Capítulo 20

1513 Words
Asher Bianchi Quando Lila subiu para se arrumar, aproveitei para resolver algo essencial. Peguei o celular e liguei para um conhecido — dono de uma joalheria que frequento há anos — para providenciar o anel. Minha mãe seria a primeira a reparar nisso. Se eu aparecesse dizendo estar “noivo” e Lila não tivesse um anel no dedo, ela desconfiaria na hora. E se tem algo que não posso permitir é dar brecha para minha mãe começar a farejar a verdade. No caminho até a casa de Logan, com Lila ao meu lado, mencionei que precisaria parar antes para buscar uma encomenda. Ela apenas assentiu e disse: - Tudo bem, você que manda. A frase foi dita num tom leve, até brincalhão, mas ainda assim me fez soltar um riso contido. Se ela soubesse o quanto essa “encomenda” tinha a ver com ela… Balancei a cabeça, tentando afastar qualquer pensamento que me levasse para outro lugar. Ultimamente, a minha mente tem insistido em ir onde não devia — e o problema é que, na maioria das vezes, o destino dessas distrações tem nome e um par de olhos castanhos curiosos. Assim que estacionei no shopping, perguntei se ela queria entrar comigo. - Não, eu espero aqui. Exatamente o que eu esperava ouvir. Seria impossível explicar o que estava fazendo, conversaria com ela em casa. E, para ser sincero, ainda não tenho ideia de como vou entregar esse anel sem parecer um completo idiotä. Entrei na loja e logo encontrei Martin, o dono, que me recebeu com o mesmo sorriso de sempre. - Asher! Chegou rápido. E trouxe sorte, porque encontrei o anel perfeito para o que você me descreveu. Segui-o até o balcão e, quando ele abriu a caixinha, precisei admitir: era realmente perfeito. O aro era de ouro branco, fino, delicado, e a pedra — uma turmalina rosa pálida — tinha um brilho sutil, nada exagerado. Era elegante, feminino, mas simples. Pensei em Lila imediatamente. Algo naquela joia parecia traduzir exatamente o que ela é: natural, sem esforço, mas impossível de não reparar. - É esse. – falei, sem hesitar. Martin sorriu satisfeito. Fiz o pagamento e recusei o saquinho que ele ofereceu. Guardei a caixinha direto no bolso interno do terno. - Boa escolha, Asher. É um anel que fala por si só. Espero que sim. – murmurei, tentando ignorar o peso simbólico daquilo. De volta ao carro, encontrei Lila me esperando, distraída, olhando pela janela. - E a tal encomenda? – perguntou assim que entrei. O seu olhar curioso era quase inocente. Quase. - Já está guardada. – respondi, seco, antes de dar partida. Ela arqueou uma sobrancelha, mas não insistiu. Melhor assim. Se eu dissesse o que era, provavelmente ela teria um colapso. Quando chegamos à casa de Logan, fomos recebidos por Cecília, que avisou que ele estava a caminho. Agradeci e, enquanto Lila seguia para encontrar Emily, depois de cumprimentar Emily fui direto ao escritório. Precisei de um momento para colocar os pensamentos em ordem. Poucos minutos depois, Logan chegou. Cumprimentei-o e contei tudo — sobre o acordo, sobre a mentira que estávamos prestes a sustentar e sobre Lila. Ele, é claro, reagiu como eu esperava. - Você tem certeza de que isso é uma boa ideia? – perguntou, com o cenho franzido. – Essas coisas nunca dão certo meu amigo, e uma hora vocês irão confundir as coisas, Asher. E, se machucá-la, vai se arrepender. - Não vamos confundir nada, ela me ajuda e eu a ajudo, e depois cada um segue a sua vida. – respondi, sincero. – Não pretendo machucá-la. E não pretendo mesmo. Contudo, com Lila, as intenções parecem perder o rumo com facilidade. Conversamos por um tempo até que precisávamos ir embora. Despedimo-nos e encontrei Lila com Emily na sala, ambas rindo de algo. Por um momento, fiquei observando à distância. A leveza dela contrastava tanto com o peso que ela carregava, que era quase... reconfortante. Mas então, Logan apareceu atrás de mim, e falei que era hora de irmos. Aquele sorriso se desfez um pouco. Notei algo em seu rosto — preocupação talvez? E perguntei, quando voltamos ao carro: - Está tudo bem? Ela apenas assentiu. - Está, sim. – respondeu, forçando um sorriso. Não acreditei, mas decidi não insistir. O caminho até o apartamento foi silencioso, o tipo de silêncio que gruda na pele. Quando chegamos, sugeri pedir algo para comer. - Alguma preferência? - Eu