006 - A Vigiada

2311 Words
*Alex PoV* Como Roland prometeu, minha sentença foi convertida para perpétua, a ser cumprida sob os cuidados do FBI. Não sei como ele fez isso, mas não importa. Livre, posso finalmente descobrir o canalha que me sabotou e vingar a morte do Bryan. Minha mudança para Nova Iorque se deu na calada da noite, em uma aeronave federal, sob a escolta do próprio agente que me recrutou, como se eu fosse uma criminosa bárbara e perigosa. Fui colocada em uma kitnet de paredes escuras e descascadas. Quase nada de mobília, apenas uma cama de solteiro e um guarda-roupa no quarto, uma mesa com uma cadeira para fazer as refeições na sala. A cozinha, com os azulejos lascados, tem, ao menos, os equipamentos necessários. Não vou reclamar. Pelo menos, é melhor que a cela onde eu estava. Roland me entrega um celular barato para poder se comunicar comigo, além de um cartão corporativo com uma linha de crédito. ㅡ Suas despesas serão pagas pelo Bureau. Esteja sempre atenta ao celular. Quando eu ligar, deverá partir imediatamente. Ando lentamente pelo pequeno espaço, passo um dedo pela mesa empoeirada e sacudo a sujeira da mão. ㅡ Não tem medo que eu fuja? Ele me lança um sorriso ardiloso, mantendo as mãos nos bolsos da calça. ㅡ Hamilton, você pode até tentar, porém será pouco provável que consiga tal façanha. Agentes irão se revezar em duplas para te vigiar. Dê um passo em falso e você voltará para o corredor da morte no segundo seguinte, fui claro? ㅡ Sim, papai. Mais alguma coisa? O deboche na minha resposta não o abala. Acho até que ele gosta da minha ousadia. ㅡ Nada de bebidas alcoólicas, drogas ou orgias. Deve manter a sua cabeça limpa e focada no trabalho que terá pela frente. ㅡ Já que tocou no assunto, o que devo fazer, Roland? E como fica a ajuda que você ia me dar para encontrar… ㅡ Paciência, Hamilton… Você saberá quando chegar a hora. Não se preocupe, está tudo encaminhado. Tenho que ir agora. Você não é o único peixe na minha lista, sabe… Ele se vai e eu sigo até a janela. Observo o agente sair do prédio e noto que um carro federal fica na esquina. Eu suspiro. É melhor cumprir a sua parte no acordo, Roland. Caso contrário, vai se arrepender por tentar me enganar. Volto a observar esse lugar estéril e sem vida, tão frio quanto o vazio que sinto dentro de mim. Não pude trazer nada meu, nem mesmo uma foto do meu falecido noivo. Pelo menos, seu lindo rosto ficará guardado em minhas memórias, enquanto o meu cérebro funcionar. Antes que a minha mente se apague, vou dedicar o tempo que ainda me resta para descobrir quem fez aquilo conosco, Bryan. Penso em fazer uma faxina, porém não há nada no lugar para essa finalidade. Desisto da ideia, fazendo uma nota mental para sair pela manhã e fazer compras. Apenas me jogo sobre a cama e a poeira levanta. Eu dou alguns espirros enquanto me sento e coço o nariz. Aquele i****a… Não poderia ter mandado alguém limpar essa espelunca antes de me colocar aqui? Arranco o lençol da cama e me deito sobre o colchão puro. Eu apago em minutos, de tão exausta que estou. Não tive boas noites de sono na minha cela. Apesar de isolada, recebia algumas “visitas” indesejáveis de vez em quando. Passei a dormir quase nada, com medo de ser pega de surpresa. Acordada, eu podia ao menos lutar. Roland não deu sinal de vida por uma semana, o que me deu tempo para arrumar esse lugar e deixá-lo mais habitável. Quando penso que ele havia esquecido da minha existência, surge a primeira missão. Uma suspeita de arma química em Oklahoma. Essa se tornou a minha rotina. Passar os dias trancafiada no apartamento, apenas aguardando um telefonema. Até tentei sair algumas vezes, respirar um pouco de ar puro, contudo a presença dos agentes me vigiando a todo instante era muito opressora. Com o passar do tempo, percebi que Roland nunca teve qualquer intenção de me ajudar. O que não foi nenhuma surpresa. Ele só queria se auto promover às minhas custas. Estava todo empolgado, se gabando pela promoção que teve. Agora, ele lidera a divisão de Nova Iorque. Tudo por causa dos resultados que eu lhe dei. Canalha... O que é seu, está guardado, Roland. Não recebo dinheiro em espécie, tudo o que compro é através do cartão que ganhei. Existe uma razão simples para isso, podem rastrear os meus gastos e saber