Lila Anderson
Então era isso. Era isso que ele tinha ido buscar no shopping.
Asher abriu a tampa e revelou o anel mais lindo que já vi na vida.
Um aro fino de ouro branco, com uma pedra oval que brilhava mesmo sob a luz que entrava pela janela. Era elegante, discreto... e absurdamente perfeito.
Senti a garganta secar.
- É lindo, Asher... – murmurei, ainda encarando o anel. – Mas eu não posso usar isso. Aposto que custou uma fortuna. E se eu perder? – acrescentei, nervosa, as palavras saindo em atropelo.
Ele sorriu, e aquele malditö sorriso de canto fez o meu estômago se revirar.
- Não vai perder – disse, com a confiança de quem tem o mundo sob controle.
Antes que eu pudesse protestar, ele pegou a minha mão. A pele quente dos dedos dele tocou a minha, e, por um segundo, esqueci como se respirava. Com delicadeza, ele deslizou o anel pelo meu dedo.
O toque dele era firme, mas cuidadoso — e, de repente, o gesto simples pareceu muito mais íntimo do que deveria.
- Combina com você. – ele completou, olhando direto para mim.
Aquelas palavras, ditas num tom baixo e rouco, ficaram ecoando na minha mente. “Combina com você.” O jeito como ele falou... não parecia encenação.
Senti o coração bater rápido demais.
O meu corpo reagia como se soubesse algo que a minha cabeça ainda tentava negar.
Respirei fundo, desviando o olhar, e me forcei a lembrar do que era aquilo. Era um acordo. Um teatro. Nada mais!
Mas quando olhei novamente para o anel brilhando no meu dedo, foi difícil convencer a mim mesma disso.
- Obrigada, Asher. – murmurei, tentando soar natural. – É... realmente lindo.
Ele apenas assentiu, os olhos ainda fixos em mim, como se tentasse decifrar os meus pensamentos.
O silêncio entre nós ficou pesado de novo, denso, cheio de coisas não ditas. Até que ele se levantou e enfiou as mãos nos bolsos.
- Se você não estiver cansada, podemos assistir a um filme – sugeriu, com um sorriso leve.
Aquela mudança repentina de assunto me pegou desprevenida.
- Um filme? – repeti, confusa.
Nossa, há quanto tempo eu não assistia a um filme de tarde, nem lembrava mais qual foi a última vez.
- É. – ele deu de ombros. – Acho que depois de um dia desses, um pouco de distração não faz m*l.
Sorri, meio sem graça.
- Claro. Mas... você não precisa trabalhar? – perguntei.
Ele riu de canto, e foi impossível não reparar no quanto aquele sorriso deixava o rosto dele mais bonito.
- Hoje, não. – respondeu, casual. – Então, o que me diz?
Assenti, tentando parecer tranquila.
- Tudo bem. Eu faço a pipoca. – falei, levantando da cama.
- Fechado. – disse ele, e por um breve instante, pareceu satisfeito, quase aliviado.
{...}
Enquanto o cheiro da pipoca estourando preenchia a cozinha, pensei em como tudo tinha mudado rápido demais.
Algumas horas antes, Asher estava irritado, possessivo, e agora estava ali, tentando me distrair, como se nada tivesse acontecido.
Talvez fosse o jeito dele de pedir desculpas sem precisar dizer as palavras.
Coloquei a pipoca numa tigela e voltei para a sala. Ele já tinha escolhido um filme, e a TV iluminava o ambiente com aquele brilho azulado que deixava tudo mais acolhedor. Sentei-me em uma ponta do sofá, e ele se acomodou do outro lado.
Por alguns minutos, o silêncio foi confortável.
Assistimos às primeiras cenas, e eu me concentrei no som dos diálogos, tentando ignorar a consciência aguda de que Asher estava ali, tão perto.
- Está gostando? – ele perguntou, depois de um tempo.
Assenti, enfiando uma pipoca na boca.
- Aham.
- Boa escolha, então. – ele disse, e havia um tom divertido na voz, como se tivesse vencido uma aposta invisível.
Olhei de relance para ele. Os olhos fixos na tela, a expressão tranquila, como se o homem que tinha quase arrumado uma briga com um entregador há pouco tempo nem existisse.
E, ainda assim, eu não conseguia apagar a imagem dele se colocando entre mim e outro homem, com aquela fúria nos olhos.
Quando ele se inclinou um pouco para pegar a tigela e os nossos braços se tocaram, senti um arrepio subir pela pele.
Pisquei rápido, tentando ignorar. Mas era tarde.
O meu coração já estava perdido entre a lógica e o sentimento.
Enquanto o filme seguia, percebi que Asher estava tentando deixar as coisas leves. E, de certo modo, conseguiu.
Rimos de algumas cenas, e, por um momento, parecia que éramos apenas duas pessoas comuns, dividindo uma noite tranquila — sem acordos, sem mentiras, sem rótulos.
Mas bastava olhar para o anel no meu dedo para lembrar da verdade. Era tudo uma encenação.
E eu precisava me lembrar disso antes que o faz de conta virasse algo que eu não teria forças para controlar.