como de tudo. — respondeu. Assenti e pedi algo leve. Assim que terminei o pedido, ela avisou que subiria para trocar de roupa. Fiz o mesmo logo depois. No quarto, tirei o terno e coloquei uma camiseta e uma bermuda. Antes disso, tirei o anel do bolso e o deixei sobre a mesinha ao lado da cama. Só de olhar para aquela pequena caixinha senti um peso estranho. Como vou mostrar isso a ela sem assustá-la? Já é suficiente ela estar nessa confusão toda comigo… e, agora, um anel? Merda. Suspirei e decidi cumprir a minha parte do acordo. Liguei para um velho amigo, diretor de um hospital renomado aqui em Chicago. Expliquei a situação da mãe de Lila e pedi um favor: que desse uma olhada nos exames e tentasse viabilizar uma transferência para cá. Ele prometeu que veria o que podia fazer. Quando desliguei, senti o alívio percorrer o corpo. Se tudo isso vai acontecer, que ao menos sirva para algo bom. Desci as escadas. A campainha tocou no mesmo instante — e, antes que eu pudesse abrir, ouvi a voz de Lila. - Obrigada, pode deixar aí. Aproximei-me e parei por um segundo, observando a cena. Ela estava com um short jeans curto, uma camiseta folgada que cobria o short e um coque bagunçado no topo da cabeça. Natural. Linda. Irritantemente linda. O problema é que o entregador parecia pensar o mesmo — e estava demorando demais para desviar o olhar. Senti o sangue ferver. Cheguei por trás dela, e o rapaz arregalou os olhos quando me viu. - Algum problema aqui? – perguntei, com a voz fria. - N-não, senhor. – respondeu, nervoso. Lila se virou para mim, confusa. - O pedido chegou. – disse, segurando as sacolas. - Estou vendo. – respondi, seco. Mas o idiotä ainda estava olhando. Foi o suficiente. - Se continuar encarando a minha mulher desse jeito, eu quebro a sua cara e ainda faço questão de te ver demitido. O rapaz empalideceu, balbuciou algo e saiu praticamente correndo pelo corredor. Lila ficou me olhando, sem acreditar no que acabara de ouvir. Entrou na cozinha sem dizer uma palavra, colocou as sacolas sobre a mesa e ficou em silêncio. Já percebi: quando ela está irritada, se cala. E o silêncio dela é pior do que qualquer grito. - Lila… – comecei, mas ela levantou o olhar, firme. - Por que fez aquilo, Asher? O rapaz só estava trabalhando. - Trabalhando? Ele estava te devorando com os olhos! - Ele só me olhou normal, não tinha nenhuma segunda intenção ali, Asher. – retrucou, cruzando os braços. – E, por favor, não seja ridículo. - Ridículo? – soltei, sentindo a raiva subir de novo. – Você atendeu a porta vestida assim… – apontei o dedo para sua roupa – o que esperava que ele fizesse? Ela abaixou o olhar para si mesma e depois me encarou, desafiadora. - Vestida assim? Por acaso estou indecente? – ela perguntou, erguendo uma sobrancelha. – É um short, Asher. Um short normal. Abri a boca para responder, mas ela não me deixou. - Escuta, para esse acordo funcionar, não vou permitir que você dite o que eu posso ou não vestir. Suspirei, passando a mão pelos cabelos. E foi aí que caiu a ficha do quão babaca eu estava sendo. - A sua roupa não tem nada a ver com isso, Lila. – falei, mais calmo. – O problema é que aquele entregador estava te olhando como se fosse um pedaço de carne. E isso… isso eu não vou tolerar. Ela piscou, surpresa com o tom sincero. Por um breve instante, vi algo diferente nos seus olhos — uma mistura de surpresa e… algo que eu não consegui decifrar. Fiquei ali, parado, observando-a enquanto ela desviava o olhar e abria as sacolas. E foi nesse momento que percebi o quanto Lila mexe comigo. Ela é a calma e o caos ao mesmo tempo. Me desconcentra, me irrita, me intriga. E o pior de tudo é que, quanto mais tento manter distância, mais me pego pensando nela — no jeito como enruga o nariz quando está confusa, ou no sorriso tímido que aparece quando tenta disfarçar o nervosismo. Balancei a cabeça, tentando me recompor. Preciso manter o foco. Isso é um acordo. Nada mais. Mas, quando lembro da caixinha sobre a mesinha do quarto e que logo vou ter que colocar aquele anel no dedo dela, percebo que talvez eu esteja me metendo em algo que não faço ideia de como sair. E o pior? Não tenho certeza se quero sair. Lila é diferente de qualquer mulher que já conheci.
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