Lara narrando
Não foi fácil, mas me dediquei muito para estudar na Inglaterra e assim o fiz.
As saudades foram muitas, as despedidas não foram fáceis. Nunca vi seus Lukas, vulgo meu pai, chorar tanto, ele quase me convenceu a ficar e usou muito os meus sobrinhos para isso. Deixar Livia e Henry com apenas 4 meses não foi fácil mesmo, e olha que eu consegui adiar, por problemas familiares, por exemplo o sequestro da minha irmã e o nascimento dos meus sobrinhos, e assim eu consegui um prazo pra ir. Assim pude aproveitar um tempinho com os meus sobrinhos recém nascidos, já que eu perderia tantas lindas primeiras fases da vidinha deles, como o primeiro dente, a introdução alimentar, os primeiros passos, as primeiras palavrinhas. Fiz a minha irmã jurar que iria gravar tudo pra mim, além de ficarmos uma hora em chamada de vídeo todos os dias.
Eu fui viver um sonho e um objetivo, mas é claro que o meu coração ficou e por vários motivos.
Os meses entre a minha decisão e o embarque foram bem complicados na Babilônia.
Eu sabia que tudo iria mudar, mas não drasticamente como foi. Ainda fazíamos as nossas resenhas, mas o Jotinha se afastou completamente, eu não tiro a razão dele.
Para que a gente se apegar ainda mais se eu iria passar dois anos fora? Mas eu não esperava que fosse do jeito que foi, muito pouco ele falou comigo naqueles meses. E quanto mais perto ia chegando da hora de eu ir para a Inglaterra, pior ele ficava.
* lembrança on *
Chego na casa da tia Bianca, bato na porta e entro depois de ouvir a voz da Bruna.
Lara: - Oi Bubu, e aí? - abraço ela e beijo a sua bochecha
Bruna: - E aí minha princesa, ansiosa? - suspiro, era pra eu estar mais feliz
Lara: - Ansiosa e nervosa. - sorrio fraco - Cadê o rabugento? - agora é a vez dela suspirar
Bruna: - Tá no quarto ainda. Chegou tarde ontem, já chamei, daqui a pouco tá todo mundo aqui e ele não desce com aquele mau humor dele. Tu já está de biquíni? - assinto confirmando
Lara: - É só tirar a roupa e eu tô pronta. - pisco um olho para ela
Bruna: - Ui! - ela fala e ri
Jotinha: - Rá rá! - ele fala azedo e debochado, ainda do topo da escada - Chegou cedo, não? - ergo uma sobrancelha
Hoje vai ter um churras aqui, uma resenha só dos jovens mesmo, mas vem amigos dos outros morros e tudo, vai ter bastante gente.
Bruna: - Vou na Nina e já volto, vou ver algumas coisas que faltaram com ela e o Noah. - ela trata de sumir rapidinho dali
Lara: - Bom dia pra você também.
Jotinha: - Bom dia. - ele fala simples e vai passando reto sentido a cozinha
Lara: - A gente pode conversar? - eu sigo atrás dele
Jotinha: - Manda aí. - fala sem importância pegando um copo e enche de água
Lara: - Qual é, você vai continuar me tratando assim?
Jotinha: - Tô normal contigo pô. - ele bebe a água toda de uma vez
Lara: - Ah tá. Super normal, sei.
Jotinha: - Tô de boa Lara, só não quero mais ficar se pegando, essa parada foi um erro.
Lara: - Concordo, você não soube levar as coisas, foi um erro mesmo. - digo sem paciência
Jotinha: - E você soube levar as coisas muito bem.. Bem pra longe, tipo pra Inglaterra. - fala debochado
Lara: - Ahhh, então esse é o problema? - ele ri amargo
Jotinha: - P o r r a Lara, como 9 mil km de distância seria solução ao invés de problema? - continua debochado e cruza os braços - Não f o d e!
Lara: - Tá, mas a gente não pode ser de boa, como éramos, até eu ir? E se falar de boa, a gente precisa ser dois estranhos?
Jotinha: - Não sei Lara, só.. Não dá!
