Capítulo 11

1598 Words
Asher Bianchi Ela estava sentada à minha frente, mexendo no guardanapo como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo. Mas eu sabia que não era nervosismo qualquer. Era nervosismo comigo. E não era difícil entender o motivo. O beijo. Inferno. Eu não devia ter feito aquilo. Não foi planejado, nem sequer pensado. Eu só… cedi. No momento em que ela encostou a mão no meu peito, tentando limpar a água que derramou, algo dentro de mim desligou a razão. Estava perto demais, vulnerável demais. E eu não resisti. Foi um erro. Ou pelo menos deveria ter sido. Porque a verdade é que, mesmo sendo evidente a falta de experiência dela — os movimentos tímidos, o jeito hesitante como correspondeu — foi o melhor beijo que tive em toda a minha vida. Não pelo domínio, nem pela intensidade. Mas pela pureza. A boca de Lila era suave, doce, quase inocente. E isso me desarmou de um jeito que eu não estava preparado. Eu senti o gosto dela na minha boca e, por um instante, tive vontade de continuar, de aprofundar, de explorar. Só que percebi o susto nos olhos dela e recuei. Pedi desculpas como se fosse fácil apagar aquilo. Mas não era. Ainda sinto a maciez dos lábios dela queimando na memória. E agora, vendo-a toda corada, impondo condições com tanta firmeza, só me fez achar a cena ainda mais surreal. - Então está claro. – ela disse, voz firme apesar das bochechas vermelhas. – Nada físico entre nós. A menos que seja necessário. Eu não consegui evitar o riso baixo que escapou. Não porque não levasse a sério, mas porque era incrível como ela queria ter controle sobre tudo mesmo quando a situação já estava tão fora do controle dela. Ela me olhou desconfiada, quase irritada. - Qual é a graça? - Nenhuma. – respondi, mas o sorriso ainda estava lá. A verdade é que havia algo de fascinante nela. Tão inexperiente e, ao mesmo tempo, tão determinada. Ela não fazia ideia de como era atraente quando tentava ser séria. Bebi um gole do meu suco para tentar disfarçar, mas meus pensamentos voltaram ao mesmo ponto. O beijo. Aquela doçura… eu não devia ter gostado tanto. Não devia querer repetir. Mas eu queria. Queria mais do que era sensato admitir. Enquanto ela continuava explicando as suas condições, falando sobre como seria apenas uma encenação, eu só conseguia pensar no gosto dela. E na maldita ironia de estar prestes a transformá-la na minha noiva de mentira, quando tudo em mim gritava que era uma péssima ideia. Porque, no fundo, eu sabia que as coisas poderiam fugir do controle. Eu precisava manter a calma. Precisava lembrar que isso tudo era um acordo, nada mais. Mas enquanto Lila falava — toda séria, impondo as suas condições como se estivesse fechando um contrato de negócios — eu só conseguia prestar atenção nos detalhes dela. O jeito que a boca se movia quando pronunciava cada palavra. Os olhos que ficavam ainda mais claros quando ela estava determinada. E, p***a, o contraste entre a firmeza da voz e a fragilidade que eu já tinha visto quando ela recebeu aquela ligação sobre a mãe. Eu não devia me importar. Não devia me envolver. - Então é isso – ela concluiu, me olhando firme. – Só toques em público, se realmente necessário. Nada de confundir as coisas. Assenti, mas não consegui evitar o canto da boca repuxando em um meio sorriso. - Entendido, senhorita vou seguir as suas regras. Ela arqueou a sobrancelha. - Está achando graça de novo? - Não. – respondi rápido, ainda com um resquício de riso. – Só acho… curioso como você fala isso como se fosse fácil me manter afastado. As bochechas dela ficaram coradas de novo. Eu sabia que devia parar, mas a provocação escapou antes que eu pudesse controlar. Inferno, eu estava ferrado. Respirei fundo, passando as mãos pelo cabelo, e mudei o tom. Se eu deixasse as coisas descarrilarem agora, não teria volta. - Precisamos definir algumas coisas – comecei, voltando ao assunto. – Primeiro, vamos precisar de uma história consistente. Como nos conhecemos, quanto tempo estamos juntos, porque nunca aparecemos em público antes… tudo precisa estar alinhado. Ela cruzou os braços, me encarando com uma seriedade que quase me fez rir outra vez. - Você já pensou em tudo isso antes, não é? - Digamos que… – soltei um suspiro, me encostando na cadeira – já assisti alguns filmes com situações parecidas. – ela abre a boca surpresa. - Você gosta de filmes clichês de comédias românticas?! – ela rebateu, estreitando os olhos. - Não. – a firmeza da minha voz pareceu surpreendê-la. – Mas já assisti alguns com a minha irmã caçula. – respondo. – E Agora você é minha parceira, precisamos estar de acordo. Ela