CAPÍTULO 2
ISABELA NARRANDO
Tem gente que nasce no morro. Eu não. A vida me trouxe pra cá. E não foi por escolha, foi por falta dela. Meu nome é Isabela. Mas aqui quase ninguém me chama assim. Pra todo mundo, eu sou a Bela. E, diferente de muita gente que olha pra esse lugar só como perigo, pra mim, o morro virou refúgio. Mesmo com tudo. Mesmo com medo. Mesmo com as noites em que o barulho de tiro corta o silêncio e faz a gente lembrar que paz aqui é coisa rara.
Eu aperto o lençol entre os dedos, olhando pro teto simples do barraco, enquanto escuto a respiração fraca da minha mãe na cama ao lado. É por ela que eu tô aqui. Sempre foi.
Desde pequena, fomos só nós duas. Nunca conheci meu pai. Minha mãe nunca falou muito sobre ele, e eu também nunca fiz questão de saber. Pra mim, ela sempre foi suficiente. Guerreira pra caramba. Trabalhava em tudo que aparecia. Faxina, cozinha, passava roupa, o que fosse preciso pra botar comida dentro de casa.
E eu cresci vendo aquilo. Aprendi cedo que a vida não dá nada fácil pra ninguém.
A gente morava no interior antes. Uma casinha simples, mas era nossa. Tinha um quintal pequeno, umas plantas que minha mãe cuidava como se fossem filhas, e, por mais que fosse tudo apertado, era tranquilo. Até parar de ser.
A doença chegou sem avisar. Primeiro foi um cansaço estranho. Depois, dores. Aí vieram os desmaios e quando a gente viu, já tava dentro de hospital, escutando palavra difícil que eu nem sabia pronunciar. Mas uma coisa eu entendi bem: era grave. E caro. Muito caro.
Eu engululi seco, lembrando. A gente vendeu tudo que tinha. A casinha, os móveis, até coisa que tinha valor só pra gente, mas que virou dinheiro na mão dos outros. E mesmo assim, não foi suficiente.
Foi aí que a gente veio parar aqui. No morro. Uma conhecida da minha mãe conseguiu esse barraco pra gente. Pequeno, simples, parede fina, mas era o que dava. E, pela primeira vez na vida, eu senti medo de verdade. Não da doença. Mas do lugar. Porque aqui é diferente. Aqui tu aprende rápido que tem regra. Tem dono. E que é melhor não fazer pergunta demais.
Eu sento na beira da cama, passando a mão no rosto cansado.
— Mãe… — chamei baixo.
Ela se mexe devagar, abrindo os olhos com dificuldade.
— Oi, minha filha…
A voz dela sai fraca, quase um sussurro. Meu peito aperta na hora.
— Tá sentindo dor?
Ela tenta sorrir.
— Um pouquinho só… já passa.
Mentira. Eu sei que é mentira. Mas ela sempre foi assim, sempre tentando me poupar, mesmo quando é ela que tá desmoronando.
Segurei a mão dela com cuidado.
— Eu vou dar um jeito, tá bom?
Ela me olha, com aquele olhar cheio de amor… e preocupação.
— Bela… não se mete em coisa errada por minha causa.
Solto um suspiro, desviando o olhar. Se ela soubesse o quanto isso já passou pela minha cabeça…
— Eu não vou — minto.
Porque eu não sei até quando vou conseguir cumprir isso. Levantei da cama, indo até o fogão pequeno no canto do barraco. Coloquei a água pra esquentar, tentando organizar a cabeça. Eu trabalho o dia inteiro. Limpo casa, faço faxina, pego o que aparecer. Mas o dinheiro, nunca é suficiente. Nunca. E o tempo, tá acabando.
Olhei pro envelope em cima da mesa. Dentro dele, os exames, os papéis, os valores. O número tá ali, gritando na minha cara. Impossível.
Passei a mão no cabelo, sentindo o desespero crescer.
— Eu vou dar um jeito… — murmuro de novo, mais pra mim do que pra ela.
