Capítulo 26

1319 Words
Asher Bianchi No dia seguinte acordei com um peso diferente no peito: não era sono, era inquietação. Aquelas poucas horas de sono não tinham apagado o que eu sentia por Lila — e também não tinham apagado a irritação que Raffaella tinha plantado em mim durante o almoço. Decidi que não podia deixar aquilo passar. Se havia uma coisa que eu não admitia era desrespeito com alguém que eu teria qualquer intenção de proteger, fosse por acordo ou por qualquer outro motivo que ainda não queria admitir para mim mesmo. Saí cedo de casa, provavelmente Lila ainda estava dormindo. Peguei o carro cedo. E dirigi até o prédio onde Raffaella mora, antes de ir ao escritório; precisava falar com a minha irmã antes que ela tivesse tempo de arquitetar alguma alfinetada nova. Enquanto subia as escadas da cobertura, repassei mentalmente as palavras dela: “Empregada doméstica? Uau, Asher, essa é realmente uma escolha… incomum.” A ricocheteiam, afiadas, parecendo menos uma observação inócua e mais uma lâmina jogada. Bati na porta do apartamento dela sem cerimônia. Raffaella abriu quase que imediatamente, todo o seu habitual ar de superioridade encaixado num vestido que sempre parecia ter saído de uma capa de revista. O sorriso dela era convencido, e o olhar, rápido — aquele mesmo olhar que, por anos, eu tinha aprendido a reconhecer como obstáculo. - O que foi? Imagino que seja algo sério para aparecer na minha porta a essa hora. – falou, sem esconder a impaciência. Entrei e fechei a porta atrás de mim. A sala estava perfeita, impecável; tudo do jeito que ela gostava: tudo em seu devido lugar. Respirei fundo. Resolvi não perder tempo com rodeios. - Precisamos conversar. – falei, direto. Ela arqueou uma sobrancelha, já se posicionando no tom de quem transforma qualquer conversa em tribunal. - Sobre o que, exatamente? Sobre você ter trazido pra casa a sua “namorada”? É noiva agora, não é! – o sarcasmo gotejou. A fala dela me irritou. Era infantil e c***l; parecia cuspir todo o preconceito dela. Mantive a voz calma, controlada — a calma que aprendi a usar quando precisava que alguém ouvisse sem transformar tudo em espetáculo. - Tenha mais respeito com ela, Raffa. – a minha resposta saiu mais firme do que eu pretendia. – Você nem a conhece para ficar julgando e cuspindo o seu veneno em cima dela. Ela soltou uma risada curta, desdenhosa. - Ah, claro. Explica isso pra mim: como é que você se envolve com alguém como ela, sem status, Asher? Você, que tem nome, família, empresa… – a frase deixou claro o desprezo, e ela completou com um sorriso predatório – Não é como a Ivone. Pelo menos a Ivone sabia como se portar. Até hoje não entendo como pode fazer aquilo com ela. O nome dela — Ivone — foi como ácido. Um agudo desconforto queimou o peito. A lembrança do que havia acontecido, de como o meu primo e a minha ex tinham me traído e transformado a minha vida num teatro de mentiras, voltou com força. Por segundos senti o sangue subir, quente. Mas não era hora de explodir por conta do passado; eu tinha algo mais urgente para arrumar. - Não fale da Ivone aqui. – a minha voz já tremia, mas com raiva contida. – Ela não é essa pessoa que você imagina, não a compare com Lila. Raffaella não se intimidou. Pelo contrário: cruzou os braços, aproximou o corpo com aquele ar de quem adora ver as coisas inflamarem. - Por que não? – cutucou. – No fim, ela tinha. Você não costuma se misturar com gente como ela. Olhei pra ela, e pela primeira vez em muito tempo senti vontade de deixar as palavras saírem sem filtro. - Você quer que eu te diga uma coisa? – comecei, com a voz baixa, quase comedida. – Lila é muito melhor que a Ivone. Mil vezes melhor. Os olhos dela