piscou algumas vezes, e eu pude ver a forma como a palavra a atingiu. Parceira. Não peça. Não figurante. Parceira. Eu sabia que ela precisava do dinheiro. Ela sabia que eu precisava da encenação. Mas ainda assim, queria que ela sentisse que estávamos no mesmo barco. Porque, no fim das contas, estávamos. - Tá – ela murmurou, respirando fundo. Depois de almoçarmos seguimos a estrada, como eu queria despistar quem quer que Ivan colocou para nos seguir, achei melhor ao invés de duas cidade a frente ir para três cidades a frente, ou talvez só fosse meu subconsciente querendo ficar mais tempo com Lila, “pörra coloca essa cabeça no lugar Asher”. O silêncio dentro do carro parecia ainda mais pesado do que o ar quente que circulava lá fora. O som constante do motor era a única coisa preenchendo o espaço entre nós, mas nem isso aliviava a tensão. Lila permanecia imóvel, com os olhos fixos na janela, como se o mundo lá fora fosse sua única válvula de escape. Eu também mantinha os meus olhos na estrada, mas minha mente estava em outro lugar. O gosto do beijo ainda estava preso na minha boca. Eu não queria ter feito aquilo, não naquele momento, mas foi impossível resistir. O jeito como ela olhou para mim, os lábios entreabertos, a respiração acelerada… foi como se eu tivesse perdido o controle por alguns segundos. E, maldição, aqueles segundos foram os melhores que já vivi em muito tempo. Ela era inexperiente, isso era óbvio. O beijo dela foi hesitante, meio incerto no início, como se ela estivesse tentando descobrir o que fazer. Mas foi real. Doce, puro, sem nenhuma máscara ou jogo. A boca dela carregava uma sinceridade que eu nunca havia sentido em beijo algum. E por mais que eu tivesse me desculpado depois, por mais que tivesse prometido a mim mesmo que não se repetiria, parte de mim desejava que acontecesse de novo. Só que eu não podia deixar isso transparecer. Não agora. - Tem mais uma coisa que você precisa saber. – falei por fim, quebrando o silêncio. Vi pelo canto do olho que ela se virou para mim, a testa levemente franzida, como se já estivesse se preparando para o pior. - Mais uma coisa? – repetiu, desconfiada. Respirei fundo, segurando firme o volante. - Se vamos sustentar essa mentira, não dá para fazermos isso morando separados. Vai levantar suspeitas. Se a minha família acreditar que somos um casal de verdade, vão esperar convivência, i********e, rotina. Os olhos dela se arregalaram, compreendendo o que eu queria dizer. - Você está dizendo que… precisamos morar juntos? Assenti, firme. - Exatamente. Ela deixou escapar uma risada nervosa, como se eu tivesse acabado de propor a maior loucura do mundo — e talvez tivesse mesmo. - Você enlouqueceu? m*l nos conhecemos, Asher! - Eu sei. – respondi, tentando manter a calma. – Mas é a única forma de tornar isso convincente. Acha que alguém vai acreditar que estamos em um relacionamento sério se cada um continuar vivendo a sua vida em um canto? Não vai funcionar. Lila passou as mãos pelos cabelos, claramente em pânico. - Isso é… absurdo. Eu não sei se consigo. Eu a encarei por um segundo mais longo do que deveria. O desespero dela era real, mas havia algo além — ela estava travada entre o medo e a necessidade. Eu sabia disso porque já havia lido esse tipo de expressão em muitas pessoas. - Você precisa do dinheiro, Lila. – a minha voz saiu mais baixa, quase cortante, mas não era crueldade. Era realidade. – E eu preciso de você nesse papel. Vai ser um contrato entre nós. Apenas isso. Ela mordeu o lábio inferior, e por um instante, os meus olhos foram atraídos para aquela boca novamente. Eu desviei rápido, irritado comigo mesmo. - E… – continuou ela, respirando fundo – se eu topar isso, quero deixar claro uma coisa. - Diga. - Vamos dormir em quartos separados. Eu arqueei uma sobrancelha. Era óbvio que ela ainda estava pensando no beijo. Eu também estava. Mas não deixei transparecer. Apenas dei um meio sorriso, porque não pude evitar. A seriedade dela misturada à inocência me atingia de uma forma que eu não deveria permitir. Ela estreitou os olhos. No fundo, eu achava engraçado como ela pensava que conseguiria manter essas barreiras erguidas por muito tempo. Havia uma força magnética nela que desafiava qualquer limite que tentasse impor. E ainda assim, balancei a cabeça, voltando a encarar a estrada. - Tudo bem, assim será. Dormiremos em quartos separados. Ela relaxou um pouco no banco, mas ainda parecia desconfiada. E eu… eu não conseguia parar de pensar no beijo. Maldição, por que justo o dela tinha que ser o melhor que já recebi?
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