O início do perigo

1409 Words
A noite já havia caído quando Rafael voltou para casa. O silêncio da comunidade contrastava com o peso dos seus pensamentos. Ele caminhava com passos firmes, mas a mente ainda estava presa no que tinha acontecido mais cedo. Naquela menina. Bianca. Ele passou pela entrada da casa grande no alto do morro, empurrando a porta com calma. O ambiente era luxuoso dentro dos padrões dali — móveis caros, decoração bem cuidada, tudo mostrando poder e status. Mas nada disso chamava sua atenção naquele momento. — Você demorou, Rafael. A voz feminina ecoou antes mesmo dele fechar completamente a porta. Ele parou. Julia. Rafael respirou fundo, mantendo a postura firme. Quando se virou, viu a esposa sentada no sofá, cruzada de braços, com o olhar direto nele. Julia era uma mulher de presença marcante. Morena, com o corpo mais cheio, curvas evidentes e um rosto expressivo. Aos 30 anos, ela tinha um olhar que misturava firmeza e cobrança — principalmente quando se tratava dele. Ela levantou uma sobrancelha. — Vai ficar me olhando ou vai responder? — disse, com um tom firme, mas controlado. Rafael caminhou lentamente até ela. — Eu tava resolvendo umas coisas — respondeu, a voz baixa, como sempre. Julia soltou um riso curto, sem humor. — “Umas coisas”… — repetiu, inclinando a cabeça. — E desde quando você resolve “umas coisas” sem avisar? Ele passou a mão pela barba, impaciente. — Não começa, Julia. — Não começar? — ela levantou da cadeira, cruzando os braços. — Você sai cedo, passa o dia fora e volta tarde sem dar satisfação. Eu sou sua esposa, Rafael. Ou você esqueceu? O clima ficou mais pesado. Rafael parou diante dela, o olhar firme. — Você sabe como é minha vida. — Eu sei — ela respondeu, sem recuar. — Mas isso não te dá o direito de me deixar no escuro. Silêncio. Por um instante, nenhum dos dois falou. Mas havia algo ali… tenso. Acumulado. Rafael desviou o olhar por um segundo. E foi aí que, sem perceber, sua mente voltou para Bianca. A imagem dela. O olhar. Aquele momento. Julia observou a mudança. Seus olhos se estreitaram. — No que você tá pensando? — perguntou, mais baixa, mas ainda firme. Rafael voltou a encará-la. — Nada. Mas o silêncio que seguiu disse mais do que qualquer resposta. Julia deu um passo à frente, analisando cada expressão dele. — Você tá diferente… — murmurou. Rafael não respondeu. E isso já era uma resposta. Ela respirou fundo, controlando a própria irritação. — Eu não gosto quando você fica assim — disse, mais calma agora. — Parece distante. Rafael passou por ela, indo em direção à mesa, pegando um copo. — Eu só tô cansado — respondeu, seco. Mas Julia não acreditou. Ela conhecia ele. Conhecia demais. E algo estava errado. — Rafael… — ela chamou, o tom agora mais suave. Ele parou, mas não virou. — Se tiver alguma coisa acontecendo… eu quero saber. Silêncio. O ar parecia mais pesado. Rafael levou o copo à boca, bebendo lentamente, como se estivesse ganhando tempo. Mas no fundo… Ele sabia. Sabia que algo tinha mudado. E que não tinha mais controle total sobre isso. — Não tem nada acontecendo, Julia — disse finalmente. Mas, pela primeira vez… Ele não parecia tão certo. --- Enquanto isso, em outro lugar… Bianca fechava a porta do quarto com o coração ainda acelerado. Ela encostou as costas na madeira, respirando fundo. — O que foi isso…? — sussurrou, levando a mão ao peito. A imagem dele não saía da sua mente. O olhar. A voz. A presença. Ela fechou os olhos. Sabia, no fundo… Que aquele encontro não tinha sido por acaso. E que, de alguma forma… Sua vida tinha acabado de mudar para sempre. Bianca não conseguiu dormir naquela noite. Virava de um lado para o outro na cama, com os pensamentos completamente tomados por Rafael. O olhar dele… a forma como disse seu nome… tudo parecia gravado na sua mente. Ela apertou o travesseiro contra o rosto. — Para… para… — sussurrou para si mesma, tentando afastar aqueles pensamentos. Mas não adiantava. Era como se algo tivesse sido despertado dentro dela. E ela não sabia como controlar. --- Do outro lado da cidade, na