estreitaram, e o sorriso cortou como lâmina. - Isso é ridículo. – disse, com aquela superioridade de quem enxerga vantagem em tudo. – Você não tem moral pra comparar. Lila é apenas um disfarce conveniente, não é? Aquelas palavras foram como um gatilho. Cada sílaba tocou uma raia de proteção que eu não sabia que existia em mim. A raiva subiu — mas não era a raiva tola de um irmão mimado. Era raiva de quem reconheceu uma crueldade gratuita. - Você vai ouvir com atenção – falei, com uma calma calculada. – Eu não trouxe Lila aqui por conveniência. E mesmo que fosse, isso não te dá o direito de humilhar ninguém. Muito menos de atacar a honra dela. Ela inclinou o rosto, chocando-se com a minha postura. - Então é isso? Você vai se fazer de t**o, Asher? Vai bancar o bonzinho? – a voz era fina, agressiva. - Não quero bancar nada, Rafaella. – falei – Eu só não aceito que você a trate como se fosse menos do que a gente, nossos pais não nos criaram assim. O riso dela veio curto, cheio de escárnio. - Você realmente está falando sério. Como pode se envolver com alguém que não tem conexões? Como pode me apresentar isso como… normal? A minha paciência, que vinha sendo testada há algum tempo, chegou ao limite. Levantei o tom com a precisão de quem não perde a razão, mas com força suficiente para marcar território. - Escuta bem – falei, com todas as letras –. Lila não precisa de sua aprovação. Ela não precisa das suas bênçãos nem do seu falso moralismo. Se você continuar com essa postura, saiba que eu não vou ficar de braços cruzados. E eu não estou falando apenas por falar: eu vou proteger quem estiver ao meu redor. Se você fizer qualquer coisa contra ela — qualquer coisa — vai ver um lado meu que nunca viu. E vai pagar por isso. Houve um silêncio denso. Raffaella me olhou como se avaliasse se eu estava falando sério. As feições dela endureceram num misto de ofensa e incredulidade. Pela primeira vez naquele diálogo, vi um traço de incerteza cruzar o rosto dela. - Você está me ameaçando? – ela perguntou, com voz fina. - Estou apenas te dando um aviso. – respondi, com frieza. – Não quero que isso chegue a extremos. Mas se você atacar Lila, eu não vou me conter. Ela abriu a boca, mas fecho. O brilho de provocação não desapareceu totalmente, mas havia cautela agora. Meu recado havia sido dado. E, por alguma razão que me surpreendeu, senti uma onda de alívio. - Você sempre foi impulsivo – murmurou ela, um ataque que não me atingiu. - Talvez. – admiti. Ela me lançou um olhar que queria ser indiferente, virei as costas, e saí pela porta. Fiquei ali no corredor alguns segundos, respirando fundo, tentando reorganizar as ideias que, em minutos, haviam virado faíscas. Peguei o celular e olhei a conversa com Lila, a foto dela sorrindo com o anel no dedo, tive a ideia de tirarmos uma foto do momento que a pedia em casamento, para mostrar mais realidade a nossa história — e algo frio e tênue, porém real, assentou-se em mim: eu não queria mais que isso fosse um jogo. A promessa à própria família, a farsa que deveria ser convincente, as medidas calculadas para que ninguém desconfiasse… tudo aquilo começava a se misturar com algo inesperado, perigoso e verdadeiro. Puxei o arquivo com as mensagens e digitei mentalmente: convencer Raffaella a respeitar Lila seria só a primeira batalha. A próxima seria comigo mesmo. Caminhei até o elevador. Precisava ir trabalhar. Precisava de foco. A guerra com minha irmã podia esperar — mas não por muito tempo. Porque quando a vida começa a complicar os acordos que você havia feito para si mesmo, o único caminho é encarar as consequências. E eu já sentia que não havia mais volta.
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