Capítulo 13

1430 Words
Lila Anderson Naquela noite, apesar de estar exausta, não consegui dormir direito. A cama era macia demais, cheirava a algo masculino que, por algum motivo, me lembrava de Asher, porém era tolice da minha parte, pois eu sabia que esse era um quarto de hóspedes, acho que o cheiro dele estava por todo esse apartamento. Virei de um lado para o outro, abraçando o travesseiro, tentando afastar a lembrança do beijo, mas parecia inútil. Quanto mais eu tentava esquecer, mais o meu corpo reagia. Acabei dormindo já perto do amanhecer, e acordei com a luz entrando pelas cortinas brancas. Me sentei devagar, piscando contra a claridade. A primeira coisa que me veio à mente foi o peso da decisão que havia tomado: morar ali, sustentar uma mentira, depender de um homem que eu m*l conheço. Tomei um banho para despertar, vesti uma roupa confortavél e respirei fundo antes de sair do quarto. O corredor era silencioso demais, e o eco dos meus passos me fez sentir como se estivesse invadindo um lugar onde não devia estar. A cozinha era tão impecável quanto o resto do apartamento: bancada de mármore claro, eletrodomésticos de última geração, uma cafeteira caríssima que parecia ter vindo direto de uma vitrine. Eu hesitei antes de abrir um dos armários, com medo de desorganizar algo. Acabei pegando apenas um copo de água, porque não tinha coragem de mexer em nada mais. - Já acordada? – a voz dele me fez congelar. Virei devagar e encontrei Asher encostado no batente da porta, cruzando os braços. Estava de camiseta preta e calça de moletom, os pés descalços. O cabelo ainda bagunçado denunciava que tinha acabado de acordar. E, mesmo assim, parecia absurdamente lindo e confiante, como se estivesse em uma sessão de fotos. - Ah… sim. – respondi, segurando firme o copo para disfarçar o nervosismo. – Não tenho o costume de dormir muito. Ele arqueou uma sobrancelha, como se tivesse entendido o motivo. - É… está com fome? – ele nem esperou a minha resposta. – Vou preparar o café. – imendou. Me sentei na bancada, e perguntei se ele queria ajuda, ele negou. Ele foi até a cafeteira e preparou café com a naturalidade de quem sabia exatamente o que estava fazendo. Em alguns minutos o cheiro se espalhou pelo ambiente, aquecendo o ar frio da manhã. Me perguntei se ele sempre parecia tão no controle de tudo. - Lila. – disse, me tirando dos meus devaneios. – Precisamos conversar sobre algumas regras. Engoli seco. - Regras? - Sim. – ele se virou para mim, apoiando-se na bancada. – Se vamos sustentar essa mentira, precisamos estar alinhados. A minha família não é boba. Eles vão perceber qualquer incoerência. Assenti devagar. - Faz sentido. Ele me olhou por um instante, como se medisse a minha reação, e então continuou: - Primeiro, já estamos morando juntos. Já aceitamos isso, mas não é só dividir o teto. Teremos que agir como um casal de verdade… pelo menos quando estivermos na frente deles. O meu coração disparou. - O que exatamente você quer dizer com “agir como um casal”? Um meio sorriso apareceu nos seus lábios. - Nada além do óbvio. Troca de carícias, pequenas demonstrações de afeto. Não precisa se preocupar, só o suficiente para convencê-los. Cruzei os braços, tentando parecer firme. - Como falei antes, quero deixar claro uma coisa, Asher. Esses toques… só na frente dos outros. Quando estivermos sozinhos, não há necessidade de nada disso. – lembrei ele, do que tínhamos conversado ontem. Ele não respondeu de imediato. Apenas me observou, e depois um riso curto escapou dele, como se não conseguisse segurar. Então, ele balançou a cabeça, ainda com aquele ar de riso no rosto. - Você fala como se estivesse me impondo um grande sacrifício. - Talvez esteja. – retruquei, mais defensiva do que queria. Ele deu de ombros, voltando a sua atenção para o que estava fazendo. - Como quiser. Só na frente dos outros, esse era o combinado. Suspirei, aliviada, mas parte de mim se incomodou com a leveza com que ele reagiu. Como se tudo isso fosse um jogo divertido. - Asher… – comecei, hesitando. – Você tem certeza de que precisa