de todos os meus passos. Até a cor das minhas calcinhas. No entanto, não podem rastrear as ligações a cobrar que faço para a Sharon. Fiz amizade com uma senhora, dona de uma lanchonete no Chelsea. Sempre que preciso, ela me cede seu telefone, que uso no banheiro. Da mesma forma, minha amiga deixa recados para mim com ela. ㅡ Como estão as coisas, Alex? Já conseguiu o que queria? ㅡ Ainda não, Sharon, mas eu já esperava por isso. Roland é uma cobra sorrateira e ardilosa. Estava na cara que ele não ia me ajudar. Só aceitei porque imaginei que pudesse descobrir por mim mesma. Mas, eu não contava com a vigilância cerrada sobre mim de forma tão intensa. Tenho medo até de peidar, pois com certeza aqueles agentes iriam correndo contar para Roland o cheiro que tem. Ela dá risada e eu sorrio. Minhas conversas com a Sharon são o que mantém a minha sanidade. Esses poucos minutos de descontração em um banheiro, são o que aliviam momentaneamente a dor que carrego dentro de mim. ㅡ Já mandei a sua medicação para a Alicia. Deve chegar em dois dias. Você teve mais alguma crise? Fico preocupada com você sozinha… ㅡ Eu estou bem. Você tem me ajudado muito. Não sei o que eu faria sem você. ㅡ Sempre que precisar, estarei aqui por você. Sei que não foi sua culpa e você não mereceu o que te aconteceu. Um dia, vai provar isso. ㅡ Obrigada. Encerro a ligação, com um gosto amargo na boca. Na minha arrogância, espalhei aos quatro cantos que havia feito a descoberta do século. Isso despertou a cobiça e a inveja de alguém e Bryan perdeu a vida. A culpa foi toda minha… Saio do banheiro e passo o telefone de forma sorrateira para Alicia, a dona da lanchonete, que ficou aguardando no corredor. ㅡ Tudo bem, minha querida? Está tão pálida… ㅡ Estou sim, não se preocupe. A Sharon disse que enviou a minha medicação para você. Uns dois dias para chegar. ㅡ Vou ficar de olho. Está com fome? Fiz aquela pizza de gorgonzola que você tanto gosta. ㅡ Humm… Deu até água na boca! Nós sorrimos uma para a outra e retornamos para o salão da lanchonete. Alicia sabe de parte da minha história, de um jeito mais brando. Contei que fui acusada injustamente, sendo o bode expiatório de alguém e, agora, estou em condicional, prestando serviços comunitários. Por isso, sou vigiada constantemente e faz parte do meu acordo não usar substâncias ilícitas. Como temo pela minha própria vida, mantenho meu estado de saúde em segredo, razão pela qual não compro diretamente os componentes para fazer a medicação que uso. Não sei porque ela acreditou nessa história maluca e decidiu me ajudar, entretanto descubro enquanto como a minha pizza. ㅡ Alicia, por que você é tão boa para mim? Você m*l me conhece. Ela suspira fortemente e toma um gole de café. ㅡ Sabe, Alex. Essa coisa de conhecer alguém é muito relativa. Fui casada com um homem por mais de duas décadas e jamais soube quem Fabian Caster era de verdade. Você parece uma boa garota, que foi apenas injustiçada, exatamente como a última vítima do meu ex-marido. Hoje, ela está bem, refez a vida, mas, o que teria sido dela, se não houvesse encontrado pessoas que a ajudassem? Alguém também foi bom comigo, porque me livrar daquele monstro foi mais fácil do que pensei. Por causa daquela moça, uma completa estranha, os podres do Fabian vieram à tona e algum anjo da guarda veio ao meu auxílio. Então, apenas estou devolvendo essa bondade que surgiu no meu caminho, desde que aquela moça apareceu aqui. ㅡ Anjo da guarda? ㅡ É, eu não sei explicar, mas tudo de podre que o Fabian fez, não respingou em mim. Não tive nenhum prejuízo e o meu processo de divórcio correu rapidamente. Até parece que tinha alguém mexendo os “pauzinhos” a meu favor. Eu me lembro da minha amiga no mesmo instante. ㅡ Sharon faz algo parecido por mim. Ela foi a única pessoa que acreditou na minha inocência e me ajuda como pode, mesmo sabendo que pode se encrencar depois. Quer dizer, até você aparecer. Alicia sorri e segura minha mão sobre a mesa. ㅡ Você vai sair dessa, meu bem. ㅡ Obrigada. Apesar de ser grata, não acredito que eu vá escapar dessa situação. Em algum momento, minha saúde irá piorar e Roland irá me chutar de volta para o corredor da morte. Só espero conseguir justiça para o Bryan antes disso. ㅡ Mãe! Está quase na hora do show de estreia do Michael! Posso