Jotinha narrando
Hoje fazem exatos 2 anos que a Lara embarcou para Londres, alguns meses depois de me dar aquele papo. Eu dou um trago no meu baseado, a minha mãe detesta que eu fume, mas o bagulho é mil grau pra acalmar a mente, coisa que eu tenho precisado bastante nesse tempo todo.
No mesmo período que a Lara foi estudar fora, eu comecei a minha iniciação pra ficar a frente do morro do meu pai, grande Jota, líder da facção hoje em dia, depois que o Terror resolveu parar de vez, o cara é f o d a, referência mesmo, aposentadoria merecida. E antes dele foi o meu avô, padrasto da minha mãe, o Líder. Agora é o meu paizão que comanda, e quem sabe um dia serei eu.
Mas falando do hoje, hoje eu tô à frente da Babilônia de forma integral. Um dos donos de morro mais jovem da atualidade, mas quando o morro passa de pai pra filho é assim, mesmo coisa nos morros de alguns amigos e aliados meus.
Todo mundo acha que eu a esqueci, que era um bagulho de adolescente e eu segui em frente, assim como ela, lá na p o r r a da Londres.
Mas eu fiquei esses dois anos igual um i d i o t a caçando uma informação dela aqui e ali, me alimentando dessas migalhas.
No início a gente se falava um pouco, mas eu estava ressentido e era secão com ela. Tratei ela m a l antes dela ir, me afastei, não soube lidar, tá ligado? E como que lidava, também?
Depois com a correria e o ressentimento crescendo, vendo ela vivona e vivendo lá, indo pra barzinho, balada, colégio de playba, conhecendo gente, caras, p o r r a, a neurose bateu forte, e aí que eu me afastei mesmo.
Também veio as responsas e aí já viu, tudo foi dificultando mais.
Ela veio para o Brasil no aniversário de um ano dos sobrinhos, tinha, na época, 8 meses que ela tinha ido embora. Fiquei sabendo, a minha irmã, Bruna, fez questão de me contar que ela estava vindo, mas eu ainda estava p u t o, tinha uma missão e eu cai pra dentro, fiquei fora o tempo todinho que ela esteve por aqui, acho que aí foi a gota d'água para ela, pois nunca mais minha irmã e nem a minha prima me falaram um 'a' dela. Imaginei que tivesse sido à pedido dela, e eu fiz o mesmo, proibi de falarem qualquer coisa de mim.
Eu tinha um i n s t a g r a m fake e stalkeava ela, um dia ela fez a limpa no insta dela e eu rodei, aí que fiquei sem saber nada dela mesmo. Mas de boa, pelo menos foi o que tentei me convencer, que eu estava de boa.
Eu não sei se ela volta hoje, por esses dias, na verdade, eu não sei nem se ela realmente volta. O coração até erra as batidas em pensar que ela não vai voltar mais, mas eu segui em frente, tô de boa, eu repito esse mantra na minha cabeça e sigo dia após dia.
Não posso ignorar que a vida também mudou nesses dois anos, temos 19 anos agora, não somos mais os adolescentes de três anos atrás quando a gente começou a nossa parada. Hoje eu tenho responsabilidades bem sérias, toco o barco aqui bem dizer sozinho, Bruna não quis se envolver em nada da boca, foi pra faculdade, faz direito e se envolve mais com a parte social do morro, mas o crime, que financia essas coisas por aqui, eu que seguro a bronca sozinho.
Não exatamente sozinho, Cacá, Caio, segura comigo sendo o meu sub, assim como o pai dele, o Theus foi o sub do meu pai e o Nh, Noah, é o meu gerente geral das bocas. Hoje esse é o trio 'de frente' do Morro da Babilônia.
Nesses dois anos também fui vendo os casais se formando enquanto eu fiquei para trás, minha irmã anda se pegando com o Cacá, um rolo danado, a minha prima Nina, filha da tia Eva e do tio Dvd, namora com o Marte, dono do morro da Agulhinha, filho do meu avô postiço Líder e da minha avó Kátia, mãe da minha mãe. Elóa, filha da tia Alice, melhor amiga da minha mãe, e do tio Nando, tem o rolo dela também com o Nh, também filho da tia Eva e tio Dvd.
E eu, Jotinha, sigo sozinho porque me recusei a falar um 'A' quando a Lara disse que iria pra Londres. Não que fosse mudar em algo, ela parecia muito decidida.
Com tanta menina nessa Babilônia que é grande pra c a c e t e, eu fui me apaixonar por uma mina lá da Rocinha. Pra me ajudar ainda, Lk, o pai dela, é envolvido lá, ia comer o meu coração assado no espeto se desse ideia mais avançada nela naquela época. E outra, como eu ia brecar uma oportunidade dessas na vida dela?
A gente fez uma viagem em família uma vez, pra Costa Rica. Foi a maior onda, foi da hora, mas demandou muita organização do meu pai, e muito dinheiro pra comprar muita gente nesse caminho de ida e volta. Então, como eu ia tirar a oportunidade dela estudar fora?
A Lara é linda, inteligente, cheia de sonhos, almeja um futuro, seria egoísmo meu tirar isso dela e transformar a vida dela em algo pequeno como ser minha fiel.
Mas também não coloquei ninguém no posto, tô aqui firmão sozinho. Antes só do que m a l acompanhado, é o que dizem.
P i r a n h a na bota tem um monte. E como não teria? Tenho o porte do meu pai, sou altão, quase tão alto quanto o meu pai, tenho 1 metro e 96 centímetros de altura, calço 45, até pra achar calçado é embaçado, musculoso, tudo em mim é grande kkkk. Branco, olhos azuis bem claros, cabelo loiro que eu raspo as laterais e a parte de trás, um lado do corpo todo tatuado, sem barba e sem bigode, carinha lisa.
Olho pra minha cama, ouvindo a minha mãe passar pela porta do meu quarto reclamando, mesmo fumando na sacada o cheiro exala. Ela grita na porta 'logo cedo, Jotinha', mas eu nada respondo.
Pois é, logo cedo, é assim quase todo dia. Olho pra minha cama pensando nas vezes que a gente se pegou gostoso aqui, nunca até o final, não chegou o momento certo disso, como pode ter passado mais de 700 dias longe e o sentimento só ter crescido ao invés de ter mudado, acabado?
É f o d a!
Dois anos.. Será que ela está voltando?