Mas dessa vez, a frase soou diferente. Mais pesada. Mais real. Porque lá no fundo, eu já sei o que preciso fazer. Só não queria admitir.
Ajeito a blusa no corpo, peguei minha bolsa surrada e dei uma última olhada pra minha mãe. Ela já fechou os olhos de novo. Fraca. Dependendo de mim. E eu não podia falhar. Não com ela.
Saiodo barraco, sentindo o ar quente bater no rosto. O morro já tava acordado. Criança correndo, som alto em algum lugar, gente indo e vindo, a vida acontecendo no meio do caos. Mas hoje, pra mim, tudo parecia diferente. Mais pesado. Mais urgente.
Desci a viela devagar, sentindo os olhares. Porque aqui, todo mundo repara. Principalmente quando tu não pertence de verdade. E eu sei que não pertenço. Ainda não.
Meu coração acelerou só de pensar. Porque existe um lugar nesse morro, que eu sempre evitei. A boca. O lugar onde tudo acontece. Onde ele fica.
O homem que manda em tudo.
Rubão.
Engulo seco, parando por um segundo no meio da viela. Meu corpo inteiro travou. Medo. Mas logo penso na minha mãe. Na cama. Fraca. Precisando de mim. Fechei os olhos por um instante, criando coragem.
— É por ela…
E voltei a andar. Cada passo parecia mais pesado que o outro. Meu coração batia forte no peito, como se quisesse me fazer voltar atrás. Mas eu não podia. Não agora. Não depois de tudo.
A boca ficava mais embaixo, numa parte do morro onde o movimento nunca parava. Quanto mais eu me aproximava, mais eu sentia o clima mudar. O som alto, as motos, os homens armados espalhados, tudo ali gritava perigo.
Engoli seco. Era a primeira vez que eu vinha aqui de verdade. Parei a alguns passos de distância, sentindo vários olhares caírem em cima de mim. Meu corpo inteiro ficou tenso.
— Ih, olha lá… — um dos vapores falou, dando um sorriso torto — perdidinha, princesa?
Outro já se aproximou, me olhando de cima a baixo sem nem disfarçar.
— Que isso, nunca te vi por aqui não, hein.
Segurei a alça da bolsa com mais força, tentando manter a postura.
— Eu… eu preciso falar com o Rubão.
Eles se entreolharam, e logo começaram a rir.
— Ouviu isso? — um cutucou o outro — a princesa quer falar com o chefe.
— Tá achando que é assim? Chega e entra? — o outro debochou.
Respirei fundo, sentindo o nervosismo subir.
— É sério… eu preciso falar com ele.
— Todo mundo precisa, linda — um deles falou, se aproximando mais do que devia — mas nem todo mundo consegue.
Dei um passo pra trás na hora, desconfortável.
— Eu não tô brincando.
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava, e isso pareceu chamar a atenção deles. Um dos vapores me encarou por alguns segundos, analisando.
— Qual é a tua, então?
Engoli seco.
— Eu só… preciso de uma oportunidade de falar com ele. É importante.
Eles ficaram em silêncio por um instante, como se estivessem decidindo o que fazer.
— Espera aí — um deles falou, virando as costas — vou ver lá dentro ver com ele.
Fiquei ali, parada, sentindo cada segundo passar arrastado. Meu coração parecia que ia sair pela boca. As mãos suavam. A vontade de sair correndo era grande, mas eu fiquei.
Pela minha mãe.
Sempre por ela.
Olhei em volta, tentando não demonstrar o quanto eu tava nervosa. Os outros continuavam ali, me olhando, cochichando, soltando umas risadinhas baixas.
Eu só ignorei.
Não era hora de recuar.
Depois de alguns minutos que pareceram horas, o vapor voltou. Meu corpo travou na hora.
Ele parou na minha frente, me encarando.
— O chefe mandou tu entrar.
Meu coração disparou de vez.
— Ele… vai me atender?
O cara deu de ombros.
— Entra lá e vê.
Respirei fundo, tentando juntar coragem.
Era agora, sem pensar muito, dei o primeiro passo e atravessei.
Continua......