheia de cada mês para sua primeira transformação.
— É normal sentir medo — disse a mãe, segurando a mão de Lia. — Mas confie na lua, ela nunca erra.
— E confie em você — completou o pai. — Sua loba vai surgir quando for a hora.
Lia assentiu, mas um aperto estranho se formou em seu peito, uma sensação inexplicável, quase como um aviso silencioso, ela olhou pela janela, em direção à floresta que cercava a alcateia o vento balançava as árvores suavemente, como se a natureza estivesse em alerta.
Algo dentro dela parecia inquieto.
— Vocês já viram a lua hoje? — perguntou Lia de repente.
— Ainda está cedo — respondeu o irmão. — Mas dizem que hoje ela vai brilhar mais forte.
Lia sorriu, tentando afastar aquele pressentimento estranho, para todos ali, aquele era apenas mais um rito de passagem, uma noite importante, sim, mas comum dentro da tradição da alcateia.
Lia tentou se ocupar o máximo possível para fazer o dia passar mais rápido, mas parecia impossível, cada minuto se arrastava como se o tempo tivesse decidido testá-la, arrumou o quarto, ajudou a mãe com pequenas tarefas e até tentou ler, mas não conseguiu se concentrar em nada.
Quando o sol já estava mais alto no céu, decidiu sair.
Mila a esperava do lado de fora, sentada na mureta de pedra, com um sorriso nervoso no rosto, assim como Lia, ela também completava dezoito anos naquele dia.
— Você também não conseguiu ficar em casa, né? — Mila perguntou, levantando-se assim que a viu.
— Nem por um segundo — respondeu Lia, rindo. — Parece que o dia não anda.
Elas caminharam pela trilha que levava à parte mais tranquila da alcateia, tentando conversar sobre coisas simples, como se aquilo fosse apenas mais um dia comum, mas a verdade era que ambas sentiam o peso da noite que se aproximava.
— Você já pensou em como ela vai ser? — perguntou Mila, após alguns minutos de silêncio. — Sua loba?
Lia respirou fundo.
— O tempo todo, tenho medo… mas também estou curiosa, é estranho, né?
Mila assentiu.
— Pelo menos vamos passar por isso juntas, não sei o que faria se tivesse que me transformar sozinha.
Lia sorriu, grata por aquela amizade, saber que não estaria sozinha naquela noite tornava tudo um pouco menos assustador.
Enquanto isso, em casa, o pai de Lia se despedia, vestia-se com a postura firme de quem carregava responsabilidade nos ombros, como beta da alcateia, era o principal conselheiro do alfa e precisava estar presente em todas as decisões importantes.
— Comporte-se Luka— disse ele ao filho mais velho, ajeitando-lhe o colar simples no pescoço. — Observe, escute e aprenda, quando o novo alfa assumir, você precisará estar preparado.
O rapaz assentiu, sério, sabia que seu futuro já estava traçado, assim que o alfa em ascensão tomasse o posto, ele assumiria como o novo beta da alcateia, ao lado do pai, não havia espaço para erros.
— Eu vou dar o meu melhor — respondeu.
O pai colocou a mão em seu ombro, orgulhoso.
— Eu sei.
Antes de sair, ele olhou rapidamente para a casa, como se sentisse que algo estava prestes a mudar, algo que nem mesmo sua experiência como beta conseguia explicar.
De volta à floresta, Lia e Mila sentaram-se à sombra de uma grande árvore, o vento passava suave entre as folhas, e por um breve momento, Lia sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
— Você sentiu isso? — perguntou, franzindo a testa.
— O quê?
— Nada… — respondeu Lia, forçando um sorriso. — Acho que é só nervosismo.
Mas no fundo, ela sabia que não era apenas isso, a lua ainda estava distante no céu, invisível aos olhos, mas sua presença já se fazia sentir, a noite se aproximava lentamente, carregando consigo um destino que nenhuma das duas garotas poderia imaginar.
E quando a lua finalmente surgisse, nada absolutamente nada seria como antes.
O fim da tarde chegou quase sem que Lia percebesse, o céu começava a ganhar tons alaranjados e dourados, e o ar parecia mais frio, mais denso, a alcateia inteira se movia em silêncio respeitoso, como se todos sentissem o peso daquele momento sagrado.
— É hora… — murmurou Mila, respirando fundo.
As duas se despediram rapidamente na trilha e seguiram para suas casas, cada uma mergulhada em seus próprios pensamentos.
No quarto, Lia deixou a água morna do banho cair sobre o corpo, tentando relaxar, mas o coração não desacelerava, havia uma ansiedade crescente dentro dela, misturada com uma sensação estranha, quase elétrica, percorrendo sua pele.
Ao sair, vestiu o vestido preparado por sua mãe, era branco, longo, de tecido leve, que acompanhava perfeitamente suas curvas, o vestido realçava sua silhueta delicada e ao mesmo tempo forte, caindo suavemente até seus pés, sua pele branca contrastava com o tecido claro, e seus cabelos rosa, soltos e levemente ondulados, emolduravam o rosto de traços suaves, os olhos castanhos brilhavam, carregados de emoção e nervosismo.
Lia se olhou no espelho por alguns segundos, quase sem se reconhecer.
— É só uma cerimônia… — tentou convencer a si mesma, embora sentisse que aquela noite seria muito mais do que isso.
Na casa ao lado, Mila também se preparava, vestia um vestido branco que ia até os joelhos, simples e bonito, marcando sua cintura e acompanhando suas curvas com naturalidade, seus cabelos castanhos estavam soltos, e os olhos pretos refletiam uma mistura de medo e empolgação.
— Estamos prontas — disse Mila ao se encontrar novamente com Lia, segurando sua mão com força.
As duas caminharam juntas em direção à clareira seguidas por suas famílias, conforme avançavam, sentiam os olhares se voltarem para elas, não era algo incomum naquele dia jovens prestes a conhecer seus lobos sempre despertavam curiosidade, mas Lia sentiu algo diferente, alguns olhares demoravam mais do que o normal, e sussurros surgiam entre os membros da alcateia, ela tentou ignorar.
A lua começava a apontar no céu, grande e luminosa, como se observasse cada passo, o coração de Lia acelerou ainda mais, e um arrepio percorreu sua espinha quando colocou os pés na clareira sagrada, sem saber, naquele exato momento, o destino começava a se entrelaçar.
E a lua… já havia feito sua escolha.
Mal sabiam que, quando a lua surgisse no céu, nada seria comum.
E que aquela noite marcaria o início do maior pesadelo e do recomeço da vida de Lia.