disso? Quero dizer… você poderia levar qualquer mulher para fingir ser sua noiva. Por que eu? Ele me encarou de novo, o olhar sério agora. - Porque você não vai se apaixonar por mim, Lila. Senti o rosto corar de imediato. - O quê? - É simples. – ele explicou, como se fosse a coisa mais lógica do mundo. – As outras mulheres que conheço adorariam se exibir ao meu lado, usariam isso para ganhar algum tipo de vantagem. Você, não. Você não tem interesse em mim, e eu não tenho interesse em você. É perfeito. Mordi o lábio, sentindo uma mistura de alívio e incômodo. Talvez ele tivesse razão… mas ouvir isso de forma tão direta me fez sentir pequena. Invisível. Como se não fosse capaz de despertar o mínimo interesse em homem algum. - Certo. – murmurei, evitando o seu olhar. – Então é só isso. Um acordo. Ele concordou. - Um acordo. E outra coisa… – ele disse. – Vou te levar para fazer compras. Os meus olhos caíram para a minha roupa: uma calça jeans já gasta de tanto uso, um pouco desbotada nos joelhos, e uma camiseta preta básica. Nada de marcas caras, nada de acessórios que chamassem a atenção. Apenas o que eu tinha, o que sempre tive. A realidade do meu mundo contra o dele. Assenti em silêncio, porque não tinha forças para discutir. Ele colocou à minha frente uma xícara de café e um prato com ovos, bacon e algumas torradas, tudo preparado de forma simples, mas ainda assim tão diferente da rotina que eu conhecia. Ficamos ali mesmo e comemos em silêncio. Eu me concentrei no prato para não deixar escapar a mágoa que estava sentindo. Cada vez que levantava os olhos e via ele tão à vontade naquele lugar que parecia gritar luxo, era como se eu fosse lembrada do quão deslocada estava ali. Depois do café, Asher anunciou: - Vou tomar um banho, e depois saímos. - Sair? – perguntei, confusa. Estava absorta nos meus pensamentos, que tinha esquecido que sairemos. Ele me lançou um olhar rápido, como se já esperasse a pergunta. - Sim. Vamos ao shopping. Aquela frase foi a última gota. O meu estômago revirou e um nó se formou na garganta. É claro. Ele não queria apenas sustentar a mentira diante da família, queria também apagar qualquer traço de quem eu realmente era. As minhas roupas não serviam. A minha aparência não servia. Eu não servia. Forcei um sorriso frágil e apenas assenti. - Tudo bem. Ele subiu para o quarto, e eu fiquei ali, sozinha, perdida no meio daquela cozinha luxuosa. Como se buscasse um pedaço de mim mesma para segurar, comecei a organizar a bancada: lavei as xícaras, guardei as torradas que sobraram, arrumei cada detalhe que encontrei fora do lugar. Não porque ele tivesse pedido, mas porque precisava ocupar as mãos, precisava sufocar o turbilhão que estava dentro de mim. A cada prato que eu secava, a frase dele ecoava na minha mente: “Você não tem interesse em mim, e eu não tenho interesse em você.” Será que era tão óbvio assim? Será que eu realmente não era capaz de despertar interesse em homem algum? Eu nunca tinha namorado, nunca tinha sido beijada antes daquele momento em que ele me roubou um beijo. E mesmo esse, ao que parecia, não tinha significado absolutamente nada para ele. Apenas um erro, um deslize que ele fez questão de prometer que não se repetiria. E por que aquilo doía tanto? Suspirei, terminando de organizar tudo, e então fui até o quarto de hóspedes. Peguei o meu celular sobre a cômoda. Não levei bolsa — além de não ter uma que fosse decente, também não queria dar a Asher mais um motivo para sentir vergonha de mim. Porque era isso que eu temia. Fazer ele passar vergonha ao meu lado. No fundo, eu sabia que ele não precisava dizer em voz alta para eu perceber que as nossas diferenças eram gritantes. Ele era o tipo de homem que se destacava onde quer que estivesse, que carregava poder, charme e beleza de forma natural. E eu… bom, eu só era uma garota comum tentando sobreviver, carregando dívidas, mágoas e um coração cheio de inseguranças. E agora, estava prestes a me vestir com uma farsa, como se eu pudesse caber no mundo dele.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD