Capítulo 25

1259 Words
Asher Bianchi Desde a noite passada, algo em mim parecia fora do lugar, na verdade, sentia isso desde que beijei Lila. Mas ontem foi diferente, não sei se foi o olhar de Lila quando coloquei o anel no seu dedo, ou o silêncio que pairou entre nós enquanto assistíamos ao filme depois. Mas havia algo ali — algo que eu não consegui nomear, e, sinceramente, talvez nem quisesse. Lila tinha um jeito simples, autêntico. Do tipo que a maioria das pessoas fingiria ter, mas que nela era natural. O filme rodava na tela, mas minha atenção estava completamente em Lila. Ela tentava manter a distância — o corpo encostado no outro canto do sofá — e mesmo assim, cada risada que escapava dela me atingia com força. Em certo momento, quando ela se virou para mim para comentar algo, os nossos olhos se encontraram, e precisei desviar rápido. Não era pra ser assim. Esse acordo… tudo isso foi pensado para ser conveniente, prático. Mas nada nela é prático. Lila é caos — e o tipo de caos que me faz querer me perder. Quando o filme acabou, ela agradeceu, quase tímida. - Foi bom, obrigada por isso. – disse, e sorriu daquele jeito doce que fazia o peito apertar. Respondi algo simples, apenas para não demonstrar o quanto aquilo realmente tinha sido bom pra mim também. Depois, desejei boa noite e fui pro o meu quarto, mas dormir… foi impossível. O som suave dos passos dela pelo corredor, o resmungo abafado quando deixou cair algo no chão — tudo parecia me perseguir. {...} Na manhã seguinte, eu me peguei mais nervoso do que gostaria de admitir. Apresentar Lila aos meus pais não deveria ser um problema, mas o simples pensamento de vê-la ao lado deles, naquele ambiente, me causava uma inquietação estranha. Eu enrolei um pouco para sair do quarto, e quando cheguei à cozinha e vi ela de costas olhando pela janela, essa inquietação só aumentou. O vestido azul claro que ela escolheu não tinha nada de chamativo, mas, de algum modo, parecia feito pra ela. Simples, elegante e… encantador. Ela estava nervosa — dava pra ver pelo jeito como mexia as mãos, e eu queria dizer algo pra acalmá-la, mas nada parecia suficiente. - Está linda. – foi tudo o que consegui. Ela me olhou, surpresa, e um leve rubor subiu às suas bochechas. - Obrigada. – respondeu, em voz baixa. E, por um momento, eu quis esquecer que tudo aquilo era um teatro. A minha vontade era de colocar ela em cima dessa bancada e sentir o sabor da sua boca novamente. {...} O almoço correu melhor do que eu esperava — pelo menos no início. Minha mãe, como sempre, foi cordial, mas pude ver no olhar dela que ela gostou de Lila. Ela tem esse dom de acolher as pessoas, de fazer com que qualquer um se sinta parte da família. Meu pai também foi gentil, curioso, interessado, tenho certeza que ele quer perguntar algo, mas vai deixar para um momento onde só estaremos apenas nós dois. Mas Raffaella… Eu deveria saber que a minha irmã não deixaria passar a oportunidade de provocar. Ela é amiga de Ivone, e nunca entendeu porque eu a “traí”. Quando Lila mencionou que havia trabalhado como empregada doméstica, a expressão no rosto de Raffaella foi suficiente pra me fazer querer interromper a conversa ali mesmo. Mas Lila, com toda a calma do mundo, manteve o sorriso e respondeu às perguntas com elegância. Ela não se abalou. E foi aí que percebi — ela era muito mais forte do que eu imaginava. - Empregada doméstica? – Raffaella repetiu, num tom quase debochado. – Uau, Asher, essa é realmente uma escolha… incomum. Senti o maxilar travar. Pensei em responder, mas preferi observar primeiro. Porém, minha mãe, interveio antes que a situação piorasse. Quando ela desviou o olhar pra mim, só consegui pensar em como queria proteger aquela calma dela de tudo o que pudesse quebrá-la. Depois do almoço, enquanto meus pais se despediram dela com abraços e palavras gentis, eu percebi o quanto Raffaella estava incomodada. O olhar dela era puro julgamento. Mas, pela primeira vez, o que ela pensava não importava pra mim. O que importava era a expressão no rosto de Lila — aquela mistura de alívio e por ter sobrevivido àquilo. No caminho de volta, o silêncio reinou por alguns minutos. Lila olhava pela janela, distraída, brincando com o anel no dedo — o mesmo que eu coloquei ali na noite anterior. E, por um instante, me peguei pensando em como aquele anel realmente combinava com ela. Discreto, mas impossível de ignorar. - Sinto muito pelo comportamento da minha irmã. – falei, sem tirar os olhos da estrada. Ela virou o rosto pra mim, um sorriso leve surgindo. - Está tudo bem, Asher. De verdade. Já lidei com piores. O fato dela já ter passado por situações similares mexia comigo, como foi para ela ter ficado sozinha esse tempo todo, passando por todos os tipos de situações. - Não é o ponto. – retruquei. – Ela não tinha o direito de falar com você daquele jeito. Lila me olhou por um momento, e depois soltou um suspiro. - Você não pode controlar o que as pessoas pensam. - Não, mas posso deixar claro que não aceito esse tipo de atitude. – respondi, firme. Ela sorriu de novo, mas não disse nada. O silêncio voltou, e dessa vez não foi desconfortável. Era… tranquilo. Um tipo de tranquilidade que só alguém como Lila poderia trazer. Enquanto dirigia, percebi algo curioso: ela mexia no anel com frequência, como se ainda não tivesse se acostumado a usá-lo. E toda a vez que fazia isso, sentia uma pontada estranha no peito. Não sei se era culpa ou desejo. Talvez os dois. Quando estacionamos na garagem do prédio, ela se virou pra mim. - Seus pais são incríveis. – disse, sincera. – Você tem sorte. Assenti. - Tenho. – pausa. – E eles gostaram de você. Ela arqueou uma sobrancelha, desconfiada. - Tem certeza? Talvez eles só tenham sido educados mesmo. - Absoluta. – garanti. – Minha mãe já deve estar planejando o jantar de noivado. Ela riu, e o som me arrancou um sorriso automático. Como alguém podia ter um riso tão leve e, ao mesmo tempo, causar tanto barulho dentro de mim? Ficamos ali por alguns segundos, só olhando um para o outro, e quando percebi que o clima estava ficando intenso demais, decidi quebrar o momento. - Vai ficar bem sozinha? Eu vou passar no escritório pra resolver umas coisas. Ela assentiu. - Tudo bem. – subindo as escadas. – E… obrigada, Asher. Por tudo hoje. Assenti, observando-a subir. E foi ali, vendo-a desaparecer pelo corredor, que percebi que eu estava completamente ferrado. Porque o que eu sentia por Lila já não era parte do acordo. Não era conveniência. Era algo muito mais perigoso. Eu precisava me afastar um pouco. Dirigi direto para o escritório, mas a cabeça continuava nela — no jeito que falou com meus pais, na paciência com Raffaella, no sorriso quando achou graça de algo simples. Peguei o celular, abri a tela de mensagens e, por um momento, quase escrevi algo. Mas fechei antes que fizesse besteira. Respirei fundo, olhei pela janela e decidi que, na manhã seguinte, teria uma conversa com Raffaella. Curta, direta e sem espaço pra ironias. Se ela quisesse continuar sendo parte da minha vida, teria que aprender a respeitar Lila que, mesmo sem perceber, já estava tomando conta dela.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD