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Um filho para o traficante

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intro-logo
Blurb

Rubão é o homem mais temido do morro do salgueiro. Aos 40 anos, construiu respeito, poder e dinheiro comandando o tráfico com mão firme. Ninguém ousa enfrentá-lo. No mundo em que vive, sentimentos são fraqueza, mas existe um desejo que ele nunca conseguiu esconder de si mesmo: Rubão sonha em ser pai.

O problema é que, vivendo cercado por traições, interesse e perigo, ele nunca encontrou uma mulher em quem pudesse confiar para carregar seu filho.

Até que, em uma noite qualquer na boca, uma moradora aparece desesperada pedindo ajuda.

Isabela, conhecida por todos como Bela, sempre viveu de forma simples no morro, cuidando da mãe doente e trabalhando duro para sobreviver. Sem dinheiro para pagar o tratamento que pode salvar a vida da mulher que mais ama, ela engole o orgulho e vai até o único homem que tem poder para ajudá-la: Rubão.

Ele poderia simplesmente mandar ela embora…

Mas, ao olhar para Bela, ele faz uma proposta inesperada.

Rubão promete pagar todo o tratamento da mãe dela, dar segurança, uma casa melhor e garantir que ela nunca mais passe necessidade. Em troca, Bela precisará fazer apenas uma coisa: gerar um filho para ele.

O que começa como um acordo frio logo se transforma em algo muito mais perigoso. Porque entre promessas, convivência e olhares que começam a dizer mais do que deveriam, sentimentos surgem onde nenhum dos dois esperava.

E quando o coração entra no jogo, nem mesmo o traficante mais poderoso do morro consegue controlar o destino. Entre o poder, o medo e um amor que nasce no meio do caos, Rubão e Bela vão descobrir que algumas escolhas podem mudar suas vidas para sempre.