mudar o canal da televisão? Até levo um susto com os berros da Grace. Sua mãe concorda com um sorriso no rosto e a garota fica contente, pulando de alegria como uma adolescente. É engraçado. ㅡ Se eu soubesse que ele ficaria famoso, teria pedido um autógrafo para ele quando comia aqui, mesmo que fosse em um guardanapo! Eu era a garçonete preferida dele! ㅡ Nos seus sonhos, Grace! Você está com dor de cotovelo porque ele nunca te deu bola! ㅡ Cale a boca, Pamela! As moças discutem sobre quem estava nas graças desse cara, que não faço ideia de quem seja. ㅡ Alicia, quem é esse? ㅡ Oh, Michael Denver. Ele já morou no Chelsea e comia quase sempre aqui. Tinha uma banda de metal progressivo chamada Everlasting, mas agora está em carreira solo. Hoje, é a estreia dele. Você vai gostar, ele é fantástico. Outro café? ㅡ Sim, por favor. Ela se levanta e continuo a comer. Não presto atenção na televisão que fica na parede em frente. Tenho o meu próprio tormento interior para me perder. ㅡ Vai começar! A afirmação empolgada da Grace me faz olhar para a tela, não sei nem por qual razão. Um estádio cheio de efeitos pirotécnicos, pessoas gritando pelas arquibancadas e gramado. Um palco monstruoso no meio dessa loucura. Então, vejo uma figura surgir por um alçapão do centro do palco e é a aparição mais espetacular que já vi. O olhar e o sorriso daquele homem penetram na minha alma. Sua voz poderosa me comove profundamente. Michael Denver… Uma combinação perfeita de talento e beleza… Vejo apenas metade da apresentação. Assim que termino de comer, me levanto e vou embora. Não tenho tido muito ânimo ultimamente para nada. É uma vida sem propósito, futuro ou qualquer sonho. Às vezes, me pergunto se não teria sido melhor ser executada… Caminho pelas ruas com as mãos nos bolsos, percebendo de soslaio o carro dos agentes que me seguem lentamente, alguns metros atrás de mim. Eu suspiro para o tempo e tento me distrair observando as vitrines. Várias lojas exibem o disco solo daquele cantor. Acho até que com orgulho dele ter morado aqui em Manhattan. Paro em frente a uma delas e analiso seu rosto em um poster. Bom, já que tenho uma linha de crédito, sem a preocupação de contas para pagar, não vou me privar de um pequeno mimo. Entro na loja e compro um DVD físico com uma versão digital desse tal Michael. Sigo para o ovo onde moro e me jogo sobre a cama. Coloco os fones e curto a música baixada no celular. Não sou fã desse estilo, prefiro Hip Hop. Porém, tenho que admitir que esse cara faz a gente tremer na base. Além de ser um pedaço de mau caminho… Lembro com saudades do meu noivo. De forma alguma, Bryan e Michael são parecidos fisicamente. Porém, enquanto ouço a performance desse cantor e observo sua foto na capa do DVD, percebo algo que via nos olhos do meu noivo: Paixão pelo que faz. Se eu tivesse direito a um último desejo antes de deixar esse mundo, seria pedir demais uma noite com esse cara? Eu começo a rir de mim mesma. Ninguém jamais poderá substituir o homem que mais amei e perdi. No entanto, nada me impede de desejar partir dessa vida com estilo. Não será com esse Michael, porém já notei os olhares que um dos agentes que vive na minha cola me dá. Ele não é nada mau. A música no meu aparelho é interrompida por uma ligação do Roland. Sua voz inexpressiva me intima. ㅡ Trinta minutos, Hamilton. Ele desliga e eu bufo, girando os olhos nas órbitas. Sempre é assim, ele liga quando quer, me leva para algum lugar estranho para fazer o meu trabalho e me traz de volta. Uma vez, fui parar no Canadá e morri de frio, pois não estava vestida de forma adequada. O i*****l riu do meu grito quando saí do avião. Eu me levanto e troco de roupa. Calça jeans básica, camiseta e jaqueta. Sento-me na cadeira da mesa da sala e aguardo, observando a foto no DVD. Sou uma tola por achar que, um dia, nas condições em que vivo hoje, poderia encontrar alguém como você, Michael Denver. Ou qualquer outro que me faça vibrar. Isso nunca mais irá acontecer, pois meu coração morreu naquele dia em que o de Bryan parou de bater. Só o que me resta agora, é torcer para que eu consiga realizar essa minha última vontade. Descobrir quem me sabotou a vingar a morte do Bryan. Depois disso, posso partir em paz.
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