Lila Anderson
No dia seguinte, acordei mais cedo do que o normal. O quarto de empregada parecia menor naquela manhã, como se as paredes estivessem mais próximas, sufocando-me. As minhas coisas já estavam arrumadas desde a noite anterior — o que não era muita coisa, para ser honesta. Uma bolsa média foi suficiente para guardar algumas roupas e o único objeto que realmente tinha valor para mim: um porta-retrato com uma foto minha, da minha mãe e do meu pai, tirada antes de tudo desmoronar.
Fiquei alguns minutos sentada na beirada da cama, encarando a porta fechada, tentando reunir coragem. Respirava fundo, mas o ar parecia pesado. Sabia que ele estava em casa e, provavelmente, no escritório. O simples fato de entrar naquele cômodo me deixava nervosa — cada vez que estava sozinha com Ivan, sentia o meu estômago se revirar. Ainda assim, precisava fazer isso.
Saí do quarto, cruzei o corredor e parei diante da porta de madeira escura. Apoiei a mão na maçaneta por alguns segundos, mas não girei. Respirei fundo, baixei o olhar e sussurrei para mim mesma:
- Você consegue, Lila...
Bati levemente. A resposta veio quase de imediato, a sua voz grossa e autoritária atravessando a porta:
- Entre.
Empurrei a porta, e lá estava ele, sentado atrás da mesa, folheando alguns documentos. Os seus olhos levantaram lentamente, avaliando-me de cima a baixo. Segurei as minhas mãos à frente do corpo, tentando disfarçar que elas suavam, e falei:
- Eu... eu queria pedir a minha demissão.
A minha voz saiu um pouco trêmula, como se cada palavra custasse a sair.
Ivan permaneceu em silêncio por alguns segundos que pareceram minutos. Os seus olhos eram como lâminas, e o seu rosto não mostrava emoção alguma. Então, finalmente, ele falou:
- Tudo bem. Vou preparar a documentação para você assinar.
Engoli em seco, surpresa. Eu esperava que ele fizesse perguntas, que tentasse me convencer a ficar ou, pior, que usasse aquele tom ameaçador que eu já conhecia. Mas não. Ele simplesmente aceitou. E isso me deixou ainda mais desconfiada.
- Será que... teria como eu assinar hoje? – perguntei, tentando soar firme.
Ele estreitou os olhos, como se quisesse ler os meus pensamentos, mas não fez nenhuma pergunta.
- Vou pedir para o advogado preparar. Daqui a uma hora, pode vir assinar.
Assenti rapidamente, como quem teme mudar de ideia se demorar mais, e saí do escritório sem olhar para trás.
O meu celular vibrou no bolso, e um número desconhecido apareceu na tela. O meu coração acelerou na hora. A primeira coisa que pensei foi que poderia ser do hospital, que a minha tia estivesse ligando sobre o estado da minha mãe. Atendi imediatamente.
- Alô?
- Lila? É o Asher.
Reconheci a voz na hora. Soltei um pigarro, temendo que a minha voz falhasse, e tentei parecer tranquila:
- Oi, Asher. Algum problema?
Por que ele ligaria agora? Nós tínhamos combinado de nos encontrar mais tarde, no hotel onde ele estava hospedado, depois que eu resolvesse tudo com Ivan.
- Queria saber se você já conseguiu pedir demissão. – ele disse, direto ao ponto.
- Acabei de fazer isso. O senhor Ivan pediu para o advogado preparar os papéis, disse que posso ir assinar daqui a uma hora. – disse entrando no quarto.
- Quer que eu vá te buscar? – ele perguntou.
- Não precisa. – a última coisa que eu queria era que Ivan desconfiasse.
- Tudo bem. – ele respondeu, e eu podia jurar que havia uma ponta de impaciência na voz dele. – Vou ficar te esperando.
- Obrigada. – desliguei.
Fiquei com a sensação de que Asher poderia não seguir exatamente o que combinamos, mas tentei afastar essa preocupação. Um problema de cada vez.
Passada uma hora, voltei ao escritório de Ivan. Antes que eu pudesse bater, a porta se abriu. Ele estava ali, me encarando com aquele olhar calculista que fazia a pele na minha nuca arrepiar.
- Estava indo te procurar. Os papéis já estão prontos.
Assenti, e ele me deu passagem para entrar. Só de estar no mesmo ambiente que ele, o meu corpo inteiro ficava em alerta. A sala parecia mais fria, o ar mais pesado. Sentei-me na cadeira à frente da mesa, e ele colocou os documentos à minha frente, apontando com a caneta onde eu deveria assinar.
Assinei rapidamente, evitando contato visual.
- O advogado vai depositar os dias trabalhados na sua conta. – ele disse, seco.
- Obrigada. – a minha voz quase sumiu.
Saí dali o mais rápido que pude, voltei para o quartinho dos empregados, peguei a minha bolsa e me dirigi à saída da mansão. Quando coloquei os pés para fora, uma cena me fez parar por um instante: Asher estava encostado no carro, braços cruzados, me observando.
O meu coração deu um salto. Eu tinha dito que ele não precisava vir... mas, de alguma forma, fiquei estranhamente aliviada em vê-lo ali.
Dei alguns passos, mas antes que conseguisse me aproximar, senti uma mão agarrar o meu braço com força. Virei-me de imediato e vi Ivan. O aperto dele era doloroso. A sua mão asquerosa deslizou pelo meu rosto, e a sua voz saiu como um sussurro nojento:
- Vocês são todas iguais... – ele murmurou, com a voz baixa e carregada de desprezo. – Só querem um homem para bancar vocês.
Tentei me soltar, mas ele segurou mais forte. O meu coração martelava no peito, e o medo tomou conta de mim. Foi então que Asher veio até nós.
- Algum problema aqui? – a voz de Asher cortou o ar como uma lâmina.
A expressão dele estava sombria, cheia de ameaça, medindo-o com o olhar.
Ivan soltou o meu braço devagar, encarando Asher com desprezo.
- Quem é você? – perguntou, com desdém.
- O namorado dela.
Arregalei os olhos, o meu queixo caiu. O quê?
Asher não recuou um passo se quer.
- E eu arrumei um emprego para ela em outra cidade. Então não vamos mais incomodar você.
Ivan rosnou algo baixo, mas não respondeu. Simplesmente virou-se e voltou para dentro da mansão.
Ainda atordoada, segui Asher até o carro. Ele abriu a porta para mim, e só quando sentei no banco percebi que as minhas mãos tremiam. A cada metro que nos afastávamos da mansão, sentia o ar ficar mais leve. Como se estivesse deixando para trás não apenas um lugar, mas um peso enorme.
Olhei pela janela, vendo os portões se fecharem atrás de nós, e pensei que nunca mais queria voltar ali.