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1- RUBÃO
CAPÍTULO 1 RUBÃO NARRANDO A real é que ninguém nasce pronto pra ser o dono do morro. Isso aqui não é conto de fadas não, tá ligado? É tiro, é sangue, é perder gente, ou virar mais um nome esquecido na parede. Eu puxo o ar devagar, encostado na laje, olhando o morro lá embaixo. Cada luz acesa, cada viela, tudo isso aqui tem história. E muita delas tem meu dedo. Meu nome é Rubens. Mas todo mundo me chama de Rubão. E hoje eu sou o cara que manda nessa porrä toda. Mas nem sempre foi assim. Eu já fui só mais um moleque correndo descalço no barro, barriga roncando, vendo minha coroa se virar como dava. Meu pai? Nunca colou. Sumiu antes mesmo de eu entender o que era ter um. Cresci na necessidade, na revolta, e aprendendo cedo que o mundo não ia me dar nada de graça. Com 12 anos eu já tava no corre. Primeiro como olheiro, só na atividade, de olho em tudo, avisando quando subia polícia, quando tinha movimento estranho. Era pouco dinheiro, mas já ajudava dentro de casa. E eu gostava daquilo. Gostava do respeito que vinha junto. Aqui, ou tu mete medo, ou tu vive com medo. Com o tempo fui subindo. Virei vapor, depois fogueteiro, e quando eu percebi, já tava no meio dos caras grandes. Já não era mais moleque. Mas também já não tinha mais volta. A vida cobra, parceiro e cobra caro. Teve uma época que o antigo dono do morro começou a vacilar. Fraquejou. Deixou n**o crescer demais, perdeu o controle. Começou a abusar das mina novinha da quebrada, e isso é uma coisa que eu não aceito. Ele virou um fraco, e no nosso mundo, fraqueza é sentença de morte. Eu vi a brecha e agarrei. Não foi bonito não. Não tem heroísmo nessa história. Foi na bala, na estratégia e na frieza. Porque pra chegar onde eu cheguei, eu tive que virar o cara que eu sou hoje. Sem dó. Sem apego. Sem olhar pra trás. Naquela noite, o morro virou um inferno. Tiro pra todo lado, grito, n**o correndo, e eu no meio, comandando tudo, com a mente fria e o dedo leve. Quando amanheceu, já era. O morro tinha dono novo. Eu. Soltei a fumaça do baseado devagar, lembrando disso tudo como se fosse ontem. — Aí, chefe — um dos menor cola do meu lado — carga já chegou lá embaixo. Assenti com a cabeça, sem nem olhar pra ele. — Confere tudo. Quero nada errado. — Pode deixar. O menor sai ligeiro, e eu fico ali, só observando. Hoje eu tenho tudo que um cara como eu poderia querer. Dinheiro, poder, respeito. Ninguém sobe aqui sem eu deixar. Ninguém faz nada sem passar por mim. Mas tem uma parada que dinheiro nenhum compra. Família. Passei a mão na barba, pensativo. Nunca fui homem de me apegar. Mulher pra mim sempre foi diversão, nada além disso. Já vi muita falsidade, muito interesse, e eu não sou o****o de cair nessa. Mas mesmo assim, tenho uma ideia que não sai da minha cabeça. Um filho. Um herdeiro. Alguém pra continuar o que eu construí. Alguém que carregue meu nome, meu sangue. Dei uma risada fraca, balançando a cabeça. — Olha o tipo de pensamento que tu tá tendo, Rubão… Mas é isso. No meio de tanta guerra, tanta perda, eu comecei a querer algo que nunca tive. Um motivo além do poder. Só que nesse mundo nada vem fácil. A porta da minha sala abre sem cerimônia, do jeito que só um pode fazer. Renatinho. Meu sub. Meu braço direito. Meu irmão que a vida me deu no meio desse caos todo. Ele entra já puxando uma cadeira, se jogando nela com aquela cara de quem já vem com opinião pronta. — Tá com uma cara estranha, chefe — ele fala, me analisando — tá pensando demais… isso nunca dá bom. Solto uma risada baixa, encostando melhor na cadeira. — Tô mesmo. Ele arqueia a sobrancelha. — Ih… lá vem. Dou mais um trago, soltando a fumaça devagar antes de falar. — Tô pensando em ter um filho. O silêncio que vem depois é rápido, e logo vira risada. — Tá de s*******m, né? — ele ri, passando a mão no rosto — porrä, Rubão, achei que tu ia mandar algo sério. Eu só fico olhando pra ele, sério. A risada dele vai morrendo aos poucos. — Tu tá falando sério mesmo? — Tô. Ele se ajeita na cadeira, agora prestando atenção de verdade. — Ué… mas qual o problema? — ele dá de ombros — mulher é o que não falta pra tu. Só escolher e já era. Balanço a cabeça na hora. — Não é assim não. — Como não? — ele retruca — tu estala o dedo e aparece dez. Apoio os cotovelos na mesa, encarando ele firme. — Eu não vou ter um filho com qualquer vadiä, não. Ele solta um “ih” baixo, entendendo. — Ah… entendi. Tu quer alguém de confiança. — Não é só isso — respondo na lata — eu quero uma mulher que preste. Que não seja interesseira, que não esteja do meu lado por causa de dinheiro ou poder. Renatinho solta uma risada desacreditada. — Então tu tá procurando coisa rara, hein, chefe… — Eu sei — falo, seco. O silêncio pesa por uns segundos. — E tu acha mesmo que vai achar isso aqui? — ele pergunta, mais sério agora — no meio disso tudo? Passo a mão na barba, pensativo. — Não sei. E essa é a real. Eu não sei. Mas também sei que não vou fazer qualquer merda só pra dizer que tenho um filho. Eu não construí tudo isso pra deixar na mão de qualquer uma. — Eu quero alguém que aguente o peso — continuo — que entenda a vida que eu levo, e mesmo assim não se corrompa. Renatinho me encara, como se tivesse tentando decifrar até onde isso é ideia ou decisão. — Tu tá ligado que isso aí pode dar problema, né? — Minha vida já é um problema — respondo, sem paciência — isso aí é o de menos. Ele solta um riso curto. — Justo. Ficamos em silêncio por alguns segundos, até ele se levantar. — Bom… quando decidir quem vai ser a escolhida, só me avisa — ele fala, já indo pra porta — que eu mando dar um trato no cara que chegar perto dela. Solto um riso de canto. — Some daqui, porrä. Ele abre a porta, mas antes de sair, vira de lado. — Mas papo reto, Rubão… Levanto o olhar. — Se tu quer algo diferente, essa mulher não vai cair no teu colo assim não. Seguro o olhar dele. — Eu sei. Ele assente e sai, fechando a porta atrás dele. Fiquei sozinho de novo. O silêncio da sala pesa, mas minha mente tava longe. Um herdeiro. Uma mulher que preste pra ser a mãe dele. Uma escolha que pode mudar tudo. Soltei o ar devagar, encarando o nada. Sem saber que muito em breve ela ia aparecer. Continua .....

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