Lara: - Somos novos. - falo meio pra baixo
Não posso resolver a minha vida assim agora, deixar de viver coisas, depois eu quebro a cara com ele, ou com outro e aí desisti de estudar em Londres? Não consigo fazer isso, sendo que quando eu voltar a gente pode se entender se isso estiver nos nossos corações ainda, a gente pode conversar, eu não vou querer saber nada do que ele anda fazendo com outras, eu sei que ele pega outras, mesmo a gente se pegando, até porque não passa de beijos e mãos bobas, então que diferença faz a gente continuar amigo e quando eu voltar a gente vê o que acontece?
Jotinha: - E daí? Você sabe o que quer, não sabe? - suspiro me sentindo pressionada e estressada, igual quando o meu pai pesa na minha para eu não ir
Lara: - Eu sei. Eu quero várias coisas, quero viver e me sentir viva, quero estar de boa com você e quero ir pra Londres.
Jotinha: - Bom Lara, infelizmente não dá pra ter tudo. - ele apoia o copo, que usou para beber água, na bancada de mármore e sai me deixando ali sozinha e pensativa
* lembrança off *
A resenha aquele dia foi uma merda, cada um pra um canto de cara fechada.
Não demorou muito e eu embarquei pra Londres decidida a aproveitar cada minuto desses dois anos lá.
Quando chegou perto do aniversários de 1 ano dos meus sobrinhos eu ponderei, eu comecei a pensar em voltar para o Brasil, para participar da festa, só poderia ficar alguns poucos dias, mas seria o suficiente para matar um pouquinho da saudade, participar desse momento especial e quem sabe ver o cabeça dura, já que a Babilônia em peso também seria convidada, se trocamos meia dúzia de mensagens nesses 8 meses, foi muito.
E assim eu fiz, mala de mão, pouquíssimas coisas e fui pro aniversário de um aninho dos meus bebês. Aproveitei muito com eles, quase monopolizei eles, claro, depois de eu ser monopolizada por muitos abraços. Mas para minha surpresa, ok, não tão surpresa assim, o Jotinha não foi e segundo a Bruna, ele estava em missão, nem adiantava eu caçar ele na Babilônia porque eu não iria encontrá-lo.
Mandei mensagem, liguei, não obtive respostas, isso até o dia de eu ir embora de volta pra Londres. Quase não entrei no avião, a minha vontade era de sentar na entrada do morro da Babilônia até ele aparecer e sei lá, dar na cara dele. P o r r a, ele não poderia ter me apoiado? Era tão difícil assim?
Fiquei ressentida!
Com o sentimento virando mais de raiva do que de outra coisa eu entrei no avião e aí eu que passei a ignorar ele, o melhor é que eu me mantivesse focada no que eu fui fazer em Londres, estudar, conhecer a cultura, lugares, pessoas, e foi o que fiz, a partir daquilo me joguei mais ainda na experiência, a qual eu tinha me proposto a viver.
Nos meses que se seguiram o meu contato com o Jotinha se esvaiu pouco a pouco, sei muito pouco dele, as meninas contam algumas coisas, mas eu sempre ignorava, meu único pedido foi que não ficasse falando muito de mim em rodinhas com ele não. A gente precisava seguir em frente, qualquer que fosse o motivo que eu mesma nem sabia direito, e seguimos. Então era desnecessário ficarmos sabendo das coisas um do outro.
Ainda tenho muito contato com os meus amigos da Babilônia e estou ansiosa para vê-los de novo, e quem sabe o meu plano de morar na Babilonia não continue de pé, quem sabe não abro uma franquia da sorveteria da minha mãe lá. É sorvete no Rio de Janeiro, não tem erro.
Quase voltei antes dos dois anos, por causa do aniversário do gêmeos, mas não consegui o voo, por fim decidi cravar os 24 meses e só agora que eu vou voltar, com os meus estudos concluído e com essa cidade, ao meu ver, muito bem aproveitada, até um pulinho na Itália pra ver a minha prima e a sua família, eu dei.
Vim no táxi olhando as ruas de Londres, me despedindo, agora só volto pra passear, eu acho. Já despachei todas as minhas malas, fiquei só com a de mão. Quando chamam o meu voo na área de embarque eu sigo em frente, agora uma Lara mais confiante, do que a que veio para cá.
Já já estou estou de volta, Rio de Janeiro.