mesma madrugada… Rafael estava na varanda da casa, o olhar perdido na escuridão da comunidade. O vento leve balançava sua camisa aberta, deixando à mostra as tatuagens que cobriam seu peito e braços. Ele segurava um copo, mas não bebia. Estava pensando. Pensando nela. — Bianca… — murmurou, quase como se estivesse testando o nome novamente. A imagem dela surgia sem esforço. Os olhos. A postura firme, mesmo com medo. A forma como ela não se entregou ao pânico diante dele. Isso… chamou sua atenção mais do que deveria. — Chefe… Rafael virou o rosto, encarando um dos seus homens que se aproximava. — Fala. — A gente descobriu umas movimentações estranhas na parte de baixo do morro… parece que tem gente querendo entrar sem autorização. Rafael respirou fundo, voltando à realidade. Seu olhar ficou mais duro. — Quero saber quem é — disse, seco. — Já tô investigando. Ele assentiu. Por fora, o mesmo líder frio e implacável. Por dentro… A mente ainda presa em Bianca. --- No dia seguinte Bianca caminhava rapidamente em direção à faculdade. O coração ainda estava inquieto, mas ela tentou se concentrar no que importava: estudar, seguir em frente, construir seu futuro. Era isso que sempre a mantinha firme. — Ei, Bianca! Ela parou ao ouvir seu nome sendo chamado. Virou-se. Era uma colega da faculdade. — Você tá bem? — a menina perguntou. — Parece meio distraída. Bianca forçou um sorriso. — Tô sim… só cansada. A amiga a analisou por alguns segundos, desconfiada. — Tá bom… se precisar conversar, você sabe. — Sei sim… obrigada. Bianca voltou a andar, mas seus pensamentos… não estavam mais ali. Estavam nele. E isso a preocupava. --- Enquanto isso… Rafael estava no centro da comunidade, em meio a uma reunião com seus homens. — Ninguém entra aqui sem eu saber — disse, a voz firme, dominante. — Se tiver alguém tentando se infiltrar, eu quero na minha frente. Todos assentiram. Mas ele sabia que algo maior estava se aproximando. Algo que ele ainda não conseguia ver claramente. E isso não era comum. Rafael sempre tinha controle de tudo. Mas agora… Algo estava diferente. --- Mais tarde naquele mesmo dia… Bianca saiu da universidade e seguiu o caminho de volta para casa. O céu já começava a escurecer. O movimento nas ruas diminuía aos poucos. Ela apertou a mochila contra o corpo, acelerando os passos. — É só chegar em casa… é só chegar em casa… — repetia mentalmente. Mas então… Ela parou. Sentiu. Alguém estava ali. Observando. Seu corpo travou. Ela virou lentamente o rosto… E viu. Rafael. Encostado na parede, em um canto mais afastado da rua, a observando com calma. Como se estivesse esperando. Bianca deu um passo para trás. — O que… você tá fazendo aqui? — perguntou, a voz levemente tremida. Rafael saiu da parede com calma, caminhando na direção dela. — Te encontrando. O tom dele era baixo… controlado… perigoso. Bianca engoliu em seco. — Isso… isso não é certo — disse, tentando manter a razão. Ele parou na frente dela, olhando diretamente em seus olhos. — E o que é certo, Bianca? Ela não respondeu. Porque, naquele momento… Ela não tinha resposta. Rafael se inclinou levemente, diminuindo ainda mais a distância entre eles. — Você deveria estar fugindo de mim… Bianca respirou fundo, sentindo o corpo reagir à proximidade. — Eu tô tentando. Ele soltou um leve sorriso. — Não tá funcionando. Silêncio. O mundo parecia ter desaparecido ao redor deles. — Você não devia estar aqui… — ela sussurrou. — Mas eu tô. A forma como ele respondeu… foi firme. Irreversível. E naquele instante… Bianca percebeu. Ela não estava apenas diante de um homem perigoso. Ela estava diante de alguém que… podia mudar tudo. — Isso é errado… — ela insistiu, mas a voz já não tinha tanta força. Rafael observou cada reação dela. Cada detalhe. E algo nele… mudou. — Nem tudo que é errado… dá pra evitar — disse ele, baixo. Bianca fechou os olhos por um segundo. Tentando resistir. Tentando manter a razão. Mas quando abriu… Ele ainda estava ali. E ela sabia. Aquilo não era o fim. Era só o começo.
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