o convite

1040 Words
Os dias passaram… Mas algo havia mudado. E já não dava mais para negar. Bianca evitava pensar demais — mas, mesmo assim, seus pés a levavam, sem perceber, pelo mesmo caminho. E Rafael… Continuava lá. Como se soubesse. Como se estivesse esperando. --- Naquela tarde, o sol já começava a cair quando Bianca virou a esquina. E, como nos últimos dias… Ela parou. O coração acelerou. Porque ele estava ali. Rafael. Encostado no mesmo lugar de sempre. Olhar firme. Postura tranquila. Como se nada no mundo pudesse tirá-lo daquele ponto. Quando ele viu Bianca, seus olhos mudaram levemente. Mais atentos. Mais presentes. Ela tentou manter a postura. Mas o canto da boca dele já denunciava. Ele estava esperando. — Você demorou — ele disse, a voz baixa, controlada. Bianca soltou um pequeno suspiro, tentando disfarçar o nervosismo. — Eu não sabia que tinha horário marcado — respondeu, cruzando os braços, mas sem firmeza total. Rafael soltou um leve sorriso. — Não tem. Mas ainda assim… Ele estava lá. --- Por um momento, nenhum dos dois falou nada. Só o olhar. A troca silenciosa. Até que Rafael fez um gesto com a cabeça. — Senta aqui. Bianca hesitou. Mas acabou se aproximando. Sentaram ali mesmo. Lado a lado. Em um canto mais isolado, longe do movimento. O mundo parecia diminuir. Como se, por alguns minutos… Só existissem os dois. --- O silêncio entre eles não era vazio. Era cheio. De tensão. De curiosidade. De algo que crescia sem controle. Bianca cruzou os braços, olhando para frente. Mas podia sentir. Ele estava olhando para ela. Observando. Analisando. — O que foi? — ela perguntou, sem olhar diretamente. Rafael demorou um segundo antes de responder. — Nada. Mas não era verdade. Ele estava… Admirando. Sem nem tentar esconder. Bianca virou o rosto devagar. E, quando encontrou o olhar dele… Sentiu o impacto. Diferente. Mais leve. Mais… humano. — Para de me olhar assim… — ela disse, tentando disfarçar, mas com um pequeno sorriso nos lábios. Rafael não respondeu de imediato. Apenas continuou olhando. — Assim como? Bianca hesitou. Porque não sabia explicar. — Como se eu fosse… alguma coisa diferente — disse, mais baixo. Rafael inclinou levemente o rosto. — E você é. Silêncio. Bianca sentiu o coração falhar um pouco. Mas logo desviou o olhar. — Você fala como se me conhecesse — murmurou. Rafael soltou um leve suspiro. — E não conheço? Ela não respondeu. Mas o silêncio dela já dizia muita coisa. --- O vento leve passou entre eles. E, por alguns segundos… Tudo ficou tranquilo. Sem perigo. Sem pressa. Sem o mundo lá fora. Bianca respirou fundo. E, pela primeira vez em dias… Sorriu de verdade. Um sorriso leve. Sincero. E foi isso. Foi simples. Mas para Rafael… Aquilo foi tudo. Ele ficou em silêncio. Apenas olhando. Guardando aquele momento. Como se fosse raro. Como se fosse… valioso. E talvez fosse. Porque ali… Sentado ao lado dela… Ele não era só o líder. Não era só o homem temido. Ele era… Só um homem. E ela… Sem perceber… Tinha começado a ocupar um espaço que ninguém mais tinha conseguido ocupar. Rafael passou a mão pela própria perna, como se estivesse se controlando. Mas seus olhos… Não saíam dela. Do sorriso dela. Da forma como ela, sem perceber… Começava a mudar tudo ao redor dele. E naquele silêncio… Algo ficou claro. Ele estava se envolvendo. E, diferente de tudo que ele já viveu… Isso não era algo que ele podia simplesmente controlar. E nem fugir. O vento passava leve enquanto eles permaneciam ali, sentados lado a lado, como se o mundo tivesse diminuído só para caber naquele instante. O silêncio entre eles já não era estranho. Era confortável. Rafael virou o rosto devagar, observando Bianca com atenção. Diferente de tudo que ele costumava sentir… ali não havia pressa. Nem ordem. Nem controle. Só ela. E, depois de alguns segundos, ele falou: — Eu queria te convidar pra um encontro comigo. Bianca piscou, surpresa. Seus olhos se voltaram imediatamente para ele. — Encontro? — repetiu, como se estivesse tentando entender se tinha ouvido direito. — Mas você não sai do morro… como seria isso? Rafael soltou um leve riso. Baixo. Seguro. — Eu tenho uma casa aqui perto — respondeu, tranquilo. — Um lugar seguro. Ninguém sabe. Eu posso mandar trazer comida de um restaurante… e um dos meus homens de confiança leva. Bianca o observava, ainda assimilando. — E você tá me chamando pra ir lá… com você? — Tô — respondeu, direto, sem hesitar. O coração dela acelerou levemente. Não pelo medo. Mas pela ideia. — Amanhã… às 21h… — completou ele, olhando nos olhos dela. — Te encontro aqui. Você vai? Bianca ficou em silêncio por alguns segundos. Pensando. Sentindo. E, no fundo… querendo. Então, assentiu. — Tá bom… eu vou. Rafael observou a resposta dela com um leve sorriso no canto dos lábios. Mas não parou por aí. — Não vai me dar um bolo, né? Bianca soltou um riso leve, balançando a cabeça. — Não… — respondeu, com um pequeno sorriso. — Você me protegeu de ser atacada… eu te devo um encontro digno. Aquilo fez o sorriso dele crescer. Mais genuíno. Mais raro. — Ah, então eu vou te proteger sempre — disse, em tom leve, quase provocando. Bianca riu. — Bobo você, hein… O clima entre eles estava diferente. Mais leve. Mais próximo. Mais perigoso. Porque já não era só curiosidade. Já tinha algo ali. E isso mudava tudo. --- Bianca respirou fundo, olhando para o relógio. — Bom… eu tenho que ir agora, tá? Rafael apenas assentiu. Mas não tirou os olhos dela. Nunca tirava. Ela se levantou devagar. E, antes de sair… se inclinou levemente e deu um beijo no rosto dele. Um gesto simples. Rápido. Mas que, de novo… mexeu com ele. Bianca sorriu. E saiu caminhando. Desaparecendo aos poucos na rua. --- Rafael ficou ali. Parado. Imóvel. Passou a mão lentamente pelo rosto, sentindo ainda o toque daquele beijo. E, por dentro… algo se consolidava. Ele estava se envolvendo. E sabia disso. Mas, diferente de tudo que já viveu… não estava com vontade de parar. Pelo contrário. Ele queria mais. E agora… tinha um motivo para esperar pelo dia seguinte.
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