Lila Anderson
Quando ajudei Emily a fugir daquele monstro do Ivan, eu nem pensei nas consequências. Tudo o que passava pela minha cabeça era o quanto ela sofria, o quanto era abusada de todas as formas possíveis. Eu via as marcas no corpo dela, e até ajudava a limpar os ferimentos, o medo nos seus olhos, a forma como ela tremia toda a vez que ele se aproximava. Eu presenciei noites em que Emily não conseguia dormir por causa da dor, e eu fazia o que estava ao meu alcance para ajudá-la. Mas nada era suficiente, porque ninguém naquela casa se importava. Os empregados, os seguranças… todos fingiam que não viam nada. Talvez tivessem medo. Mas eu não podia continuar fechando os olhos.
O aperto no meu peito era gigante ao vê-la partir, mas senti que, pela primeira vez, ela teria uma chance de ser feliz. Uma chance de criar o seu bebê em paz, sem a sombra daquele monstro sobre ela.
Ivan voltou naquele mesmo dia. Ninguém sabia exatamente como Emily conseguiu escapar, e eu rezava para que ela já estivesse bem longe dali. Quando Ivan atravessou as portas da mansão, sua fúria era palpável. Ele quebrou tudo o que viu pela frente, gritando que queria saber como aquilo aconteceu. Ele não aceitava que uma casa cheia de empregados e seguranças incompetentes permitisse que a sua mulher fugisse sem ser vista. E então, ele voltou os seus olhos para mim.
- Você! – rosnou, apontando um dedo acusador na minha direção. – Você era a mais próxima dela. O que sabe sobre essa fuga?
Engoli em seco, tentando manter a compostura.
- Eu não sei de nada, senhor.
Aqueles olhos escuros e frios me analisaram, tentando encontrar qualquer vestígio de mentira no meu rosto. Eu tremia por dentro, mas me mantive firme. Ivan sempre foi assustador, mas naquele dia… ele parecia o próprio demônio.
Eu queria sair dali. Precisava me afastar daquele inferno. Comecei a distribuir currículos, e fui a várias agências de emprego, mas todos diziam a mesma coisa: entrariam em contato. Os dias se arrastavam, e aquele lugar só piorava. Ivan descontava a sua raiva em todos os empregados, tornando o ambiente insuportável. Uma mulher passou a frequentar a mansão com mais frequência. Era sua amante, óbvio. Ela aceitava tudo que ele fazia com ela, até mesmo as agressões. Cheguei a vê-la com marcas roxas, os olhos baixos, mas ela nunca reclamava. Nunca reagia. Eu nunca entenderei como uma mulher pode aceitar esse tipo de coisa.
As contas hospitalares da minha mãe só pareciam aumentar, e os remédios... bem, cada receita nova era como um soco no estômago. Os valores subiam, a lista crescia, e o desespero apertava o peito. A cada consulta, a cada internação, eu me via mais longe de respirar alívio.
Mesmo que o meu coração gritasse todos os dias para sair daquela casa, daquele emprego sufocante, eu sabia que não podia. Não ainda. Eu precisava do salário. Eu precisava continuar mandando dinheiro para minha tia, que fazia o impossível cuidando da minha mãe em casa. Eu sabia que ela tentava esconder o cansaço quando falávamos ao telefone, mas a verdade é que ela não tinha condições de assumir tudo sozinha. O que ela recebia da pensão do meu tio não dava nem para cobrir metade dos gastos com medicamentos.
Por mais que eu sentisse medo — e eu sentia, todos os dias — de Ivan descobrir que eu ajudei Emily a fugir, eu não podia fraquejar. Não podia demonstrar nada. Eu só conseguiria sair dali com segurança quando encontrasse outro emprego. E para isso, eu precisava continuar tentando.
Hoje era minha folga, mas descanso não fazia parte da minha vida há muito tempo. Vesti uma roupa simples, prendi o cabelo em um coque apressado e saí cedo com uma mochila cheia de currículos impressos. Entrei em todo o tipo de lugar: restaurantes, pequenas lojas, clínicas, até supermercados. A maioria nem olhava direito para mim. Outras apenas pegavam o papel como quem pega um panfleto na rua e diz “qualquer coisa a gente liga”. Eu sabia o que aquilo significava, ninguém iria ligar.
Caminhei por horas, sob o frio cinzento daquela tarde, e cada “não” silencioso parecia tirar um pedaço da minha esperança. Quando o sol começou a se esconder atrás dos prédios, os meus pés doíam, o meu estômago estava embrulhado de fome e frustração. Eu só queria um sinal de que alguma coisa iria mudar.
Voltei para a casa do senhor Petrov pela entrada de serviço, tentando não chamar atenção. Os meus olhos estavam pesados, não só pelo cansaço físico, mas pela exaustão de viver uma vida que não parecia a minha. Cada passo pelo corredor dos fundos parecia me lembrar que eu ainda estava presa ali, que a minha liberdade custava mais do que eu podia pagar.
Fui direto para o quartinho dos empregados. Era um cômodo minúsculo, com uma cama de solteiro encostada na parede, uma pequena cômoda que m*l fechava e uma janela trancada com vista para o nada. As paredes eram tão finas que a privacidade era só uma ideia — tudo o que você dissesse poderia ser ouvido por quem estivesse no quarto ao lado.
Por isso, mesmo ali dentro, eu tomava cuidado com cada palavra. Me sentei na cama, tirei os sapatos e abracei as pernas. Respirei fundo tentando conter o nó na garganta. Pensei na minha mãe, deitada em uma cama de hospital, provavelmente sentindo dores. Pensei na minha tia, cuidando dela com o coração cheio de boa vontade, mas as mãos cheias de medo de não dar conta. E pensei em mim — tentando ser adulta demais para a idade, tendo que suportar o insuportável sozinha.
Foi nesse momento, com a cabeça apoiada nos joelhos e os olhos fechados, que o celular vibrou no bolso da mochila. Um número desconhecido aparecia na tela. O meu coração deu um pulo.
Talvez fosse um dos lugares onde deixei currículo? Atendi imediatamente.
- Alô? – a minha voz saiu hesitante, quase implorando por uma boa notícia.
Do outro lado da linha, por alguns segundos, só o som de respiração. Depois, uma voz que eu reconheceria mesmo no meio de um milhão.
- Lila...? Sou eu. Emily.
A respiração me faltou por um instante. Eu congelei. O meu coração disparou no peito, como se não acreditasse no que meus ouvidos estavam ouvindo. Uma mistura de alívio, alegria e medo percorreu o meu corpo como um choque.