Primeira olhar

943 Words
O Complexo do Alemão ainda dormia quando Bianca já estava de pé. O sol começava a nascer timidamente por trás das casas empilhadas, iluminando as vielas estreitas com uma luz suave que contrastava com a dureza do lugar. Aos 22 anos, Bianca carregava nos olhos uma determinação que não combinava com a sua idade — nem com o ambiente em que cresceu. Morena, com tranças bem cuidadas que desciam até o meio das costas, ela ajustava a mochila nos ombros enquanto caminhava apressada pela rua. Os passos eram firmes, mas o olhar atento — naquele lugar, distração podia custar caro. Ela respirou fundo. “Só mais um dia… só mais um dia e eu tô mais perto de sair daqui”, pensou, apertando os livros contra o peito. Bianca estudava Direito. Não por acaso. Ela queria entender o sistema, queria justiça, queria fugir daquilo tudo. Queria uma vida diferente da que viu sua família viver. O barulho de uma moto cortou o silêncio da manhã. Ela instintivamente olhou. A moto subia lentamente a ladeira, e quando passou por ela, o mundo pareceu desacelerar por um segundo. Na garupa, ele. Rafael. O olhar dele foi direto para Bianca — intenso, pesado, como se pudesse atravessá-la por dentro. Ele não desviou. Nem ela. Moreno, alto, imponente… dois metros de pura presença. O corpo musculoso era coberto por tatuagens que contavam histórias que ela nem queria imaginar. O rosto sério, a barba bem marcada e os olhos escuros davam a ele uma aura perigosa. O tipo de homem que não passava despercebido. O tipo de homem que Bianca deveria evitar. E ele sabia disso. Mas mesmo assim, seus olhos ficaram presos nos dela por tempo demais. A moto seguiu, mas o olhar… não. Bianca piscou, confusa, sentindo o coração acelerar sem entender o motivo. — Que loucura… — murmurou para si mesma, retomando o caminho. Ela não sabia, mas acabara de cruzar o caminho do homem mais perigoso daquele lugar. E talvez… da sua vida. --- Rafael chegou ao ponto mais alto da comunidade. O som das conversas parou por um segundo quando ele desceu da moto. Homens ao redor abaixaram a cabeça em respeito — ou medo. Ele passou a mão pelo cabelo, ajeitando-se com calma. Cada movimento dele transmitia controle absoluto. Nada ali acontecia sem que ele soubesse. — E aí, chefe — disse um dos seus homens, se aproximando. Rafael apenas assentiu. Mas sua mente não estava ali. Estava naquele olhar. Naquela menina… não, mulher. Bianca. Ele não sabia o nome dela ainda, mas sabia que aquele olhar… não era comum. — Quem é ela? — perguntou, a voz grave e baixa, sem desviar o olhar da direção onde Bianca havia sumido. O homem hesitou. — É a Bianca… estuda lá fora, na universidade. Família humilde… não tem envolvimento com nada, chefe. Rafael ficou em silêncio por alguns segundos. “Bianca…” Ele repetiu o nome mentalmente. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu algo que não conseguia controlar. Curiosidade. Interesse. Perigo. — Fica de olho — disse apenas, seco, virando-se para seguir seu caminho. Mas já era tarde. Ele tinha visto. E agora… não conseguiria esquecer. --- Enquanto isso, em outro ponto da cidade, Bianca tentava se concentrar na aula. A voz do professor entrava e saía da sua mente. Seus pensamentos voltavam, sem pedir permissão, para aquele olhar. Aquele homem. Ela balançou a cabeça, tentando afastar a lembrança. — Foco, Bianca… foco… — sussurrou para si mesma. Mas era difícil. Havia algo naquele olhar. Algo perigoso. Algo… proibido. --- No fim da tarde, Bianca caminhava de volta para casa, o cansaço nos ombros e os pensamentos ainda embaralhados. Foi quando parou. A rua estava mais silenciosa do que o normal. E então ela ouviu. Passos. Pesados. Lentos. Seu corpo inteiro ficou alerta. — Tá perdida, princesa? A voz veio atrás dela. Bianca congelou por um segundo antes de virar lentamente. E então… Ela o viu novamente. Rafael. De perto. Muito perto. A imponência dele era ainda mais assustadora de perto. O cheiro forte, a postura dominante… tudo nele gritava perigo. — Eu… eu não tô perdida — respondeu, tentando manter a firmeza na voz. Ele deu um passo à frente. E ela… deu um passo para trás. — Então por que tá tremendo? — ele perguntou, inclinando levemente a cabeça, observando cada reação dela. Bianca respirou fundo. — Não tô tremendo. Mentira. Rafael soltou um leve sorriso de canto. Quase imperceptível. Mas foi o suficiente para fazer o coração dela acelerar ainda mais. — Bianca, né? — ele disse, como se já soubesse. Ela arregalou levemente os olhos. — Como você… — Eu sei de muita coisa — interrompeu, olhando diretamente nos olhos dela. Silêncio. O mundo ao redor parecia ter sumido. Só existiam eles dois. E algo invisível… mas intenso… começando a nascer. Bianca engoliu em seco. — Eu tenho que ir — disse, dando um passo para sair dali. Rafael não a impediu. Mas também não desviou o olhar. — A gente ainda vai se ver de novo… Bianca. A forma como ele disse o nome dela fez um arrepio subir pelo corpo inteiro. Ela não respondeu. Apenas virou e saiu andando rápido, o coração disparado, tentando entender o que acabara de acontecer. --- Rafael ficou parado, observando ela se afastar. E pela primeira vez em anos… Ele sorriu de verdade. — Vai dar trabalho… — murmurou para si mesmo. Mas ele não parecia preocupado. Muito pelo contrário. Parecia… interessado. --- E naquele mesmo dia, sem saber… Bianca havia acabado de entrar no mundo de Rafael. E o destino… já começava a escrever o resto da história.
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