Primeira olhar
O Complexo do Alemão ainda dormia quando Bianca já estava de pé.
O sol começava a nascer timidamente por trás das casas empilhadas, iluminando as vielas estreitas com uma luz suave que contrastava com a dureza do lugar. Aos 22 anos, Bianca carregava nos olhos uma determinação que não combinava com a sua idade — nem com o ambiente em que cresceu.
Morena, com tranças bem cuidadas que desciam até o meio das costas, ela ajustava a mochila nos ombros enquanto caminhava apressada pela rua. Os passos eram firmes, mas o olhar atento — naquele lugar, distração podia custar caro.
Ela respirou fundo.
“Só mais um dia… só mais um dia e eu tô mais perto de sair daqui”, pensou, apertando os livros contra o peito.
Bianca estudava Direito. Não por acaso. Ela queria entender o sistema, queria justiça, queria fugir daquilo tudo. Queria uma vida diferente da que viu sua família viver.
O barulho de uma moto cortou o silêncio da manhã.
Ela instintivamente olhou.
A moto subia lentamente a ladeira, e quando passou por ela, o mundo pareceu desacelerar por um segundo.
Na garupa, ele.
Rafael.
O olhar dele foi direto para Bianca — intenso, pesado, como se pudesse atravessá-la por dentro. Ele não desviou. Nem ela.
Moreno, alto, imponente… dois metros de pura presença. O corpo musculoso era coberto por tatuagens que contavam histórias que ela nem queria imaginar. O rosto sério, a barba bem marcada e os olhos escuros davam a ele uma aura perigosa.
O tipo de homem que não passava despercebido.
O tipo de homem que Bianca deveria evitar.
E ele sabia disso.
Mas mesmo assim, seus olhos ficaram presos nos dela por tempo demais.
A moto seguiu, mas o olhar… não.
Bianca piscou, confusa, sentindo o coração acelerar sem entender o motivo.
— Que loucura… — murmurou para si mesma, retomando o caminho.
Ela não sabia, mas acabara de cruzar o caminho do homem mais perigoso daquele lugar.
E talvez… da sua vida.
---
Rafael chegou ao ponto mais alto da comunidade.
O som das conversas parou por um segundo quando ele desceu da moto. Homens ao redor abaixaram a cabeça em respeito — ou medo.
Ele passou a mão pelo cabelo, ajeitando-se com calma. Cada movimento dele transmitia controle absoluto. Nada ali acontecia sem que ele soubesse.
— E aí, chefe — disse um dos seus homens, se aproximando.
Rafael apenas assentiu.
Mas sua mente não estava ali.
Estava naquele olhar.
Naquela menina… não, mulher.
Bianca.
Ele não sabia o nome dela ainda, mas sabia que aquele olhar… não era comum.
— Quem é ela? — perguntou, a voz grave e baixa, sem desviar o olhar da direção onde Bianca havia sumido.
O homem hesitou.
— É a Bianca… estuda lá fora, na universidade. Família humilde… não tem envolvimento com nada, chefe.
Rafael ficou em silêncio por alguns segundos.
“Bianca…”
Ele repetiu o nome mentalmente.
E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu algo que não conseguia controlar.
Curiosidade.
Interesse.
Perigo.
— Fica de olho — disse apenas, seco, virando-se para seguir seu caminho.
Mas já era tarde.
Ele tinha visto.
E agora… não conseguiria esquecer.
---
Enquanto isso, em outro ponto da cidade, Bianca tentava se concentrar na aula.
A voz do professor entrava e saía da sua mente. Seus pensamentos voltavam, sem pedir permissão, para aquele olhar.
Aquele homem.
Ela balançou a cabeça, tentando afastar a lembrança.
— Foco, Bianca… foco… — sussurrou para si mesma.
Mas era difícil.
Havia algo naquele olhar.
Algo perigoso.
Algo… proibido.
---
No fim da tarde, Bianca caminhava de volta para casa, o cansaço nos ombros e os pensamentos ainda embaralhados.
Foi quando parou.
A rua estava mais silenciosa do que o normal.
E então ela ouviu.
Passos.
Pesados.
Lentos.
Seu corpo inteiro ficou alerta.
— Tá perdida, princesa?
A voz veio atrás dela.
Bianca congelou por um segundo antes de virar lentamente.
E então…
Ela o viu novamente.
Rafael.
De perto.
Muito perto.
A imponência dele era ainda mais assustadora de perto. O cheiro forte, a postura dominante… tudo nele gritava perigo.
— Eu… eu não tô perdida — respondeu, tentando manter a firmeza na voz.
Ele deu um passo à frente.
E ela… deu um passo para trás.
— Então por que tá tremendo? — ele perguntou, inclinando levemente a cabeça, observando cada reação dela.
Bianca respirou fundo.
— Não tô tremendo.
Mentira.
Rafael soltou um leve sorriso de canto.
Quase imperceptível.
Mas foi o suficiente para fazer o coração dela acelerar ainda mais.
— Bianca, né? — ele disse, como se já soubesse.
Ela arregalou levemente os olhos.
— Como você…
— Eu sei de muita coisa — interrompeu, olhando diretamente nos olhos dela.
Silêncio.
O mundo ao redor parecia ter sumido.
Só existiam eles dois.
E algo invisível… mas intenso… começando a nascer.
Bianca engoliu em seco.
— Eu tenho que ir — disse, dando um passo para sair dali.
Rafael não a impediu.
Mas também não desviou o olhar.
— A gente ainda vai se ver de novo… Bianca.
A forma como ele disse o nome dela fez um arrepio subir pelo corpo inteiro.
Ela não respondeu.
Apenas virou e saiu andando rápido, o coração disparado, tentando entender o que acabara de acontecer.
---
Rafael ficou parado, observando ela se afastar.
E pela primeira vez em anos…
Ele sorriu de verdade.
— Vai dar trabalho… — murmurou para si mesmo.
Mas ele não parecia preocupado.
Muito pelo contrário.
Parecia… interessado.
---
E naquele mesmo dia, sem saber…
Bianca havia acabado de entrar no mundo de Rafael.
E o destino… já começava a escrever o resto da história.